Capítulo 6

1227 Words
Melissa Ferraz Aqui estou eu, parada diante do espelho, tentando decidir se estou exagerando ou se finalmente estou acertando. Primeiro, o vestido. É um de seda vinho, de alças finas, que abraça minhas curvas de um jeito que não me deixa desconfortável, mas que me lembra que eu tenho um corpo bonito — mesmo quando esqueço disso. Ele desce fluido até a metade da coxa, com um caimento tão suave que parece estar sempre em movimento, como se eu estivesse perpetuamente entrando em cena. Para acompanhar, coloquei um casaco preto estruturado, só para o caso do restaurante ser gelado. E, claro, meus saltos preferidos: finos, elegantes, que me fazem caminhar como se o mundo fosse um tapete preparado especialmente para mim. Mas a verdade é que eu passei mais tempo escolhendo a lingerie do que qualquer outra coisa. Não que eu vá falar isso pra alguém. Peguei um conjunto que eu nunca tinha usado — preto, de renda delicada, com detalhes que brincam com a imaginação sem ultrapassar aquele limite entre o elegante e o ousado. Eu o comprei num daqueles dias em que Hugo havia sido frio, meio distante… e eu queria sentir que podia reconquistar o brilho no olhar dele. Não sei por quê, mas hoje pareceu a noite certa para finalmente usar. E aquele que comprei no shopping hoje? Bom, aquele fica para outra ocasião. Enquanto vestia tudo, senti uma pontada de ansiedade, mas uma daquelas boas, quase elétricas. A maquiagem eu fiz com calma, como se estivesse pintando uma versão mais confiante de mim mesma. Base leve, pele luminosa, um contorno suave que marca meu rosto só o suficiente. Nos olhos, um esfumado marrom que puxa discretamente para o dourado — não porque eu queira impressionar, mas porque eu gosto de como meus olhos parecem maiores assim. E, por fim, um batom vinho suave, combinando com o vestido, mas não roubando atenção demais. Prendi o cabelo num coque baixo, deixando duas mechas caírem ao redor do rosto. Fiz isso porque Hugo sempre disse que gosta quando meu cabelo cai um pouco solto… e, no fundo, eu sempre acabo tentando agradá-lo. Mesmo nos dias em que ele se afasta. Mesmo quando aparece com desculpas que me machucam um pouco, mas que eu acabo aceitando. Ele sempre encontra um jeito de me convencer de que eu é que estou exagerando. E eu aceito. Talvez por amor. Talvez por medo. Talvez porque, no fundo, eu ainda espero que ele volte a ser o homem do começo. Olho para mim no espelho e sorrio. Estou linda. E, por um segundo, sinto orgulho disso. Mas logo em seguida, aquele velho pensamento tenta invadir — Será que ele vai notar? Eu sacudo a cabeça. Isso não importa hoje. Quero acreditar que não. Quero acreditar que, desta vez, nada vai estragar. Enquanto pego minha bolsa, percebo como meu coração está acelerado. Não sei por quê. Talvez seja só a expectativa. Talvez seja aquela sensação estranha que tenho sentido nos últimos dias, como se algo estivesse prestes a mudar — e eu não sei se para melhor ou pior. Mas, por algum motivo, sinto que hoje não é uma noite comum. Respiro fundo antes de sair do quarto. Hoje eu estou pronta. Pronta para o jantar, para o olhar dele, para o que quer que aconteça depois. Pronta até para acreditar, de novo, que tudo vai melhorar. Eu só espero não estar me enganando outra vez. Ouço um som de notificação do meu celular, corro para verificar. É o Hugo! Dizendo que chegou e está me aguando no carro. Ele nunca atrasa, uma das poucas coisas em que é impecável. Pego a bolsa, dou uma última olhada no reflexo do espelho, tentando não parecer tão ansiosa, e desço as escadas com aquele friozinho na barriga, acho que exagerei na produção dessa vez. Assim que abro o portão, ele está lá, encostado no carro, mexendo no celular como se estivesse apenas matando tempo. Eu espero, por um instante ridiculamente longo, que ele levante o rosto, me veja e sorria daquele jeito que fazia no início… aquele sorriso que me derretia como se o mundo parasse. Mas ele só levanta os olhos rápido, como se tivesse sido interrompido. — Oi, amor— ele diz, sem emoção nenhuma, quase automático. Nenhum olhar demorado. Nenhuma piscadinha de admiração. Nenhum “uau”, apenas um beijo rápido na testa. Ele só abre a porta do carro para mim como quem cumpre um protocolo, e eu sinto meu estômago despencar — silenciosamente, claro. Eu sorrio do mesmo jeito, porque é isso que eu faço: eu compenso. Eu suavizo. Entro no carro, ajeito o vestido com cuidado para não amassar a seda e fecho a porta devagar, esperando, tola, que ele diga algo enquanto dá a volta para o volante. Quando ele entra, coloca o cinto, liga o motor… e nada. Nem um comentário. Nem um olhar mais atento. Nada! Eu me sinto invisível por um instante. Uma pontada rápida e amarga. Mas engulo. Então ele começa a falar — não sobre mim, não sobre o jantar, não sobre como estou — mas sobre o dia dele, claro. — Cara, você não tem ideia do caos que foi hoje — ele suspira, já abrindo o assunto como se estivesse no meio de uma conversa. — A secretária esqueceu de marcar uma reunião super importante na minha agenda, errou uma planilha inteira. Fora reunião com aquele cliente chato… Nossa, você sabe como eu odeio falta de atenção com meus compromissos, depois bagunça minha agenda inteira. E ele contou. Contou cada detalhe, cada irritação, cada minúcia que parecia, de algum modo, mais importante do que perceber o brilho nos meus olhos ou o cuidado que eu coloquei em cada parte de mim naquela noite. Eu olhava para ele de perfil, a rua passando em borrões pelas janelas, e me perguntava como alguém pode estar tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante. Mesmo assim, fiz o que sempre faço: ofereci atenção completa. Pontuei com “hum”, “sério?”, “imagina”, como se eu realmente estivesse ali apenas para ser o porto onde ele descarregava as frustrações do dia. A cada palavra dele, a falta do elogio — aquele mínimo, aquela gentileza pequena que alimenta o coração — ia se acumulando em camadas. Eu me esforcei para disfarçar, mantendo o rosto leve, as mãos tranquilas no colo, mas meu peito parecia apertar cada vez mais sob o tecido do vestido. Quando ele fez uma curva mais brusca, sua mão esbarrou na minha. O toque foi rápido, quase acidental, mas mesmo assim meu corpo reagiu como se quisesse se aproximar… só que ele recolheu a mão imediatamente, sem notar nada. — Mas é isso, né? Empresa grande é assim — terminou, respirando fundo. — E você, como foi o seu dia? A pergunta veio tão automática que quase soou como parte do mesmo desabafo. Ainda assim, sorrir foi minha primeira reação — aquele sorriso triste, mas carregado de amor. O tipo de sorriso que ele nem percebe. — Foi tranquilo — respondi. — Me arrumei com calma… pensei bastante no jantar. Ele assentiu, distraído, já entrando no estacionamento do restaurante. E eu fiquei ali, presa entre a expectativa e a realidade, tentando não deixar que o desapontamento me engolisse antes mesmo de sairmos do carro.
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