CAROL
Quando me acalmei olhei para Sofia e ela me olhava com compaixão, ela sabia a resposta da sua pergunta, e ela me entendia, nunca pensei que encontraria uma amiga dessa forma, mas senti que uma amizade verdadeira começava ali.
-Vou precisar de uma boa maquiagem para disfarçar essa cara de choro.- Eu brinquei.
- Mantenha sua cabeça elevada por um tempo, vai ajudar… você tem máscara de camomila? Aquelas de gel?
- Ah, tenho sim, esta ali no frigobar.- Eu apontei para a pequena geladeira rosa que ficava perto da estante de livros e do sofá de leitura feito no recuo da janela.
-Que graça esse frigobar.- Ela disse enquanto pegava a bolsa para mim.- Aqui, senta na poltrona com a cabeça voltada para cima e use a bolsinha, ja vai ficar melhor.
- Como você sabe disso?- Perguntei curiosa.
- Muitos anos de experiência, fui criada por uma tia bem difícil. - Ela explicou.
O celular dela tocou e ela pediu licença para atender enquanto eu fazia meu momento de desinchar os olhos.
- Oi, Jordan? O que houve?- Ela perguntou preocupada. - Eu não sabia que você estava aqui, mas claro, te encontro sim… não, melhor ir pra Curitiba, me encontra no hotel, lá tem heliporto, ja chamo o helicóptero para nos levar.
- Esta tudo bem?- Perguntei quando ela desligou o telefone atordoada.
- É o Jordan, amigo meu e do Eduardo, quebrou a perna fazendo rapel, parece que a fratura é grave e precisará de cirurgia, foi o que os socorristas disseram.
- Que triste, e agora? Você precisa mesmo ir?
- Eu adoraria passar mais tempo com você, de verdade, mas olha, pega meu cartão, vamos manter o contato… é que o Jordan não tem mais ninguém, ele é literalmente um pobre menino rico.
- Esta bem.- Eu levantei e abracei Sofia, foi quando Edu chegou no quarto.
- Tudo bem aqui?
- Sim, é que vou precisar ir embora, o Jordan ligou, teve uma fratura f**a, preciso levá-lo para Curitiba.
- Ele é muito inconsequente, não acredito que se machucou, eu irei amanhã para acompanhar no hospital então, certo?- Edu disse decidido.
- Esta bem, tchau.- Sofia evitou beijá-lo na minha frente, só saiu e ele me olhou confuso antes de sair do quarto atrás dela.
EDU
-O que foi isso, Sofia? -Perguntei sem entender a atitude dela.
Sofia parou no corredor, se virou para mim e respondeu de forma carinhosa:
-Eu só não quis que você me beijasse na frente da mulher que você ama.- Ela falou mas não havia mágoa alguma na sua voz.
-Você…de onde você tirou isso?- falei completamente sem graça passando as duas mãos no cabelo de forma nervosa.
-De todas as noites que dormi ao seu lado, Eduardo…você sonha com ela todas as noites, as vezes fala, as vezes até chora…eu precisava vir para ver com meus próprios olhos.
-Eu sinto muito Sofia, eu queria que desse certo entre nós.- falei sem graça a abraçando.
-Eu sei, não estou magoada, mas preciso ir agora, amigos?- ela me estendeu a mão.
-Sempre.- eu dei a mão a ela selando essa amizade que era mais verdadeira do que muitos relacionamentos que as pessoas têm.
Fiquei ali parado no corredor encostado na parede tomando coragem de entrar e encarar a Carolina. Quando fui em direção ao quarto, escutei ela no telefone:
-Acabou Caio, é isso mesmo, não posso ficar com alguém que não me respeita.
Ele disse alguma coisa que a deixou irritada.
-Nem vou responder esse seu comentário, não ia dar certo mesmo,vou embora para Curitiba.
Meu coração quase parou de bater…ela realmente iria morar em Curitiba…estaria mais perto de mim do que nunca. Fechei os olhos e fiquei encostado na parede ao lado da porta dela me recompondo.
-É muito f**o ouvir as conversas dos outros, sabia tio?- abri os olhos e ela estava parada na minha frente, muito, mas muito perto de mim. Engoli seco…agora que eu não ia conseguir me recompor de vez.
-Você está linda.- eu disse observando-a da cabeça aos pés.
-Eu sei- ela se afastou seguindo pelo corredor.
Fiquei ali parado novamente e bati minha cabeça na parede dizendo a mim mesmo:
-Segura tua onda, Eduardo.
Desci e todos já estavam indo para o jantar que foi tão tranquilo quanto um jantar dos Thomaz Montana pode ser, mamãe e papai nos brindavam com seus comentários espinhosos enquanto eu e Theo tentávamos administrar, Maya segurava o choro e Carol revirava os olhos.
-É uma pena Theo querido, você desperdiçar sua vida nessa cidadezinha, você ainda é novo, filho.- minha mãe dizia.- E você, Edu…comprou uma casa caindo aos pedaços, nem morar nela você pode…
-Quem disse que era uma casa caindo aos pedaços?-Eu ri.
-Ué, não é? Por que demora tanto essa reforma então?- Meu pai se juntou a ela.
-É uma casa antiga, não estou reformando, estou restaurando.- Vi os olhos da Carol brilharem e um sorriso de admiração surgindo quando ela começou a fazer várias perguntas.
-De que ano? Qual estilo da casa? Você preservou a fachada original?
-Nossa futura arquiteta parece bem empolgada com o projeto- Theo também sorriu- não parece uma perda de tempo e dinheiro afinal.
Sorri também ao ver meu irmão me defendendo e até mesmo Maya agora estava mais animada. Eu não gostava dessa versão oprimida dela, era muito triste vê-la assim e isso sempre acontecia perto dos nossos pais, eles faziam parecer que a culpa era só dela de ter engravidado jovem, faziam parecer que ela havia estragado uma vida e carreira promissora do Theo e Maya sempre aguentava tudo calada… há vinte anos. Então tive uma ideia brilhante e claro, falei antes mesmo de refletir a respeito.
-Eu ficaria muito feliz de levar a jovem e promissora futura arquiteta para ver a casa, e que minha adorável cunhada fosse conosco, já que o Theo tem uma empresa importante para administrar aqui e imagino que não possa ir junto.
-Que gentileza Edu, mas eu? A Carol eu até entendo mas…
-Mas o que? Maya, você esconde seus talentos, mas eu sei bem do que é capaz e estou numa fase da restauração que exige uma pessoa talentosa como você.
Maya ficou vermelha como um pimentão, Carol olhou para ela e depois para mim e então entendeu o que eu estava tentando fazer, ela sabia que a mãe precisava disso, ser valorizada.
-Eu concordo com o tio Edu, ninguém é melhor do que você para certas partes da restauração, devemos ir ajudá-lo.- ela me olhou com gratidão nos olhos.
-Eu acho excelente a Maya colocar em prática suas habilidades. - Theo olhou para ela apaixonado e segurou sua mão por cima da mesa, o amor deles era o mais puro e genuíno que eu já tinha visto na vida.
-Fiquei curiosa Maya, que habilidades ocultas são essas que eu nunca soube?- minha mãe perguntou de um jeito ácido.
-É que a senhora nunca se deu ao trabalho de conhecer Maya, sempre preferiu apenas criticá-la.- Theo falou ríspido.- Mas ela é uma excelente artista, já restaurou muitas obras de arte importantes.
-Isso é de fato muito interessante.- Meu pai interviu, parecia estar genuinamente admirado com Maya.- Se um dia tiver a oportunidade, gostaria de ver alguma arte sua, Maya.
-Está bem na sua frente vovô, o quadro que decora essa sala foi a mamãe quem pintou.- Carol falou nitidamente orgulhosa de sua mãe.
-Belíssimo, minha cara.- meu pai falou admirando o quadro.Maya parecia incomodada com a atenção mas também estava feliz, seus olhos diziam isso e eu me senti feliz por ela que sempre me tratou muito bem, ela nem queria que eu me afastasse, foi apenas ideia do Theo naquela época.
Vi quando Carol recebeu uma mensagem no celular e ficou séria, logo ela pediu licença e saiu em direção à frente da casa.