CAROL
Saí para o jardim e demorei para reconhecer Caio, ele tinha vestido uma roupa decente e estava com o cabelo arrumado, ele segurava um buquê de rosas que sabe Deus onde tinha encontrado na véspera de Natal e quando me viu, disse:
-Não desiste de nós, Carol. Eu posso mudar, posso ir pra Curitiba, podemos até dividir um apartamento lá.
-Caio, não faz isso.- pedi me aproximando dele.- eu não quero mais.
-É o seu tio né- Caio perguntou e eu gelei, será que era tão óbvio assim que até o Caio que era lerdo de entendimento tinha notado?
-Como assim meu tio, do que você está falando, Caio?- perguntei me defendendo.
-Ele não gostou de mim, deve ter feito a cabeça dos seus pais e você está sendo obrigada a terminar comigo.-ele estava entendendo tudo da forma que fosse mais conveniente para si mesmo.
-Isso não faz o menor sentido, Caio. Não tem nada a ver com meu tio, tem a ver com o fato de você estar me desrespeitando como mulher, eu não gosto disso.- eu falei irritada.
-Você estava gostando até ele chegar.- ele falou de um jeito que senti nojo.
-Não Caio, eu não estava gostando e se você não foi capaz de perceber isso, só prova que estou certa em terminar com você.- me virei para voltar para dentro mas ele segurou meu braço.
Caio começou a se alterar e a gritar me xingando por abandoná-lo (isso que não durou nem um mês o relacionamento), logo meu pai e meu tio saíram, ele soltou meu braço e eu me afastei dele, eu estava chorando, meu pai me abraçou e o Edu foi na direção do Caio.
-Pensei que tivesse sido claro quando eu te disse que não era para desrespeitar a Carolina.-Ele disse irado.
Caio foi para cima dele para lhe dar um soco mas Edu segurou sua mão e começou a apertar.
-Eu te disse, você não me escutou e ainda veio tentar me dar um soco? É muita burrice.- cheguei a ouvir os dedos de Caio estralando enquanto Edu apertava a mão dele e olhava em seus olhos o intimidando.
-Ai ai- ele gritou- você vai quebrar meus dedos, tá doendo.- Caio estava chorando de dor mas ainda queria enfrentar o Edu.- Sua sobrinha também não é a santinha que você pensa.
Edu perdeu a paciência e deu um soco no nariz dele com a outra mão. Ele devia treinar alguma coisa porque parecia muito forte e além disso sabia o que estava fazendo.
-você não tem direito de falar dela, sai daqui seu escroto.-Edu empurrou ele para fora do portão.
-Eu vou me vingar de vocês, se acham melhores do que eu né…vocês vão ver.- ele saiu murmurando.
Eu tremia de nervoso e meu pai me escondia nos seus braços. Ele me afastou um pouco para perguntar me olhando nos olhos:
-Querida, você está bem?
-Vou ficar bem pai.- eu disse abaixando a cabeça envergonhada.
-Filha, você vai conhecer alguém que te ame de verdade e que te respeite o suficiente para se afastar se souber que é o melhor para você, não é verdade, Edu?
Olhei para o Edu e ele me olhou nos olhos com um olhar triste, depois abaixou a cabeça e concordou com meu pai.
-Sim, com certeza.- ele mostrou a mão.- vou procurar gelo.
Ele foi em direção à varanda mas eu corri pra ele.
- Espera…-o abracei chorando também- Obrigada.
-Não foi nada, pirralha.- ele disse beijando minha cabeça e depois se afastando rapidamente.
-Vai ficar tudo bem- meu pai se aproximou de mim colocando as duas mãos nos meus ombros.
-Acho que já vou deitar, obrigada pai.-dei um beijo no rosto do meu pai e fui para meu quarto.
EDU
Fui direto para a cozinha, evitei passar perto da minha mãe que estava distraída com Maya vendo algumas obras de arte no escritório, meu pai não estava por ali então não precisei me preocupar com seu interrogatório, ou pelo menos foi o que pensei…quando peguei o gelo e estava colocando na minha mão, o vi sentado ali na ilha da cozinha, ele parecia triste.
-O que houve nessa mão? Não me diga que brigou com seu irmão…
-Não, só dei um soco na cara do namorado da Carol. Na verdade agora é ex.- Expliquei me sentando na frente dele.
-Nesse caso foi merecido. Menino insolente. Não gostei nada dele.- ele falava comigo mas estava distraído com seus próprios pensamentos.
-E você, pai? O que está acontecendo?
-Como chegamos a esse ponto, Eduardo? Como eu nem sabia o quanto Maya é incrível? Tenho estado ausente da vida de todos vocês.
-Eu também gostaria de saber o que houve com vocês, éramos uma boa família mas quando voltei do intercâmbio vocês estavam tão diferentes, pareciam outras pessoas.- eu falei em tom tranquilo.
Fiquei feliz em desviar o assunto, era melhor não pensar na Carol e no olhar cúmplice que trocamos há poucos minutos quando Theo disse que ela encontraria alguém que a amasse a ponto de se afastar… era confuso pensar nisso, claro que eu a amava, ela era minha sobrinha, a garotinha que vi crescer…mas o que era tudo isso que eu sentia por ela além desse amor fraternal? Eu não sabia explicar.
-Posso falar com você?-Theo disse entrando na cozinha, só então ele viu nosso pai ali.- ah, desculpa, não vi que estavam conversando.
-Eu já estava de saída - meu pai disse pensativo- mas um dia vou responder essa pergunta, Eduardo. Boa noite meninos.- ele disse já saindo.
-Desculpa por aquilo, Theo. Aquele rapaz era muito petulante.- eu já fui me defendendo.
-Eu teria feito o mesmo, irmão, não se sinta m*l, fico feliz de você ter defendido minha filha, aliás, é sobre isso que preciso falar.
Gelei e esqueci de respirar por um momento, sobre o que exatamente ele queria falar?
-Sobre o que exatamente, Theo?- perguntei reunindo alguma coragem.
-Carolina não está segura aqui, Edu.- ele disse com um ar sombrio.
-Theo, você não está exagerando? É só um moleque e…
-Caio é o menor dos problemas, Edu, Maya não pode saber disso mas estou sendo ameaçado já faz algum tempo.- ele explicou nervoso, cuidando para que ninguém nos ouvisse.
-Isso é sério Theo, você precisa de proteção.- Eu falei ao ver que ele realmente estava encrencado.
-Estou quase descobrindo algo sério sobre o sindicato, eles não estão gostando, tem me mandando algumas indiretas mas nunca levei a sério. - Theo confidenciou baixinho.
-E o que mudou?- perguntei curioso.
-É que essa semana demiti um funcionário e ele fez ameaças ainda maiores, disse que ia procurar seus amigos do sindicato o que normalmente significaria apenas um processo trabalhista, mas não com esse sindicato, entende?
-Quer dizer que eles fazem algo a mais lá, é isso?- eu estava tentando entender.
-Pelo que descobri, sim…mas preciso de mais alguns dias, por isso ficaria feliz se você realmente levasse Maya e Carol com você.
-Farei isso, mas pelo menos para o ano novo você vai pra Curitiba né?
-Vou, pode contar comigo.- ele me estendeu a mão e eu a apertei num acordo de cavalheiros.
-Theo, preciso te perguntar, sou mesmo a melhor pessoa para isso? Você já me pediu para me afastar delas uma vez.- falei triste me lembrando de dez anos atrás.
-Me perdoe por aquilo, não tinha nada a ver com você e nem com a Carol na verdade, eu estava morrendo de ciúme da atenção que Maia te dava, e você era tão mulherengo na época que…
-Fala sério Theo…Maya e eu? Ela parece mais minha irmã do que você, nunca, jamais olhei para ela dessa forma.
-Eu sei, eu amadureci muito Edu, e você também.
-Eu acho que por um tempo a Maya foi mais mãe para mim do que a nossa mãe…lembra do acidente de moto quando eu tinha 19? Carol era tão pequena ainda e mesmo assim Maya ajudou a cuidar de mim, eu preferi ficar com vocês do que com a mamãe.
-Sim, eu me lembro. Foi ciúme b***a da minha parte, hoje eu sei que elas estarão seguras com você, e felizes também, você viu como Maya se alegrou quando você falou de ela ajudar na restauração da casa?
-Sim, ela pareceu muito feliz com a ideia.
-Eu estraguei a vida dela, Edu, aos dezesseis anos ser mãe…me admira ela ter concluído o ensino médio, claro que não teve tempo para seus próprios sonhos depois disso mas nenhuma vez nesses vinte anos eu a vi reclamar, ela merece muito uma chance de realizar seu sonho.
-Eu concordo…e quer saber? Tenho um amigo no MON, ele disse que ia ter um curso de férias em Janeiro para quem gosta de trabalhar com restauração de obras de artes, posso ver se ele consegue uma vaga para ela, o que acha?
-Seria incrível- Theo falou emocionado me abraçando- Muito obrigado Edu.
-Tudo bem, eu já vou para o hotel então.
-Ah, fica aí…o sofá é seu velho conhecido. Deixa eu te contar o que descobri sobre o sindicato.
Já passava da meia noite quando Theo terminou de me contar a história toda que envolvia a empresa, o sindicato dos trabalhadores do porto e um ex-funcionário insatisfeito pela demissão. Resumindo, todo mundo estava ameaçando Theo, o sindicato que era quase uma máfia ali, o ex funcionário que tinha transtorno de personalidade e agora Caio, um ex namorado frustrado de sua filha.
Quando finalmente fomos dormir eu logo peguei no sono e pra variar, sonhei com a Carol. No sonho ela descia as escadas e depois se sentava na beirada do sofá onde eu estava dormindo, ela acariciava meus cabelos se deitando ao meu lado enquanto eu tentava com todas as forças não reagir de forma alguma à proximidade dela. Uma lágrima acabava escorrendo e ela sabia que eu não estava dormindo. Dei um pulo no sofá quando senti de fato uma mão tocando meu rosto.
-Meu Deus, quer me m***r de susto?- ela disse.
-Eu…o que você está fazendo aqui?- perguntei confuso vendo Carol perto do sofá, ela ficou completamente sem graça.
-Vim te cobrir, mas aí vi que estava chorando, fiquei preocupada.- ela disse segurando as mãos de forma nervosa.
-Foi só um sonho.- falei atordoado tentando disfarçar.
-Tudo bem, pelo menos você conseguiu dormir. -ela disse triste.
-Carolina- falei mais tranquilo, foi quase um suspiro, fechei os olhos buscando forças para manter a sanidade- quer conversar?
-Não consigo, Edu.- Ela chorou em silêncio e enquanto as lágrimas escorriam, ela continuou falando- melhor eu tentar dormir e assim ela saiu da sala.
Chorei também, era uma dor insuportável no meu peito. Eu queria poder confortá-la, no entanto eu não conseguia nem confortar a mim mesmo.