Capítulo2 - ClaraVallen

1156 Words
O céu estava começando a escurecer quando saí da pequena padaria do centro, segurando a sacola com alguns mantimentos que havia comprado. O vento frio cortava o meu rosto, trazendo consigo um arrepio que me fazia apertar os ombros. A cidade parecia calma demais, e eu não estava acostumada com isso, órfã e sozinha, cada passo que eu dava à noite parecia mais arriscado. Enquanto caminhava pela rua deserta, tive a estranha sensação de estar sendo observada. Estava começando a detestar ter arrumado aquela casa mais afastada do centro. Um calafrio percorreu a minha espinha, e o meu coração começou a bater mais rápido. Olhei por cima do ombro, mas não vi nada além das sombras que se alongavam pelas paredes antigas dos prédios. Tentei me convencer de que era paranoia, mas algo dentro de mim dizia que não era. Foi nesse momento que senti passos atrás de mim, leves, mas persistentes. Respirei fundo e comecei a andar mais rápido, quase correndo, quando uma voz masculina soou de repente, firme e baixa: — Você não deveria andar sozinha tão tarde. Eu já avisei. Girei bruscamente, e quase bati de frente com ele. Seus olhos intensos, penetrantes, fixaram-se nos meus por um instante que me pareceu eterno. A luz amarelada do poste iluminava parcialmente seu rosto, destacando os traços fortes e quase impecáveis. — Você… Aliás, quem é você? — gaguejei, surpresa e assustada. — Alguém que se preocupa em não ver você se meter em problemas — respondeu ele, com um tom arrogante e frio. — É perigoso andar assim sozinha. Minha respiração estava acelerada, e eu sentia o coração martelar no peito. Não era só medo; havia algo nele que me desconcertava de um jeito que eu não conseguia explicar. — Eu… eu sei me cuidar — murmurei, tentando recuperar o controle. — Duvido — ele rebateu, arqueando uma sobrancelha. — Mas eu não vim aqui para discutir. O modo como ele falava, firme e direto, me fez perceber que aquele homem tinha uma presença que não podia ser ignorada. Algo na cidade parecia girar ao redor dele, ainda que eu não conseguisse entender exatamente o quê. Era como se, sem saber, eu tivesse esbarrado em alguém que tinha poder, respeito ou influência. — Então você vai me acompanhar até em casa? — perguntei, meio provocativa, tentando disfarçar a mistura de medo e curiosidade que sentia. Ele me olhou com intensidade, e por um instante pensei que fosse recusar. Mas então, silenciosamente, começou a andar ao meu lado, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O silêncio entre nós era carregado de tensão elétrica, e eu sentia cada segundo aumentar meu nervosismo. — Você fala pouco, mas observa demais — comentei, tentando quebrar a tensão. — Gosto de saber o que está acontecendo ao meu redor — respondeu, sem me olhar, apenas mantendo os olhos nas sombras da rua. — É… útil. Quando virei uma esquina, senti novamente aquele frio na espinha. Uma lataria amassada se moveu perto de um barranco, e um gato assustado saltou, correndo em minha direção. Eu tropecei e quase caí, mas ele agiu rápido. Num movimento quase felino, segurou meu braço com firmeza, me puxando para trás. — Cuidado! — disse ele, e seu tom continha algo mais que preocupação: havia urgência. O contato fez meu corpo estremecer. Meu olhar encontrou o dele, e percebi uma intensidade que me fez perder a respiração por um instante. A raiva e o medo misturaram-se com algo inesperado, uma atração inexplicável. — Valeu… — murmurei, tentando recuperar a compostura. — Que isso não aconteça de novo — disse ele, arqueando o lábio de forma ligeiramente provocativa. — Ande com mais atenção. Eu queria questionar aquela arrogância, argumentar, mas sua presença era esmagadora e eu só podia estar ficando louca por deixar aquele estranho me acompanhar. Era impossível não me sentir pequena ao lado dele, mesmo sabendo que aquilo era apenas um pequeno gesto. Algo me dizia que ele não era só frio e arrogante; havia camadas nele que eu ainda não podia compreender, e isso só aumentava minha curiosidade. — Qual o seu nome? — perguntei. — Isso importa? — Bom, você é um estranho que está me acompanhando até em casa, então acho que importa. Se for me matar mereço ao menos saber seu nome — falei, brincando, e ele me encarou sério. — Kael — disse simplesmente. — Então… você mora aqui? — perguntei, tentando puxar assunto para disfarçar a estranheza. Ele me lançou um olhar que misturava surpresa e um leve divertimento. — Sim, e você acabou de descobrir que a cidade tem gente que cuida da própria vida. — Ele deu um passo à frente, depois parou, me deixando ainda mais perto. — E você, recém-chegada, parece não ter ideia de como as coisas funcionam por aqui. — Não é tão difícil — respondi, tentando soar confiante. — Só estou me acostumando. Ele sorriu levemente, quase imperceptível, e eu percebi que por trás da arrogância havia algo que só alguns poderiam notar: uma atenção especial, um interesse velado que não se deixava ver facilmente. Quando finalmente chegamos perto do meu prédio, o clima parecia pesado, carregado de expectativas não ditas. Kael me olhou de cima a baixo, avaliando algo que eu não conseguia decifrar. — Amanhã, não vá sozinha até a padaria. — Ele disse, firme. — A cidade pode parecer calma, mas nem tudo é o que parece. Meu coração disparou novamente. — E você vai me proteger? — perguntei, meio provocativa, meio desafiadora. Ele apenas arqueou uma sobrancelha, sem dizer uma palavra, e se afastou em passos silenciosos, deixando-me com uma sensação estranha: medo misturado com algo que eu não sabia nomear. — Te proteger? — perguntou por fim, rindo um pouco. Entrei rápido pelo portão, deixando-o ali, e enquanto subia a pequena escada até a porta da casa, fiquei pensando naquele homem que surgira do nada e mudara a noite de forma tão intensa. Ele era arrogante, frio, mas… impossível de ignorar. E possivelmente perigoso. Eu sabia que aquela interação não seria a última. Havia algo sobre Kael que eu precisava descobrir, mesmo que me assustasse. Quando me deitei, ainda sentindo o calor do braço dele segurando o meu quando o g**o pulou na minha direção, meu coração não conseguia parar de bater. O medo se misturava com curiosidade e uma ansiedade que eu não queria admitir. E então, no silêncio do meu quarto, uma certeza me assolou: aquela cidade guardava segredos, e Kael era parte deles. Mas de que lado ele realmente estava? E se o perigo que senti não fosse apenas um gato assustado, mas algo muito maior? O medo e a expectativa formaram uma tempestade dentro de mim, e eu sabia que precisava estar pronta para o que viesse a seguir. O que quer que estivesse por vir, ele estava no centro disso, e eu sabia que não conseguiria ficar longe.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD