O passado de Ana vinha como um vendaval sempre que ela olhava para Marc. Não importava o quanto tentasse ignorar, os flashbacks da adolescência a perseguiam como sombras de um amor não correspondido.
Aos 15 anos, ela era apenas a irmã mais nova de Luca. Sempre ali, rondando os amigos do irmão, mas com os olhos fixos em apenas um deles: Marc DeLuca.
Lembrava-se perfeitamente da primeira vez que percebeu que estava apaixonada.
Era um verão quente, e eles estavam na piscina da casa de sua família. Luca e os amigos competiam para ver quem fazia o melhor mergulho, rindo e gritando como adolescentes despreocupados. Ana, sentada na beira, observava Marc. Ele emergiu da água, jogando os cabelos molhados para trás, e naquele instante, com o sol refletindo em sua pele bronzeada, ela sentiu seu coração dar um salto.
— Por que está me olhando assim, baixinha? — Marc perguntou, nadando até a borda da piscina, perto dela.
Ana sentiu o rosto esquentar, mas tentou disfarçar.
— Nada… Só estou vendo quem vai ganhar essa competição boba.
Marc riu, apoiando os braços fortes na borda e se inclinando ligeiramente para frente.
— Você sempre foi péssima mentirosa.
O coração de Ana martelou no peito. Ela queria que ele percebesse. Que enxergasse que ela não era apenas a garotinha que sempre estava por perto. Mas então, Luca apareceu e deu um tapa no ombro de Marc.
— Ei, cara, larga minha irmã. Você sabe a regra.
Marc se afastou imediatamente, como se tocar nela fosse um crime.
— Relaxa, Luca. Ana é como uma irmãzinha pra mim.
As palavras foram um golpe direto em seu peito.
Irmãzinha.
Ana nunca esqueceu.
E, ao longo dos anos, a rejeição só se tornou mais dolorosa.
A lembrança daquela tarde na piscina era apenas uma das muitas em que Marc a tratara como uma garotinha. Como se ela nunca fosse digna de ser vista de outra forma.
Ana passou anos tentando chamar sua atenção, mas sempre recebia o mesmo olhar condescendente e aquele sorriso casual que a irritava mais do que qualquer coisa.
Lembrava-se de um dia específico, quando tinha dezessete anos. Luca tinha acabado de ganhar uma bolsa para estudar fora, e Marc fora até a casa deles para se despedir.
Ana se arrumara mais do que o necessário, vestindo um vestido azul delicado que realçava suas curvas recém-descobertas. O cabelo solto caía em ondas sobre os ombros, e um toque de gloss nos lábios completava sua aparência. Ela queria que Marc a notasse. Só isso.
Quando ele chegou, seu coração disparou. Ele parecia mais bonito do que nunca com aquela jaqueta de couro preta e o sorriso fácil.
Ela se aproximou, tentando conter o nervosismo.
— Você vai sentir falta do Luca? — perguntou, cruzando os braços e inclinando ligeiramente o quadril.
Marc riu, olhando para o amigo.
— Claro. Mas não tanto quanto você.
— Talvez eu não sinta tanto assim… — Ela disse, mordendo o lábio, olhando diretamente para ele.
O sorriso dele vacilou por um instante, e Ana prendeu a respiração. Seria aquele o momento? Ele finalmente a veria como algo mais?
Mas então Marc franziu a testa e deu um passo para trás.
— Ana… você sabe que é como uma irmã para mim, certo?
Aquelas palavras foram como um balde de água fria. Ana sentiu seu rosto corar de humilhação, mas ergueu o queixo, fingindo que não se importava.
— Claro, Marc. Como uma irmã.
Naquela noite, deitada na cama, ela prometeu a si mesma que nunca mais tentaria.
Se ele não conseguia enxergar além do que queria acreditar, então um dia ele perceberia o que perdeu.
E agora, anos depois, ela estava de volta.
E desta vez, quem faria as regras seria ela.
Os anos passaram, mas as feridas da rejeição ainda ardiam em Ana. Cada lembrança de Marc a ignorando, a tratando como uma garotinha, como a “irmãzinha do Luca”, era como um lembrete c***l de que, por mais que o desejasse, ele nunca a quisera da mesma forma.
Mas o momento que selou sua decisão de esquecê-lo – ou ao menos fingir que o esquecia – aconteceu em sua formatura do ensino médio.
Naquela noite, Ana estava deslumbrante. Usava um vestido vermelho justo, que marcava sua silhueta, e os cabelos soltos caíam em ondas brilhantes sobre seus ombros. Ela finalmente deixara de ser apenas a irmãzinha. Todos os rapazes a olhavam com interesse, menos um.
Marc.
Ele estava lá a pedido de Luca, e Ana soube no instante em que seus olhos se cruzaram que ele notara sua transformação. Pela primeira vez, ele não conseguiu esconder a surpresa ao vê-la.
E ela se agarrou a isso.
Durante toda a noite, jogou com o olhar dele, provocou, dançou de forma sensual, e viu a mandíbula de Marc se contrair algumas vezes. Mas ele continuou imóvel, como se estivesse se segurando com todas as forças.
Até que um de seus colegas, Tomas, se aproximou e a puxou para dançar.
— Você está linda esta noite, Ana.
Ela sorriu, deixando-se levar pela música, mas seus olhos não desgrudaram de Marc. Ele os observava, tenso, com o copo de uísque apertado na mão.
Quando Tomas inclinou-se para sussurrar algo em seu ouvido e deslizou as mãos por sua cintura, Ana teve certeza de que Marc finalmente reagiria.
Mas não.
Ele apenas desviou o olhar e saiu do salão.
Naquele instante, Ana sentiu seu coração se partir.
Ele não a queria. Nem mesmo quando estava claro que ela já não era mais uma garotinha.
Naquela noite, Ana decidiu partir para longe. Longe de Marc. Longe daquela paixão não correspondida que a aprisionava desde os quinze anos.
Mas agora, anos depois, ela estava de volta.
E desta vez, Marc DeLuca aprenderia que algumas rejeições podem sair muito caras.
Ana sempre acreditou que o tempo curaria sua paixão não correspondida. Mas, mesmo depois de anos longe, bastou um olhar de Marc para perceber que aquele fogo nunca se apagou.
Nos meses que antecederam sua viagem para a Europa, ela tentou seguir em frente. Teve encontros, experimentou beijos de outros homens, mas nenhum deles a fazia sentir o que Marc provocava com um simples olhar.
A última lembrança antes de sua partida foi a que mais doeu.
Era uma noite chuvosa, e ela precisava vê-lo uma última vez antes de ir. Sem avisar, apareceu no bar onde sabia que ele costumava ir depois do trabalho. Seu coração martelava no peito, e suas mãos tremiam.
Ele estava lá, sentado no balcão, tomando um uísque.
Respirando fundo, Ana se aproximou e sentou-se ao lado dele.
— Ana? O que está fazendo aqui? — A surpresa em sua voz mostrava que ele não esperava vê-la.
— Eu vim me despedir. Vou embora amanhã. Europa. Por tempo indeterminado.
Marc ficou em silêncio por um momento, apenas girando o copo entre os dedos.
— Então, você finalmente decidiu voar.
— Sim. Talvez lá eu encontre alguém que me veja como algo além da irmãzinha do Luca.
As palavras foram uma provocação, mas também uma súplica. Ela queria, desesperadamente, que ele dissesse algo, que demonstrasse qualquer sentimento.
Mas Marc apenas forçou um sorriso e tomou um gole do uísque.
— Você vai encontrar.
Foi o suficiente para Ana entender.
Ela nunca teria o que queria dele.
Levantou-se, engolindo as lágrimas, e saiu sem olhar para trás.
Agora, anos depois, sentia-se mais forte, mais madura. Mas ao olhar para Marc na varanda da casa de sua família, percebeu que a dor da rejeição ainda estava lá, escondida sob camadas de orgulho.
A diferença?
Agora, ela não seria mais a garota que implorava pelo amor dele.
Se Marc DeLuca a quisesse, teria que lutar por ela.
E ela pretendia tornar isso um verdadeiro inferno.