Gabriel narrando
Tava sentado ali na base ainda, observando tudo. O dinheiro tava entrando, a carga fluindo... mas aquela conversa da estagiária nova não saía da minha cabeça. Não era só curiosidade. Era instinto. E instinto, quando fala comigo, é certo.
Virei pro Léo, que tava encostado na parede, braço cruzado, atento como sempre.
Gabriel:
— Léo… preciso que tu desenrole uma parada pra mim.
Leonardo:
— Fala, chefe.
Gabriel:
— Vai trocar uma ideia com a novinha do salão. Aquela que tá alugando a kitnet da tua coroa. Quero saber quem é, de onde veio, o que tá fazendo aqui. Essas mina que vem de fora sempre tem alguma coisa por trás. Acha que é coincidência do nada uma estagiária bonitona brotar aqui no morro?
Leonardo (balançando a cabeça):
— Entendido. Quer que eu leve no papo leve ou mais firme?
Gabriel:
— Só escuta, mano. Usa o carisma. Ganha a confiança. Mas fica esperto. Se for do bem, suave. Mas se tiver algo estranho... tu já me chama.
Leonardo:
— Deixa comigo. Já ia entregar a chave da kitnet pra ela hoje mesmo. Aproveito a deixa.
Gabriel:
— Boa. Fica na contenção.
Leonardo narrando
Peguei o molho com a chave da kitnet da minha mãe e fui descendo pra área do salão. A Josi já tinha falado que ela começava hoje cedo, então provavelmente estaria por lá. Cheguei devagar, sem pressa, no estilo... olhando em volta, como quem não quer nada.
Ali estava ela. Saindo do salão, segurando uma bolsinha pequena na mão e ajeitando o cabelo com a outra. Usava uma calça clara e uma camiseta que colava no corpo, realçando muito sua beleza e tinha uma presença que chamava atenção mesmo sem querer. O povo parava pra olhar.
Cheguei na boa.
Leonardo:
— E aí, Vanessa? Cê que é a estagiária nova, né?
Vanessa (um pouco surpresa, mas educada):
— Sou sim… prazer.
Leonardo (sorrindo de leve):
— Sou o Leonardo. Filho da dona Cleusa, a dona da kitnet. Vim trazer a chave pra você. Minha mãe disse que cê foi educada, gente fina. Já ganhou ponto com ela.
Vanessa (aliviada):
— Ai, que bom! Tava preocupada, sabe? Sempre fico com medo de dar errado no começo… tudo novo.
Leonardo:
— Relaxa. Aqui é diferente, mas quem vem na humildade é bem recebido. Só não pode ser o****o nem vacilar.
Vanessa:
— Pode deixar. Eu vim pra trabalhar, me formar e seguir em frente. Tive umas perdas difíceis só quero recomeçar.
Leonardo (observando):
— Entendo. E por que logo aqui? A Rocinha não costuma ser a primeira escolha de quem vem de fora.
Vanessa (suspira):
— É… o custo. Perdi minha avó há pouco tempo, já tinha perdido meus pais antes… o dinheiro tá contado. A vaga no salão caiu do céu. Me agarrei.
Leonardo (analisando, mas mantendo o tom tranquilo):
— Justo. E o salão é bom mesmo, Josi e Fernando são firmes. Tu vai se dar bem.
Entreguei a chave pra ela, pendurada num chaveiro de pelúcia.
Leonardo:
— Tá aqui. A casa é simples, mas tá ajeitada.
Vanessa (sorrindo):
— Já tô feliz só por ter um cantinho pra chamar de meu. Valeu mesmo, Léo.
Leonardo (por dentro já processando tudo pro GF):
— Qualquer coisa, só chamar.
Leonardo narrando
Conversei o suficiente. A mina é centrada, tem história, não parece ser ameaça. Mas gata daquele jeito… vai virar comentário rápido no morro.
Vanessa narrando
Peguei a chave da mão do Leonardo e sorri, meio tímida. Ele parecia gente boa. Tinha aquele jeito firme, mas não era grosso. E nesse lugar novo, qualquer sinal de boa vontade já me dava um alívio.
Vanessa:
— Você sempre mora aqui?
Leonardo (com um leve sorriso):
— Desde que nasci. Aqui é minha quebrada.
Vanessa:
— Deve conhecer todo mundo, né? Eu ainda tô tentando entender onde é o quê… me perco fácil.
Leonardo (rindo):
— Normal. No começo, todo mundo se perde. Mas depois que pega o ritmo, vira automático.
Vanessa:
— E… é tranquilo andar por aqui? Tipo, pra mim que sou nova.
Leonardo (fica sério por um segundo):
— Olha, aqui é um lugar como qualquer outro, tem seus códigos. Mas quem vem na boa, com respeito, vive de boa. Tá ligada? Só não pode dar mole ou se meter onde não deve.
Vanessa:
— Espero mesmo. Tô começando do zero. Sozinha… de novo. Tô tentando ficar forte, mas é difícil.
Ele me olhou por alguns segundos, como se tivesse tentando entender mais do que eu falava com palavras.
Leonardo:
— Vem, te levo até a kitnet. É descendo aqui perto. Certeza que você se perde se for sozinha.
Vanessa (aliviada):
— Sério? Ai, obrigada! Nem sei te dizer o quanto isso me ajuda.
Leonardo (começando a caminhar ao lado):
— Relaxa. Só cuidado, tá? Cê é gata. Vai chamar atenção aqui… demais, pra ser sincero.
Vanessa (sorri sem graça):
— Já percebi…
Leonardo (olhando em volta, atento):
— Vai por mim, o povo aqui é ligeiro. Vão tentar te testar. Mas se souber se posicionar, eles recuam. E se alguém mexer demais, me fala. Tem uns limites que não se cruzam.
Vanessa (surpresa):
— Obrigada. Não esperava tanta consideração assim.
Leonardo:
— Aqui a gente protege os nossos. E se cê vai morar aqui, trabalhar aqui… já é da área.
Fomos andando e quando chegamos na kitnet, ele parou em frente.
Leonardo:
— É aqui. Qualquer coisa que precisar pode me chamar.
Vanessa (olhando em volta, aliviada):
— Obrigada mesmo, Léo.
Leonardo (com um leve aceno de cabeça):
— Vai com calma. Um passo de cada vez. Bem-vinda à Rocinha, Vanessa.