Capítulo 4

1092 Words
Melissa Ferraz ~ Ligação on: ~ — Liz, estou na frente do seu prédio. — Só um minuto, amiga, já estou descendo~ ~ Ligação off ~ Assim que Eliza entra no carro, seguimos caminho ao shopping. O trajeto inteiro foi preenchido com músicas antigas que sabíamos de cor e conversas leves, aquelas amenidades que parecem bobas, mas que aquecem o coração. Por alguns minutos eu consegui esquecer completamente os meus conflitos. — Chegamos, amiga. Onde vamos primeiro? — Não faço ideia, Mel. O que você queria tanto vir fazer aqui? — Liz me olha com aquela expressão desconfiada. Na verdade, eu nem sabia direito. Só queria sair de casa. Só queria não pensar. — Nada em especial… só distrair e gastar um pouco do meu suado dinheirinho. Liz cai na gargalhada, me fazendo rir também. — Vamos logo, doida. Caminhamos bastante pelo shopping. Experimentei alguns vestidos, provei saltos, comprei algumas roupas — inclusive a que usarei hoje no jantar com Hugo, acompanhada de uma lingerie muito sexy que me fez sentir poderosa só de olhar. Talvez eu estivesse tentando reacender algo. Talvez estivesse tentando me convencer de que ainda valia a pena. Compramos maquiagens, rimos no meio das lojas, comentamos sobre pessoas aleatórias passando. Até que, ao passarmos por uma joalheria, meu mundo pareceu desacelerar. Vejo Hugo. Acompanhado de uma loira muito bonita e elegante. Um enorme ponto de interrogação surge na minha cabeça. Meu coração dá uma batida mais forte — não de alegria. Quem é ela? O que ele faz aqui com essa mulher? Ele não estaria o dia todo super ocupado? Um sentimento estranho surge em meu peito. Uma pontada incômoda. Hugo não seria capaz de me trair… né? Saio do devaneio com Liz falando. — Amiga… aquele não é o Hugo, seu namorado? Liz está tão perdida quanto eu. Mas não posso tirar conclusões precipitadas. Preciso saber quem é essa mulher. — É sim, Liz. — E quem é aquela mulher? — Não faço ideia, amiga. Mas vou descobrir. Pode ter certeza. Penso em ir até eles. Confrontar. Perguntar. Mas algo me prende. Medo? Orgulho? Ou receio de ouvir algo que não quero? Antes que eu pudesse decidir, ouço alguém me chamar. — Melissa Ferraz! Me viro automaticamente e dou de cara com Gabriel, meu lindo e querido irmão. — Gabriel! Me jogo em seus braços sem pensar. Não sabia que estava com tanta saudade dele até sentir aquele abraço forte e protetor. Que sensação boa. — Você sumiu, irmãzinha. Faz tempo que não nos vemos. Nunca mais foi me visitar. Sinto sua falta. — Eu sei, Gabe… tá muito difícil. Minha vida tá uma correria só, ainda mais nessa reta final da faculdade. — Dessa vez vou te perdoar — ele diz num tom brincalhão que me faz rir. Ele se inclina um pouco para o lado, me mostrando a pessoa ao seu lado. — Mel, esse é meu amigo, Gustavo. Trabalhamos no mesmo hospital. E então eu o vejo. Olhos azuis feito o mar. Pele clara. Cabelos castanho-escuros perfeitamente alinhados. Alto — muito alto. Os músculos marcados sob a camisa social justa. Uma presença absurda. Naquele instante senti algo estranho dentro de mim. Uma sensação que não sei descrever. Quando ele pega minha mão em cumprimento, uma onda de eletricidade percorre meu corpo. Solto antes do que gostaria. — É um prazer finalmente te conhecer, Melissa. Gabriel fala muito de você. E quando ele fala… A voz grave me atravessa. Meu coração acelera. Me perco no brilho dos seus olhos e me encontro naquele sorriso. Mas que droga está acontecendo, Melissa? Se recompõe. Você tem um namorado. — É um prazer conhecê-lo, Gustavo. Ele me analisa atentamente, e eu sinto como se estivesse sendo lida. Com dificuldade, consigo sair daquela bolha e lembro que Eliza está comigo. — Gabe, essa é minha amiga e companheira de trabalho, Eliza… Liz, esse é meu irmão, Gabriel. Eles se cumprimentam com um beijo no rosto. Vejo Liz corar levemente, o que me arranca um sorriso discreto. Não sei se estou ficando doida, mas sinto os olhos de Gustavo sobre mim de tempos em tempos. E aquilo me causa arrepios em lugares que prefiro nem nomear. — O que faz perdida por aqui, Melissa? — Nada de especial, Gabe. Vim dar uma volta… respirar um ar. — E seu digníssimo namorado, onde está? — o tom dele é levemente irônico. Eu sei que Gabriel não gosta do Hugo. Ele nunca escondeu isso. Lembro que vi Hugo ali há poucos minutos… mas agora ele não está mais. — Ele está no trabalho. Anda muito atarefado ultimamente. Sinto o olhar de Liz sobre mim. Evito encará-la. — Que tal comermos alguma coisa juntos? Tô morrendo de saudade de passar um tempo com você, pestinha. Olho rapidamente para Gustavo. Ele parece se divertir com a situação. — Claro, irmãozinho. Adoraríamos, né Liz? — Ãn? Sim… claro. Caminhamos até um restaurante do shopping. O clima fica leve, descontraído. Gustavo diz não estar com fome e pede apenas um suco. A conversa flui naturalmente. Por algumas horas, eu esqueço completamente Hugo. Esqueço a loira. Esqueço minhas dúvidas. Falamos sobre tudo, até cair no assunto do momento: o grande casamento do Felipe. — Ai, não vejo a hora. Estou tão ansiosa! — Não acredito que meu irmão vai se casar primeiro que eu — Gabriel reclama. — E você lá quer se casar, Gabriel? — provoco. — Quem sabe, Melissa… só acho que ainda não apareceu a pessoa certa. Ele olha diretamente para Liz. Meu irmão tá afim da Liz? O clima fica levemente diferente. Liz parece nervosa. — Bom… acho que já está na nossa hora, né Melissa? Preciso preparar algumas atividades, e você ficou de me mandar aquela dinâmica... Entendo o recado. Me levanto e abraço Gabriel com força. — Prometo te visitar. Me viro para Gustavo. Ele me encara de novo. E dessa vez é diferente. Mais intenso. Mais demorado. — Foi um prazer conhecê-lo, Gustavo. Ele se aproxima e me envolve em um abraço breve, depositando um beijo em minha bochecha. Que cheiro magnífico. Meu Deus. Existe homem mais perfeito? Foco, Melissa. Nos despedimos. Deixo Liz em casa e sigo para a minha. No caminho, percebo que Liz e eu praticamente não conversamos sobre o que realmente importava. Sobre Hugo. Sobre a loira. Sobre o olhar de Gustavo. Que ótima amiga eu sou. Mas amanhã, sem falta, eu converso com ela. Agora preciso me preparar para o jantar. E, pela primeira vez em muito tempo… não sei exatamente o que estou sentindo.
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