Capítulo 16

1498 Words
Melissa Ferraz Eu passei o sábado inteiro no sofá. Não dormi direito. Não comi direito. Não pensei direito. O tempo parecia estranho, elástico, como se as horas não avançassem de verdade. Eu só encarava o teto, a parede, a televisão desligada. Às vezes o anel no meu dedo. Às vezes as próprias mãos vazias. Eu sabia que meu relacionamento não estava bem. Eu sentia a distância, os silêncios, os atrasos, as desculpas. Mas nada — absolutamente nada — me preparou para a violência daquela traição. Ela não só quebrou meu coração. Ela desmontou quem eu achava que eu era. No domingo, o silêncio do apartamento do Gabriel começou a me sufocar. Eu precisava voltar. Precisava encarar minha própria casa, mesmo que ela já não parecesse mais um lar. Chamei um táxi. Desci sozinha. Cada passo até a porta do meu apartamento parecia pesado demais. Quando entrei, tudo estava exatamente como eu tinha deixado. O sofá, as fotos, os objetos que ainda carregavam uma vida que já não existia. Eu larguei a bolsa no chão e me sentei, abraçando os joelhos. Foi quando ouvi a porta. — Melissa. Meu corpo inteiro congelou. Hugo estava ali. O rosto fechado. Os olhos duros. A respiração pesada, carregada de raiva. Não era o homem que eu achava que conhecia. Era alguém estranho. Ameaçador. — O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu fraca. — Você acha que pode simplesmente sumir? — ele avançou. — Me ignorar? — Vai embora — pedi, me levantando. — Agora. Ele riu. Um riso sem humor. — Você é minha. Antes que eu pudesse reagir, ele segurou meus braços com força. Os dedos cravaram na minha pele, apertando, machucando. — Solta! — gritei, tentando me desvencilhar. — Se eu sonhar — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu — que você tá com outro… eu te mato. Meu coração disparou em pânico. — Você tá louco — chorei. — Me solta! Empurrei. Gritei. Implorei. A discussão virou um borrão de vozes, acusações, ameaças. Tudo rápido demais. Alto demais. Violento demais. E então veio o tapa. Seco. Forte. O impacto estalou na sala silenciosa. Meu rosto queimou na hora. O gosto metálico tomou minha boca. Minhas pernas falharam e eu caí no chão. Ele me olhou de cima, respirando pesado. — Você é minha — repetiu, como uma sentença. Depois foi embora. A porta bateu. E eu fiquei. Caída no chão da minha própria casa. Chorando como se não houvesse mais nada dentro de mim além de dor. Meus braços ardiam onde os dedos dele tinham me marcado. Meu rosto pulsava. Meu peito parecia aberto. Eu não consegui me levantar. O tempo passou — eu não sei quanto. Até ouvir a porta se abrindo de novo. — Melissa? A voz do Gabriel atravessou o espaço como um fio de realidade. — Mel?! Ele correu até mim, se ajoelhando ao meu lado. — Meu Deus… o que aconteceu? — perguntou, desesperado. Eu tentei falar. Tentei explicar. Mas nenhuma palavra saiu. Só chorei. Chorei como quem tinha sido quebrada por dentro. Como quem tinha perdido mais do que um amor. Chorei porque, naquele chão frio, eu finalmente entendi: eu não estava só de coração partido. Eu estava em perigo. O choro não parava. Era como se meu corpo tivesse esquecido como fazer qualquer outra coisa além de tremer e soluçar. Gabriel me chamou pelo nome várias vezes, mas eu só conseguia me agarrar à camisa dele, como se fosse a única coisa me impedindo de desaparecer. — Mel… olha pra mim — ele pediu, com a voz falhando. Com esforço, ergui o rosto. Quando os olhos dele pousaram nas marcas roxas nos meus braços e no vermelho forte na minha bochecha, o rosto do meu irmão mudou. Não foi susto. Foi algo muito mais perigoso. Raiva pura. — Foi ele — Gabriel disse, não perguntou. — Foi o Hugo. Meu silêncio respondeu por mim. — Ele fez isso com você? — a voz dele saiu baixa, controlada demais. Assenti, sentindo uma nova onda de choro me atravessar. — Ele… ele apareceu aqui — consegui dizer entre soluços. — Gritando… dizendo que eu era dele… que se eu ficasse com alguém… Minha voz morreu. Meu corpo inteiro se contraiu. Gabriel fechou os olhos por um segundo, como se estivesse reunindo forças para não explodir. — Ele te bateu? — perguntou, quase num sussurro. Assenti de novo. Foi aí que ele me puxou para um abraço apertado, protetor, como quando eu era criança e tinha medo de tempestade. — Acabou — ele disse firme, perto do meu ouvido. — Acabou agora. Ele nunca mais chega perto de você. Nunca mais. Eu queria acreditar. Mas tudo dentro de mim estava quebrado demais para confiar em qualquer promessa. — Eu tô com medo — confessei, a voz pequena. — Eu nunca tive medo dele… nunca. Gabriel segurou meu rosto com cuidado, como se eu fosse de vidro. — Você não vai ficar sozinha — disse. — Nem hoje, nem nenhum outro dia. Você vai ficar comigo. Ou eu fico aqui com você. Do jeito que você quiser. Respirei fundo, tentando me ancorar na presença dele. — Eu achei que conhecia ele — falei. — Eu achei que amor não machucava assim. Gabriel engoliu em seco. — Amor não machuca, Mel — respondeu. — Isso não foi amor. Foi posse. Foi controle. Foi violência. As palavras doeram, mas também acenderam algo novo dentro de mim. Uma consciência amarga, necessária. Ele se levantou devagar. — Vou pegar gelo pra você… e a caixa de primeiros socorros — disse. — E depois a gente vai fazer o que precisa ser feito. — O quê? — perguntei, assustada. Ele voltou a se ajoelhar à minha frente. — Te proteger. Enquanto ele se afastava, fiquei ali sentada no chão da minha sala, abraçando meus próprios braços marcados. Eu não sabia ainda como ia seguir em frente. Não sabia quanto tempo levaria para parar de doer. Mas, pela primeira vez desde a balada, uma coisa ficou clara: Eu tinha sobrevivido. E, mesmo quebrada, eu ainda estava ali. Gabriel voltou com o gelo e a caixa de primeiros socorros como se estivesse pisando em ovos, o cuidado estampado em cada movimento. Ele se ajoelhou à minha frente outra vez, envolvendo o gelo num pano antes de aproximar do meu rosto. — Vai arder um pouco — avisou, a voz baixa. Ardia. Mas não tanto quanto por dentro. Deixei que ele cuidasse de mim em silêncio. O frio contra a pele quente, os dedos dele tentando ser firmes e suaves ao mesmo tempo. Quando passou o pano pelos meus braços, vi o maxilar dele travar outra vez ao encarar as marcas arroxeadas. — Isso não vai ficar assim — ele murmurou. Não respondi. Eu ainda estava tentando entender como tinha chegado até ali. Como alguém que dizia me amar tinha sido capaz de me olhar daquele jeito. De me tocar com ódio. — Mel… — Gabriel respirou fundo. — Você precisa me contar tudo. Cada detalhe. Fechei os olhos por um segundo, reunindo forças. — Ele apareceu do nada — comecei, a voz fraca. — Estava diferente. Agressivo. Disse que eu não podia sumir, que eu era dele… — engoli em seco. — Quando eu tentei mandar ele embora, ele me segurou. Forte. Eu senti medo, Gabriel. Medo de verdade. Meu irmão fechou os punhos. — E quando ele te bateu? — perguntou, com esforço para manter a calma. — Foi rápido — respondi. — Um segundo eu estava gritando… no outro, eu estava no chão. O silêncio que se seguiu foi pesado. Gabriel se levantou e começou a andar pela sala, passando as mãos pelos cabelos, como se estivesse lutando contra algo dentro dele. — Isso é crime — ele disse, parando de repente. — Ele te ameaçou. Te agrediu. Isso não pode ser ignorado. Meu coração disparou. — Eu não sei se eu consigo… — sussurrei. — Eu tô cansada. Tô com medo. Ele voltou a se agachar na minha frente, mais calmo. — Eu sei — falou. — E você não precisa decidir nada agora. Hoje você só precisa ficar segura. Assenti, sentindo os olhos marejarem de novo. — Você fica comigo? — pedi, quase como uma criança. — Claro que fico — respondeu na hora. — Não vou sair do seu lado. Ele me ajudou a levantar com cuidado e me conduziu até o sofá. Me cobriu com uma manta, mesmo não estando frio, e sentou ao meu lado. Ali, encolhida, comecei a sentir o cansaço me vencer. O corpo ainda doía, mas a presença dele era como um escudo silencioso. Antes de fechar os olhos, uma certeza amarga se formou dentro de mim: Eu tinha perdido um noivo. Uma ideia de futuro. Uma versão ingênua de mim mesma. Mas não tinha perdido tudo. Eu ainda tinha meu irmão. E, pela primeira vez, eu sabia que precisava me escolher — mesmo sem saber ainda como.
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