Capítulo 1 – Retorno Inesperado
Ana Moretti desceu do avião com a postura de quem sabia exatamente o que queria. Três anos na Europa a transformaram de uma jovem sonhadora e impulsiva em uma mulher confiante e independente. Seu salto ecoava pelo piso brilhante do aeroporto enquanto ela puxava sua mala de grife. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que estava no controle de sua própria vida.
A recepção em sua casa foi calorosa. Seus pais e seu irmão, Luca, a esperavam com abraços e palavras de saudade. A noite seria de comemoração. Jantar especial, família reunida… e convidados inesperados.
O ar dentro da casa estava impregnado com o cheiro de vinho e especiarias quando Ana entrou na sala de jantar. Seu sorriso desapareceu por um breve instante ao encontrar um par de olhos escuros observando-a do outro lado do cômodo.
Marc DeLuca.
O coração de Ana tropeçou dentro do peito antes que ela pudesse controlar a reação. Ele estava ali, sentado à mesa, descontraído, segurando um copo de uísque. Aquele homem continuava tão indecentemente lindo quanto ela se lembrava. Forte, másculo, com aquela barba bem feita e um olhar que sempre a deixava sem ar.
Por anos, ele fora o sonho proibido de Ana. O homem que ela amara em silêncio, que a rejeitara sem cerimônias, lembrando-a de que era apenas a irmãzinha do seu melhor amigo. Mas agora… agora tudo era diferente.
— Ana! — Luca a puxou para um abraço apertado. — Finalmente em casa!
— Finalmente — ela repetiu, lançando um olhar furtivo para Marc, que ainda não dissera uma única palavra.
Ele estava tenso. Ela percebeu no jeito que seus dedos apertavam o copo e no modo como sua mandíbula travava.
— Seja bem-vinda, Ana — ele disse por fim, a voz rouca e firme.
O calor da raiva e da atração se misturaram dentro dela. Ele queria fingir que nada tinha mudado? Ótimo. Ela não era mais a garotinha que ele afastava com um olhar severo. Dessa vez, seria diferente.
Ela ergueu o queixo e sorriu.
— Obrigada, Marc. Espero que a noite seja… inesquecível.
E com isso, Ana Moretti entrou na casa sabendo que, a partir daquele momento, o jogo estava prestes a começar.
Ana caminhou até a mesa com a confiança de quem dominava a própria vida. Seus saltos batiam ritmados no chão, e seu vestido vermelho colado ao corpo destacava cada curva que o tempo e a maturidade haviam esculpido. Ela sentiu os olhos de Marc a seguirem, como se ele tentasse disfarçar, mas falhando miseravelmente.
Luca, alheio à tensão invisível no ar, serviu vinho para todos e ergueu a taça.
— Ao retorno da minha irmã! Que sua estadia aqui seja longa… e que você não decida fugir para o outro lado do mundo tão cedo.
Risadas preencheram o ambiente, mas Ana não desviou os olhos de Marc ao levar a taça aos lábios. Ela queria que ele visse. Que soubesse que aquela menina de quinze anos, apaixonada e ingênua, havia ficado para trás.
Ele manteve a expressão séria, mas Ana percebeu quando ele umedeceu os lábios. Um tique nervoso? Talvez.
— Então, Ana, o que pretende fazer agora que está de volta? — perguntou um dos amigos de Luca.
Ela sorriu, deslizando o dedo pela borda da taça.
— Algumas surpresas… Mas, antes de tudo, vou assumir minha posição na empresa da família. Chega de brincadeiras.
— Finalmente! — Luca comemorou. — Meu pai sempre disse que você tinha a mente mais afiada para os negócios.
— Talvez — ela murmurou, encarando Marc. — Mas algumas coisas a gente aprende longe de casa.
Ele sustentou o olhar por um momento antes de desviar, virando um gole do uísque. Ana sentiu uma pequena vitória.
A noite seguiu entre conversas e lembranças, mas Ana não perdeu uma única reação de Marc. Ele estava tentando esconder a tensão, mas seu corpo o traía. O jeito que mexia os dedos na borda do copo, o modo como evitava encontrá-la diretamente, e principalmente, a maneira como a observava quando achava que ela não estava olhando.
E ela estava.
Quando o jantar terminou, Ana se levantou devagar, passando a mão pelo próprio quadril em um gesto inconsciente — ou proposital? Caminhou até a varanda, sentindo o ar fresco da noite envolver sua pele quente.
Ela ouviu passos atrás de si.
— Ana.
A voz grave e familiar fez sua pele se arrepiar. Ela se virou lentamente, encontrando os olhos intensos de Marc.
— Sim?
Ele enfiou as mãos nos bolsos, como se estivesse tentando conter algo.
— Você mudou.
Ana arqueou uma sobrancelha.
— Claro que mudei. O tempo faz isso com as pessoas.
Marc observou-a por um instante, depois assentiu, como se chegasse a uma conclusão interna.
— É bom ter você de volta.
Ela sorriu, inclinando-se levemente para ele.
— Tem certeza disso, Marc?
O brilho nos olhos dele lhe deu a resposta antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.
O jogo estava apenas começando.
O silêncio entre Ana e Marc era carregado de tensão. A brisa da noite balançava seus cabelos, mas o calor que se espalhava pelo seu corpo não tinha nada a ver com o clima. Tinha a ver com ele. Com a proximidade. Com o jeito que os olhos dele se fixavam nos seus como se procurassem algo que ele não queria admitir.
Ana cruzou os braços, inclinando levemente o corpo contra a sacada da varanda.
— Então, Marc… — Ela umedeceu os lábios devagar. — Vai me dizer que ainda me vê como a irmãzinha do Luca?
Ele contraiu o maxilar, desviando o olhar por um instante antes de voltar a encará-la.
— Você sabe que não.
Uma confissão curta, mas suficiente para fazer o coração de Ana acelerar. Mas ela não demonstraria. Não facilitaria as coisas para ele.
— Não sei, não. Você sempre fez questão de me lembrar disso, não foi? Sempre tão correto, tão leal ao seu melhor amigo.
Marc suspirou e passou a mão pelos cabelos.
— E você sempre foi provocativa. Isso não mudou.
Ela sorriu, inclinando-se um pouco mais para ele.
— Algumas coisas mudaram, sim. Mas outras… continuam exatamente as mesmas.
Dessa vez, foi Marc quem não conseguiu esconder a reação. Seu olhar escureceu, fixando-se nos lábios dela por um segundo longo demais. O suficiente para Ana perceber que ainda havia desejo ali. Um desejo que ele lutava para esconder, mas que transbordava na forma como seus dedos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
Ana queria provocá-lo mais, testar seus limites, mas a porta da varanda se abriu abruptamente, e a voz de Luca quebrou a tensão.
— Ei, vocês dois! O que tanto conversam?
Marc se afastou imediatamente, assumindo sua postura séria e controlada de sempre. Ana apenas sorriu, voltando-se para o irmão.
— Relembrando o passado.
Luca riu, sem perceber a eletricidade no ar.
— Bem, Marc, preciso de você para uma coisa no escritório. Pode me acompanhar?
Marc assentiu, lançando um último olhar para Ana antes de passar por ela.
— Até mais, Ana.
Ela mordeu o lábio, observando-o se afastar.
Sim, aquilo ainda estava longe de acabar.
Era só o começo.