"O Início Do Meu Inferno"
O inferno de Selene não teve chamas ou enxofre; começou com o estalo seco de uma mala sendo fechada. Não houve reunião de família, nem um "o que você acha?". Só uma ordem cuspida do batente da porta, com aquele tom de quem já não aguentava mais a própria vida.
— Arruma tuas tralhas. A gente vai morar com ele.
Aquele homem.
Aos dezenove, Selene já tinha cicatrizes invisíveis o suficiente para saber que milagres não batiam à sua porta. Sua mãe, uma mulher que usava a beleza como se fosse uma faca amolada, estava no jogo com ele havia meses. Selene conhecia o roteiro: a mãe saía cheirando a perfume barato, voltava de madrugada com o hálito podre de álcool e o rímel escorrendo em rios de autopiedade. Selene fingia dormir. Era melhor assim. Aprendeu cedo que mendigar afeto de quem só ama o próprio reflexo é um suicídio lento.
Ela nunca teve um pai. Era apenas um satélite girando em torno da mãe, um laço feito de sobrevivência, não de carinho. Às vezes, bem lá no fundo, ela tentava se convencer de que aquela mudança era um esforço para dar algo melhor a elas. Mas era mentira. Ela sabia.
Lá fora, o motorista esperava com a paciência de quem é pago para não fazer perguntas. A mãe ria, um som alto e artificial, jogando o cabelo loiro enquanto empurrava as malas para o porta-malas. O sujeito devia ser podre de rico. Selene sentia o cheiro do dinheiro nos sapatos novos da mãe, no corte das roupas que surgiam no armário sem explicação, no jeito arrogante como o salto dela batia contra o asfalto.
Selene entrou no carro e se encolheu. O moletom largo era sua armadura; os cabelos castanhos, sua cortina. Sentia uma vergonha ácida subindo pela garganta. A vida não era mais dela.
— Para onde a gente está indo? — a voz saiu pequena, um sopro.
— Para um palácio, menina! No centro. Você vai amar, a mamãe pensou em tudo!
Pensou em você, Selene gritou em pensamento. Mas o silêncio era seu único refúgio.
A casa era um soco no estômago de tão grande. Jardins impecáveis, portões de ferro pesado, colunas brancas que pareciam vigiar quem entrava. Mas o lugar era gélido. O sol batia no rosto de Selene, mas ela sentia um calafrio que vinha de dentro do terreno.
— Mãe... a gente pode ir embora? Não gostei daqui.
— Cala a boca, Selene! Aqui é tua casa agora. Trata aquele homem como um pai. Ouviu bem? Como um pai!
Pai. A palavra soava como um insulto.
O homem que as esperava na porta tinha a confiança de quem é dono do mundo. Uns quarenta e poucos anos, alto, o tipo de beleza sóbria e cara. A mãe correu para ele, se pendurando em seu pescoço com um desespero juvenil que dava náuseas.
— Richard, essa é a Selene.
— Olá, Selene. Sinta-se em casa.
— Oi — ela sussurrou. Sentiu a cotovelada da mãe nas costelas.
— Ela é tímida. Mas jaja se solta.
Richard deu um sorriso educado, mas Selene sentia o peso dos olhares ao redor. Os empregados a mediam. Os retratos nas paredes pareciam julgá-la. O veredito estava escrito no ar: você é uma intrusa.
Enquanto subia a escadaria, um movimento na janela do andar de cima a fez travar. Um par de olhos cinzentos a fitava. Eram olhos que não davam boas-vindas; eram olhos que faziam autópsias. Um rapaz loiro, com uma aura sombria que parecia sugar a luz do corredor.
No hall, um quadro a óleo: uma mulher radiante com um menino no colo. Richard parou ao lado dela.
— Minha falecida esposa. E aquele é meu filho, Mikael.
Era ele. O garoto da janela. O dono do olhar que a tratou como lixo.
O quarto era imenso, maior que o apartamento onde moravam. A mãe lhe deu um beijo seco na bochecha, daqueles que nem tocam a pele.
— Se comporta. Vou sair com o Richard. Aproveita o luxo.
E a porta fechou. Selene ficou sozinha com o silêncio e o eco da própria respiração. Ela queria chorar, mas o canal estava seco. Havia apenas um vácuo no peito. No chuveiro, deixou a água fervendo queimar seus ombros, tentando desesperadamente lavar a sensação de sujeira, de ser um objeto sendo transportado de um lado para o outro.
Foi rápido demais.
Ao sair do banheiro, ainda úmida e enrolada na toalha, o ar do quarto mudou. Antes que pudesse entender o que era aquele vulto, foi arremessada contra o colchão. O impacto expulsou o ar de seus pulmões. Um corpo pesado e sólido a prensou contra os lençóis caros. Mãos de ferro fecharam em volta de seus pulsos, prendendo-os acima da cabeça.
Era Mikael.
Ele estava sobre ela, a respiração quente contrastando com o gelo no olhar. Ele era absurdamente bonito, de um jeito perigoso, como uma lâmina polida. O cheiro dele — algo entre madeira e tempestade — invadiu o olfato de Selene, entorpecendo seus sentidos.
Ele não disse nada por alguns segundos. Apenas a estudou com um nojo visceral, como se ela fosse um inseto interessante, mas desprezível.
— Antes era só uma v***a — ele disse, a voz baixa, carregada de um veneno puro. — Agora meu pai resolveu trazer duas?
A frase cortou a pele dela. Selene tentou reagir, quis gritar ou chutar, mas o medo era um peso de chumbo. Ela percebeu, no aperto daqueles dedos e no brilho sádico daquelas íris cinzas, que aquela casa não era um palácio. Era um abatedouro.
E ela acabara de ser entregue.