Capítulo 1 - Clara Vallen
A cidade parecia quieta demais. Estranha demais. Cada sombra que se estendia pelas ruas desertas me deixava em alerta, como se os prédios e as árvores estivessem observando cada passo meu, e eu não podia deixar de sentir que algo estava errado. Eu era órfã, sozinha, recém-chegada àquela cidade pequena que prometia ser meu recomeço, mas que me fazia sentir mais vulnerável do que nunca. Tudo aqui era novo: os sons, os cheiros, as pessoas, embora eu ainda não tivesse cruzado com muitas. E, honestamente, não tinha muita coragem de sair por aí e descobrir.
O vento soprava frio naquela noite, trazendo consigo um cheiro úmido que misturava terra e folhas molhadas. Eu puxei mais a jaqueta, tentando aquecer os ombros, e acelerei o passo em direção à pequena casa que aluguei. Cada barulho distante, o ranger de uma porta, o som metálico de algum objeto caindo, me fazia estremecer. Meu coração acelerava sem controle, e eu comecei a perceber que estava sentindo algo mais que apenas cansaço. Um instinto antigo, primitivo, me avisava: você não está sozinha.
— Tem alguém aí? — murmurei, minha própria voz ecoando pelo silêncio da rua. Mas não houve resposta. Apenas o som dos meus passos ressoando no chão irregular. Cada vez mais rápido. Cada vez mais alto. Eu queria que o chão se abrisse sob meus pés, me levasse para longe daquele medo crescente.
Foi quando o arrepio subiu da nuca até a ponta dos dedos. Senti algo se movendo na periferia da minha visão, e meu corpo inteiro reagiu antes mesmo da mente. Um instinto de sobrevivência tomou conta de mim. Comecei a correr.
Minhas pernas batiam contra o asfalto, o coração pulsando como se quisesse sair do peito. Eu não sabia se era apenas minha imaginação ou se realmente alguém estava me seguindo, mas não havia tempo para hesitar. Cada respiração vinha em cortes curtos, cada passo parecia ecoar em um túnel que se fechava em torno de mim.
Foi então, em um beco estreito, que tudo aconteceu. Eu estava tão concentrada em fugir, em sobreviver, que não vi a figura à minha frente até bater contra ele. Um choque que me derrubou quase de joelhos, e quando ergui o olhar, lá estava ele.
Ele era alto, imponente, com ombros largos e postura confiante. Mas não era apenas a estatura que me fez congelar; era o olhar. Olhos verde-escuros, penetrantes, que pareciam enxergar dentro da minha alma, decifrando cada medo, cada pensamento que eu ainda não tinha coragem de admitir para mim mesma.
— Cuidado! — exclamei, recuando, mas a sensação de perigo não diminuiu. Ele não se moveu, apenas me observou, e algo em sua presença me fez sentir vulnerável e exposta.
— Você anda sozinha tarde demais — disse ele, a voz firme, baixa e carregada de uma autoridade que me deixou sem fôlego. — Não deveria se expor assim. É perigoso.
Eu engoli seco, tentando organizar minhas ideias.
— Eu… eu só estava voltando para casa — gaguejei, sentindo meu corpo tremer. Cada palavra parecia minúscula diante daquela figura imponente que permanecia parada, me estudando.
Ele inclinou a cabeça, curioso, quase como se eu fosse um animal selvagem sendo avaliado.
— Não é desculpa — murmurou, e o olhar dele me atravessou, frio e intenso. — Nunca ande sozinha aqui. Algumas coisas nesta cidade não querem que você esteja viva.
— Quem… quem é você? — arrisquei perguntar, minha voz quase sumindo no silêncio da noite. Eu sabia que deveria me afastar, correr novamente, mas havia algo nele que me mantinha parada, presa sem cordas.
— Isso não importa — respondeu, frio, afastando-se apenas o suficiente para manter a distância, mas mantendo os olhos fixos em mim, como se cada movimento meu fosse monitorado. — Apenas lembre-se: a cidade tem seus segredos, e você acabou de chamar atenção.
Meu coração disparou. A cada palavra, meu medo se misturava a uma tensão estranha, quase dolorosa, que eu não conseguia entender. Ele não parecia humano. Havia algo de diferente, algo de perigoso, e a simples presença dele fazia o ar ao meu redor parecer mais pesado, carregado.
— Eu… eu vou para casa — murmurei, tentando recuperar o controle sobre meu corpo trêmulo.
Ele apenas assentiu levemente, como se meu simples gesto fosse aceitável.
— Faça isso — disse antes de adentrar a parte mais escura do beco
Fiquei parada por alguns segundos, incapaz de me mover, incapaz de respirar direito. A rua voltou a estar silenciosa, mas a sensação de perigo não me abandonou. Algo dentro de mim sabia que aquela noite não era um acidente. Que Kael, aquele homem frio e arrogante, não era alguém que pudesse ser esquecido.
Caminhei para casa, tentando recompor o fôlego e o raciocínio, mas cada sombra parecia se mexer, cada ruído parecia se aproximar. Meu coração ainda batia rápido, e minha mente não parava de analisar cada detalhe daquele encontro: os olhos intensos, a postura firme, a voz que parecia cortar o ar, a forma como ele me olhou como se pudesse me despedaçar com um simples gesto.
Chegando à pequena casa, trancando a porta atrás de mim, eu finalmente me permiti um suspiro longo. Sentei no chão, encostada na porta, e tentei acalmar minha respiração descompassada. Mas o medo não era o único sentimento presente. Havia algo mais, algo estranho, uma mistura de curiosidade e atração que eu não conseguia nomear.
— O que… o que foi isso? — sussurrei para mim mesma, os dedos trêmulos segurando o batente da porta.
Aquele homem não era apenas perigoso, ele era… diferente. Havia algo nele que parecia vivo de um modo que os outros não eram, uma presença quase sobrenatural que me deixava ao mesmo tempo aterrorizada e fascinada.
E, mesmo enquanto tentava me convencer de que nunca mais o veria, uma certeza gelada percorreu minha espinha: ele não era alguém comum. Havia mistério, perigo, e algo que eu ainda não conseguia compreender.
Enquanto a noite caía completamente e eu me encolhia sob o cobertor tentando dormir, imagens daquele encontro invadiam minha mente: os olhos intensos me observando, o jeito como ele parecia ler meus pensamentos, a arrogância misturada com um cuidado estranho, e aquela voz firme que parecia ecoar na minha alma.
A cidade estava silenciosa, mas eu sabia que havia algo escondido nas sombras. E ele estava no centro de tudo. O homem que eu ainda não sabia quem era. E eu não conseguia me livrar da sensação de que aquele encontro não seria o último.