Melissa Ferraz
O celular do Gabriel começou a vibrar no bolso da calça.
No começo, ele ignorou. Estava com o braço ainda ao meu redor, como se me soltar fosse perigoso demais. Mas o aparelho vibrou de novo. E de novo. Insistente. Urgente.
Ele suspirou, contrariado, e atendeu.
— Gabriel falando.
Eu senti o corpo dele enrijecer quase de imediato.
— Como assim agora? — a voz dele mudou, profissional, tensa. — Eu… eu tô no meio de uma situação familiar.
Silêncio do outro lado.
Gabriel passou a mão pelo rosto.
— Uma cirurgia de alto risco? — repetiu. — Delicada quanto?
Meu estômago revirou.
— Eu chego aí — ele disse por fim, com a voz pesada. — Me dá quinze minutos.
Ele desligou devagar.
Ficou alguns segundos parado, olhando para o nada, como se estivesse sendo rasgado em duas direções diferentes.
— É do hospital — ele disse, finalmente, me encarando. — Um caso grave. Precisam de mim agora.
Meu coração apertou.
— Gabriel… — comecei, sentindo o pânico subir. — Eu não quero ficar sozinha.
Ele se ajoelhou na minha frente na mesma hora, segurando meu rosto com cuidado.
— Você não vai — afirmou. — Eu só… — a voz falhou por um segundo. — Eu odeio ter que sair agora.
Eu vi o conflito nos olhos dele. A culpa. O medo. A raiva de um mundo que não dava trégua nem depois de tudo.
Foi quando Gustavo falou.
— Vai tranquilo — disse firme. — Eu fico com ela.
Olhei para ele no mesmo instante.
— Eu levo a Melissa pra minha casa — continuou. — Lá ela vai estar segura. Eu cuido dela.
O ar na sala mudou.
Gabriel se levantou devagar e virou para Gustavo, fuzilando-o com o olhar. Um silêncio pesado se instalou entre os dois.
— Você tá me pedindo pra deixar minha irmã com você? — ele perguntou, a voz baixa, perigosa.
Gustavo não desviou o olhar.
— Tô te garantindo que ela vai estar protegida — respondeu. — Com a minha vida, se precisar.
Os segundos se esticaram.
Meu coração batia forte demais.
— Gabriel… — chamei, a voz fraca. — Eu… eu confio.
Ele fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. Quando abriu, havia resignação misturada com alerta.
— Qualquer coisa fora do lugar… — ele disse para Gustavo. — Qualquer coisa, eu volto e acabo com você.
Gustavo assentiu.
— Justo.
Gabriel voltou o olhar para mim e me abraçou forte, apertado, como se quisesse me guardar dentro dele.
— Me liga. A qualquer hora — pediu. — Qualquer coisa estranha, você me liga.
— Eu prometo — sussurrei.
Ele beijou minha testa, demorando mais do que o normal, e então se afastou, indo em direção à porta com passos pesados.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a ocupar a sala destruída.
Eu fiquei ali, sentada, o corpo cansado, a alma em frangalhos.
Gustavo se aproximou devagar.
— Vamos pegar só o essencial — ele disse, com cuidado. — Roupas, documentos. Depois a gente resolve o resto.
Assenti, enquanto eu me levantava, apoiando-me no sofá, uma coisa ficou clara dentro de mim:
Eu estava deixando aquela casa para trás.
Aquele relacionamento.
Aquela versão de mim que achava que amor doía.
E, mesmo sem saber o que vinha depois…
pela primeira vez, eu estava escolhendo sobreviver.
A casa parecia ainda mais vazia depois que Gabriel foi embora.
Eu caminhava devagar pelos cômodos, pegando documentos, algumas roupas, o carregador do celular… como se cada objeto pesasse mais do que realmente era. Gustavo me observava em silêncio, atento a cada movimento meu, como se estivesse medindo até onde eu aguentava.
— Melissa — ele disse com cuidado. — A gente precisa fazer o boletim de ocorrência.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
— Eu sei… — respondi baixo. — Eu só tenho medo.
Ele assentiu, respeitando esse medo.
— Não é pra punir — explicou. — É pra te proteger. Pra criar um registro. Se ele tentar chegar perto de você de novo, isso vira uma muralha.
Respirei fundo.
— Tá — falei, depois de alguns segundos.
— Eu faço.
Os olhos dele suavizaram um pouco.
Sentamos no sofá, lado a lado, conversando baixo. Eu contei coisas que ainda não tinha conseguido dizer em voz alta. Medos. Culpa. Vergonha. Gustavo ouviu tudo sem interromper, sem minimizar, sem tentar consertar à força.
Em algum momento, nossos olhares se encontraram.
E foi estranho.
Porque mesmo com o coração em pedaços, mesmo com o corpo dolorido, eu encontrei paz ali. No fundo dos olhos dele. Um lugar firme, silencioso, onde eu não precisava me defender.
— Tem câmera aqui na casa? — ele perguntou, mudando levemente o tom.
— Só na entrada — respondi. — No portão. E acho que a casa da frente também tem.
— Já ajuda — ele disse. — Vamos ver isso.
Fomos até o portão. Gustavo analisou a câmera instalada ali, verificou o horário, os registros. Depois atravessamos a rua e conversamos rapidamente com o vizinho, que, ao ver meu estado, não hesitou em liberar as imagens da câmera externa.
No celular de Gustavo, tudo ficou claro: Hugo chegando alterado, o jeito agressivo, a forma como entrou e saiu da casa.
Ele assistiu com atenção, o maxilar travado.
— Isso é mais do que suficiente — afirmou, me olhando.
Voltamos para o carro.
A delegacia parecia fria demais, iluminada demais. Eu tremia enquanto contava tudo outra vez. Cada palavra doía como se estivesse acontecendo de novo, mas eu continuei. Fiz o boletim. Respondi perguntas. Assinei papéis.
Depois veio o exame de corpo de delito.
Eu me senti exposta. Vulnerável. Pequena.
Mas necessária.
Quando tudo terminou, eu estava exausta. O corpo pesado, a mente embaçada. Entramos no carro em silêncio, antes de abrir a porta, ele parou.
— Melissa
Virei para ele.
Gustavo me puxou para um abraço forte, apertado, daqueles que não pedem nada em troca. Meu rosto afundou no peito dele e, pela primeira vez em dias, eu chorei sem desespero. Só cansaço. Alívio. Sobrevivência.
— Eu tô aqui — ele disse baixo, firme, perto do meu ouvido. — Pra tudo. O que você precisar. Pelo tempo que precisar.
Fechei os olhos.
Naquele abraço, eu não era a mulher traída.
Nem a noiva abandonada.
Nem a vítima.
Eu era só alguém sendo amparada.
E, pela primeira vez desde que tudo tinha desmoronado,
eu senti que talvez — só talvez —
eu estivesse segura.
O trajeto até a casa do Gustavo foi silencioso.
As luzes da cidade passavam pela janela como borrões, e eu me sentia exatamente assim por dentro: desfocada, cansada, vazia demais para pensar. O corpo ainda doía, mas a dor maior vinha de um lugar que não aparecia no exame de corpo de delito.
Quando o carro parou, eu demorei alguns segundos para descer.
O apartamento dele, ou melhor e bem dizendo, a cobertura dele ... era discreto, seguro, iluminado de um jeito acolhedor, luxuoso demais. Nada frio. Era… calma. E aquilo me fez soltar um suspiro que eu nem sabia que estava prendendo.
Gustavo percebeu.
— Entra — disse baixo. — Você tá em casa aqui.
A palavra casa bateu estranho no meu peito.
Ele abriu a porta e me deu espaço, como se não quisesse me pressionar nem por um segundo. Assim que entrei, senti o cheiro dele — seu perfume amadeirado estava pela cobertura toda— e, contra a minha vontade, meu corpo relaxou um pouco.
— Quer água? Chá? — perguntou.
— Água tá bom.
Enquanto ele foi até a cozinha, eu me sentei no sofá, abraçando meus próprios joelhos. Observei o ambiente com atenção: poucos objetos, tudo no lugar, uma organização que parecia refletir o jeito dele de tentar controlar o mundo.
Ele voltou e me entregou o copo com cuidado.
— O quarto de hóspedes tá arrumado — disse. — Mas se você preferir ficar no meu quarto, eu fico por perto.
— O quarto de hóspedes tá ótimo — respondi. — Obrigada… por tudo.
Ele assentiu, como se agradecer ainda fosse pouco perto do que tinha acontecido.
No quarto, ele me mostrou onde ficavam toalhas limpas, tinha até algumas roupas dele, caso eu precisasse — uma camiseta larga demais, um moletom.
— Se precisar de mim, é só chamar — falou, já recuando para a porta. — Eu vou estar acordado.
— Gustavo — chamei antes que ele saísse.
Ele virou.
— Obrigada por não me deixar sozinha.
Os olhos dele escureceram um pouco, carregados de algo que ele parecia lutar para conter.
— Eu não deixaria — respondeu firme. — Nunca.
Quando a porta se fechou, eu finalmente me permiti chorar outra vez. Um choro silencioso, contido, que não pedia socorro — só espaço, eu tinha jurado para mim mesma, aquele seria o último choro, eu teria que levantar a cabeça e seguir em frente, por mais que tudo tenha sido bruto demais pra mim, ficar chorando e se lamentando não combinava comigo. Eu sempre fui do tipo sonhadora, que corre atrás do que quer, que leva a vida com leveza, e agora mais do que nunca, eu precisava ser forte. Eu já não estava feliz nesse relacionamento, e foi melhor assim, é claro que eu não queria que chegasse a esse ponto. Mas, foi melhor acontecer agora, antes de nos casarmos, depois viraria uma bola de neve.
Troquei de roupa, deitei na cama e encarei o teto por longos minutos.
Tudo tinha mudado em dois dias.
O amor que eu achava que tinha.
O futuro que eu planejava.
A mulher que eu pensava ser.
Mas, ali, naquela casa que não era minha, eu não senti medo de fechar os olhos.
Porque, do outro lado da porta, havia alguém disposto a ficar.
Sem exigir.
Sem ferir.
Sem dominar.
E enquanto o sono finalmente me puxava, uma certeza suave se formou no fundo do meu peito:
Eu não estava mais sozinha, e isso me acalentava.