Capítulo 4

989 Words
Vanessa narrando Assim que Léo foi embora, fiquei parada um tempinho em frente ao portão da kitnet. Respirei fundo e sorri sozinha. Era simples, pequena, mas era meu novo começo. E só o fato de poder chamar algum lugar de “meu” já aquecia meu peito. Abri o portão e logo fui girando a chave na porta. O cheiro de limpeza ainda estava no ar. A dona Cleusa tinha deixado tudo arrumadinho. A sala era integrada com uma mini cozinha americana. Na lateral, uma porta levava ao quarto, e ao lado, o banheiro — tudo compacto, mas funcional. Tinha um sofá-cama cinza encostado na parede, uma mesinha de centro de madeira clara, e uma TV pequena sobre um rack improvisado, mas limpinho. A cozinha tinha armários brancos antigos, mas bem cuidados, um fogão de quatro bocas, pia de inox e uma geladeira simples. Já tava ótimo pra mim. Fui direto abrir a janela pra circular o ar. O sol batia com força, iluminando o ambiente e deixando tudo mais acolhedor. Era apertado, mas aconchegante. Vanessa:
— Agora sim… vamos deixar com a minha cara. Puxei meu som portátil e coloquei uma playlist leve, cheia de MPB e lo-fi. Depois prendi o cabelo, coloquei um top e um short de coton, desses que uso na academia e logo comecei a organizar tudo do meu jeito. Passei pano no chão, limpei os armários, reorganizei o que já tinha ali. Depois fui pro quarto. Tinha uma cama box de casal simples com uma colcha bege, um guarda-roupa embutido e uma prateleira alta na parede. O espaço era pequeno, mas muito bem dividido. Comecei a guardar minhas roupas, separando por tipo: calças de um lado, blusinhas dobradas, vestidos pendurados. As coisas de estética — cremes, óleos, utensílios — guardei com cuidado em uma maleta organizadora que sempre carrego comigo. Na parede, fixei meu espelho de maquiagem com LED, e ao lado, coloquei minhas escovas e pincéis em potinhos. Mas foi ao mexer na mala menor, aquela mais guardada, que meu coração apertou. Peguei o porta-retratos dos meus pais. Era uma foto nossa, sorrindo num almoço de domingo, lá na fazenda. Eu, bem novinha, entre eles, com o rosto encostado no peito do meu pai. A imagem da minha mãe sorrindo ainda me dava força, mesmo agora. Coloquei o porta-retrato em cima da prateleira, bem no centro, e ao redor deixei duas velas brancas que sempre levo comigo. É meu cantinho da fé. Meu cantinho deles. Vanessa (sussurrando):
— Espero que estejam me vendo… espero que estejam orgulhosos de mim. Vanessa narrando Depois de tudo limpo e no lugar, me joguei na cama por uns minutinhos. Mas não demorou pra eu me sentir suada, descabelada, com cheiro de produto de limpeza grudado no corpo. Era hora de cuidar de mim também. Fui pro banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água bem morna. Entrei devagar, sentindo a água escorrer pela pele e levar embora o cansaço. Peguei meu shampoo preferido, aquele com cheiro de baunilha e flor de laranjeira, e comecei a lavar meus cabelos com carinho. Massageei o couro cabeludo, passei a máscara hidratante e deixei agir enquanto ensaboava o corpo. Saí do banho me sentindo outra. Enrolei a toalha no corpo, fui até o quarto, e enquanto a música ainda tocava baixinho ao fundo, sentei pra escovar os cabelos. Fiz uma escova leve, só pra alinhar e deixar bem solto, com aquele brilho que eu amo. Meu cabelo era meu xodó, meu cartão de visita como esteticista — tinha que estar impecável. Abri o guarda-roupa e peguei um vestidinho leve de alça, estampado com flores pequenas, fundo claro. Era soltinho no tecido, mas marcava bem a cintura e o quadril. Escolhi ele sem pretensão, só queria algo confortável… mas ao me olhar no espelho, dei um sorrisinho de lado. Vanessa (pensando):
— Ai, tomara que não pensem besteira… mas também, tô me sentindo linda. Que se dane. Calcei uma rasteirinha bem delicada de brilhinho e peguei minha bolsinha pequena. Queria fazer umas compras básicas, repor o que faltava na geladeira. Vi um grupo de crianças brincando na rua e alguns vizinhos na porta, conversando. Cumprimentei com um sorriso educado e fui direto bater na porta da Dona Cleusa. Vanessa (batendo):
— Dona Cleusa? Boa tarde! Ela abriu a porta já com um sorriso no rosto. Tinha os cabelos presos num coque e usava um vestido estampado, com chinelo de dedo e um pano de prato jogado no ombro. Dona Cleuso:
— Ô minha filha! Que bom te ver! Tá gostando da casinha? Vanessa:
— Tô sim, muito! Queria agradecer de novo. Mas agora vim te incomodar rapidinho… Dona Cleuso:
— Magina! Fala, o que precisa? Vanessa:
— Eu queria saber onde tem um mercadinho aqui por perto. Queria comprar umas coisinhas pra casa. Tô por fora ainda do que tem por aqui. Dona Cleuso (apontando com o queixo):
— Tem sim, minha filha. Desce esse a rua aqui e dobra à esquerda. O mercado do Bira é o mais ajeitadinho. Tem de tudo um pouco, e ele ainda faz fiado se for de confiança. Vanessa (sorrindo):
— Ai, perfeito. Muito obrigada! Já vou lá então. Dona Cleuso (dando uma risadinha):
— Vai lá, mas vai preparada, viu? Cê vai passar no meio dos bares… e com esse vestidinho aí… hum… o povo aqui tem o olho afiado. Vanessa (rindo, sem graça):
— Ai, nem pensei nisso, só queria algo fresquinho mesmo! Dona Cleuso:
— Eu sei, eu sei. Mas se alguém mexer, cê ignora. Aqui é assim mesmo no começo. Mas qualquer coisa, grita meu nome, hein? Vanessa:
— Pode deixar. Obrigada pela dica… e pela recepção. Desci sorrindo, já mais à vontade com aquele cantinho do mundo. O sol já começava a baixar, mas ainda iluminava os becos e os muros grafitados. E enquanto eu andava em direção ao mercado, sentia os primeiros passos da minha nova vida realmente começando.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD