Gustavo Pierone
Eu já tinha rodado a cidade inteira quando parei em frente ao prédio do Gabriel.
Não foi uma decisão pensada. Foi cansaço. Foi o vazio ficando alto demais dentro do carro. Desliguei o motor e fiquei alguns segundos olhando para o nada, tentando entender por que meus pés me trouxeram até ali.
Eu não fazia ideia de que ela estaria lá.
Subi mais por hábito do que por intenção. Gabriel abriu a porta com uma expressão cansada, o rosto ainda marcado pela raiva.
— Gustavo? — ele franziu a testa. — Que foi?
Eu ia responder qualquer coisa. Uma desculpa. Um “só passei pra ver se você tava bem”.
Mas então eu vi.
Melissa dormia no sofá.
Encolhida, vulnerável, o cabelo espalhado pela almofada, o rosto sereno demais para alguém que tinha sido destruída poucas horas antes. Parecia um anjo esquecido no meio da sala, alheia ao caos que o mundo tinha feito com ela.
Meu coração se apertou de um jeito quase físico.
— Ela tá aqui… — murmurei, mais pra mim do que pra ele.
— Chegou em pedaços — Gabriel disse baixo, fechando a porta atrás de mim. — Chorou até não aguentar mais.
Assenti, sem conseguir desviar o olhar.
— Eu vi tudo — falei depois de alguns segundos. — Na boate. Vi quando ela saiu correndo… vi o Hugo.
O nome saiu da minha boca como um gosto amargo.
O maxilar de Gabriel travou.
— Então você sabe — ele respondeu, a voz carregada de ódio. — Se eu cruzar com aquele cara de novo…
— A gente mata ele — completei, sem pensar.
Gabriel soltou um riso curto, nervoso.
— Mata mesmo.
Respirei fundo antes de continuar.
— Depois que ela foi embora… — comecei, mantendo a voz baixa. — Eu fiquei. E eu confrontei ele.
Gabriel virou o rosto devagar para mim.
— Confrontou como?
— Disse pra ele ficar longe da Melissa — respondi, simples. — Disse que, se chegasse perto dela de novo, ia se arrepender.
— E ele?
— Perguntou quem eu pensava que era — falei, sem emoção. — Eu disse que era o pior pesadelo dele.
O silêncio que caiu foi pesado.
Gabriel me encarou por alguns segundos, depois balançou a cabeça devagar.
— Pelo menos um de nós estava lá. — murmurou. — Obrigado por protegê-la.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, observando Melissa respirar. O apartamento parecia respeitar aquele momento, como se até o ar tivesse diminuído o ritmo.
Gabriel cruzou os braços e me encarou de novo.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Fala.
Ele hesitou por um segundo, escolhendo as palavras.
— Você sente alguma coisa pela minha irmã?
A pergunta bateu em mim como um soco silencioso.
Meu olhar voltou para Melissa.
Ela se mexeu um pouco, puxando a almofada para mais perto do peito, como se ainda estivesse tentando se proteger, mesmo dormindo. Tão pequena. Tão frágil. Tão longe de merecer qualquer dor.
Eu queria ter uma resposta pronta.
Queria dizer que não.
Queria dizer que era só indignação.
Queria dizer que era só empatia.
Mas meu peito apertou de novo.
E tudo o que eu consegui fazer foi ficar ali, parado, observando ela dormir.
— Eu… — comecei, mas a frase morreu antes de nascer.
Gabriel me estudou em silêncio, como quem entende mais pelo que não é dito.
— Tá — ele falou depois de um tempo. — Então não responde agora.
Assenti devagar.
Continuei ali, imóvel, enquanto a madrugada avançava.
Continuei parado por alguns segundos depois que Gabriel se afastou, indo para o quarto. O apartamento mergulhou num silêncio mais denso, interrompido apenas pelo som distante da cidade e pela respiração calma dela.
Me aproximei devagar. Peguei a manta dobrada no braço do sofá e a estendi sobre o corpo de Melissa com cuidado, como se ela pudesse se desfazer ao menor toque. Ela se mexeu levemente, o cenho franzindo por um instante, mas logo voltou a relaxar.
Me sentei no chão, encostado no sofá, perto o suficiente para ouvir seu respirar mudar de ritmo. Havia um fio de maquiagem borrada no canto dos olhos, uma sombra de cansaço que nem o sono conseguiu apagar. Pensei em limpar, em ajeitar o cabelo espalhado pelo rosto… mas não fiz. Algumas fronteiras não devem ser atravessadas, mesmo quando ninguém está vendo.
Fiquei ali, imóvel, enquanto a madrugada avançava sem pressa. O tempo parecia diferente naquele pedaço da sala. Mais lento. Mais atento.
Não era desejo. Pelo menos, não do jeito simples que sempre foi fácil de entender. Era algo mais fundo. Um incômodo constante, uma necessidade estranha de garantir que nada mais a alcançasse enquanto ela dormia.
Eu não tinha o direito de sentir aquilo. Sabia disso. Mas saber não fazia passar.
Em algum momento, o corpo pediu descanso. Fechei os olhos por alguns segundos, mas não dormi. Cada movimento dela me mantinha alerta, como se fosse minha responsabilidade vigiar aquele silêncio frágil.
Quando o céu começou a clarear pela janela da sala, me levantei com cuidado. Ajustei a manta uma última vez, recuando antes que meus dedos pensassem em fazer algo a mais.
Observei Melissa dormir por mais alguns segundos. Depois me afastei.
Saí do apartamento e fui pra casa, precisava descansar e colocar meus pensamentos em ordem.