CAROL THOMAZ
Decidi tentar o vestibular da Universidade Federal ja que meus pais sempre se gabavam das minhas notas, eu sei que poderia tentar de outra forma ou estudar em outro lugar, mas estudar nessa universidade histórica é algo que eu sempre quis fazer, desde criança eu pedia para meus pais me levarem naquele prédio histórico e tirar fotos minhas naquela escada, tenho fotos com várias idades lá, a mais recente foi quando eu tinha meus 18 e fomos comemorar em um restaurante temático da capital, ainda assim pedi para passar por lá antes de anoitecer e fazer a classica foto das escadas.
Agora aos vinte eu voltaria e faria a foto oficial como aluna, o que era um sonho para mim. Eu amo arquitetura e escolhi esse curso, embora esteja também cursando relações internacionais EAD desde que terminei o ensino médio aos 17, estou quase concluindo já, por isso vou tentar a federal agora.
Para minha surpresa, dessa vez meus pais não vão para Curitiba comigo, pediram para meu tio que eu não veja ha uns dez anos, para me buscar na rodoviária e me hospedar na casa dele esse final de semana. Eu sempre gostei do tio Edu, ele era legal quando eu era criança, sempre me dava doces escondido e me levava para passear, mas por alguma razão, perdemos o contato, agora estou aqui ansiosa para descer desse ônibus e vê-lo novamente, tomara que eu continue conseguindo dele uns chocolates e lanches, que ele não tenha virado um velho que tem alimentação saudável.
Quando desci as escadas do ônibus distraída eu o vi me olhando, meu coração falhou por um momento e fui transportada para aquela noite naquela festa, então era isso, por isso ele tinha saído tão rápido da festa, tinha praticamente fugido de mim, porque tinha me reconhecido.
Por um momento tive dúvida de como agir, mas não sou maluca de falar no assunto com ele, até porque ficaremos na mesma casa e isso seria bem perigoso, se aquela faísca surgisse novamente, adeus concentração para o vestibular e preciso muito me sair bem nessa prova. Só que não resisti e usei um pouco de maldade quando fui na direção dele, me aproximei e disse.
- Oi tio Edu.
- Sobrinha!- Ele respondeu no mesmo tom sarcástico me cumprimentando com um aceno de cabeça e dizendo- Vamos, meu carro esta por aqui.
Fomos em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos até que ele perguntou:
-Está com fome? Não tenho nada em casa então…
- Podemos pedir um lanche? Eu não queria nada saudável, sabe.- me expliquei.
- e o que te faz pensar que eu sou um cara saudável?- Ele riu.
-Sei lá, você é meu tio, deveria me fazer comer verdura e tal.- Eu ri também.
- Não se preocupe, não sou esse tipo de tio- Ele me olhou e eu gelei, não é possível que só de ele me olhar eu fique assim abobada. Se bem que o olhar dele era de uma intensidade incrível.
- Que bom.- Eu sem querer mordi os lábios. Ele me desconcentra sem nem encostar em mim, como eu poderia passar o final de semana todo com ele?
- Lanche então- ele disse entrando no drive-in de um fastfood- o que vai querer?
- Sanduíche de frango, batata, tortinha e milk shake.- respondi resoluta.
Ele fez o pedido e então fomos comer no apartamento dele, para minha surpresa, era em um prédio exatamente na praça Santos Andrade, a praça onde fica o prédio histórico da Universidade Federal.
- O apartamento é pequeno, mas você pode ficar no quarto e eu fico com o sofá, é que minha casa está em reforma, se eu soubesse antes que você viria, teria apressado a reforma e você poderia ficar comigo lá… digo… ficar hospedada.
Me diverti com o quanto ele ficou embaraçado ao dizer “ficar comigo lá”, mas preciso focar e não fazer nenhuma besteira, ele pode não ser meu tio de sangue, mas é de consideração e não posso tentar seduzí-lo, embora o sentimento seja muito mais forte do que eu.
- Tudo bem- Sorri sincera- Essa vista é perfeita, eu posso olhar minha futura faculdade daqui.
Ele se aproximou por trás de mim para olhar pela janela e eu senti seu perfume inebriante.
- Realmente essa vista é incrível.- Tive quase certeza que ele não estava falando da vista da janela- Mas vamos comer.
Comemos vendo qualquer coisa que estava passando na TV, na verdade nem prestei muita atenção, eu estava tão confusa e ansiosa pela proximidade com ele que fiquei completamente distraída, me pareceu que ele também estava distraído com seus próprios pensamentos.
Será que ele pensava em mim como eu penso nele? Ja faz uns meses daquele nosso beijo, mas eu não paro de pensar nisso. Instintivamente passei a língua pelos meus lábios e vi quando Edu soltou um suspiro frustrado e se levantou.
- Olha, preciso resolver umas coisas na rua, fica a vontade pra tomar um banho e descansar, tá? - Ele disse e pegou as chaves para sair, antes que chegasse na porta eu intervi e finalmente fiz a pergunta que estava me corroendo por dentro.
- Nós vamos mesmo fingir que não tem um elefante na sala**?- Falei firme mas na verdade estava morrendo de medo.
- Eu… olha Carol, acho melhor evitarmos o elefante, normalmente ele não é nada sutil.- Ele disse evitando olhar para mim.
Eu me aproximei e fiquei bem em frente ao meu querido tio.
- Ok então, não falaremos mais no assunto depois de hoje, mas preciso de uma única resposta sua.- Não sei de onde tirei tanta ousadia.
- Ta bom Carolina, faz sua pergunta, mas saiba que não quero que as coisas fiquem estranhas por isso estava evitando o assunto.
- Mais estranhas do que já estão? Não da pra fingir que nada aconteceu.- Eu disse irritada.
- Já terminou?- ele perguntou dando um passo para tras.- Faz logo sua pergunta, menina.
Fiquei com raiva de ele me chamar de menina, do mesmo jeito que fazia quando eu era criança e ele estava aborrecido comigo, então cheguei ainda mais perto dele olhando para seus lábios e mordendo os meus, coloquei minha mão no seu rosto e cheguei bem perto dos seus lábios para dizer.
- Não sou mais uma menina.
Ele engoliu seco, bem feito, não quero ele me tratando feito criança, mesmo que não queira nada comigo.
- Tudo bem Carol.- Ele se afastou, estava atordoado. - Posso ir agora ou vai fazer sua pergunta?
- Acho que ja tive minha resposta… eu só queria saber se você também pensava naquele dia.- Eu disse indo novamente para a janela olhar a vista maravilhosa.
- Então você pensa?- Parece que isso mexeu com ele mais do que o fato de eu quase tê-lo beijado novamente, ele então se aproximou de mim, me abraçou por trás e falou no meu ouvido. - Então guarda bem essa lembrança, porque nunca mais vai acontecer…
Me virei para olhar nos olhos verdes dele e ele me beijou com devoção começando devagar e depois aprofundando, eu queria mais, queria ficar ali nos braços dele, queria esquecer o resto do mundo e só viver aquele momento. Quando terminou de me beijar ele disse da forma mais cafageste possível.
- Tenho que ir ver minha namorada agora. Fica a vontade no apartamento, sobrinha, não vou voltar essa noite.
Ele nem me deu tempo de responder e saiu sem olhar para trás. Então eu não significava nada para ele? Porque ele me beijou daquele jeito? Para que me dar mais uma lembrança para não sair da minha cabeça?
Decidi tomar um banho e dormir, passaria o sábado fora num aulão de cursinho que contratei e não precisaria vê-lo, no domingo ja seria o vestibular e eu pegaria o primeiro ônibus de volta para casa, não queria ficar nem mais um minuto perto do cafageste do meu tio Edu.