(Este capítulo se passa na Sicília, Itália. Os seguintes acontecimentos estão em italiano, mas traduzido para a compreensão da história.)
O cheiro de couro velho e charuto impregnava as paredes do escritório. Cada objeto ali, da pesada mesa de mogno à garrafa de uísque caríssima sobre ela, era uma declaração da autoridade do homem sentado na poltrona principal: Don Vittorio Rossi. Meu pai.
Eu observava a fumaça do charuto dele subir em espirais lentas, dançando sob a luz amarelada do abajur. Lá fora, a noite siciliana era silenciosa, mas aqui dentro, a tensão era uma navalha suspensa no ar. Estávamos esperando. Pacientes.
Se tinha uma coisa que meu pai sabia fazer muito bem, era esperar. Um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. Eu, por outro lado, sentia meus músculos se contraírem a cada segundo que o telefone de bronze sobre a mesa permanecia mudo. Minhas mãos suavam. A gravata de seda parecia um nó de forca em meu pescoço.
Eu, sendo o filho mais novo do Capo, via meu futuro sendo selado a milhares de quilômetros de distância, em um país que eu m*l conhecia.
Quando o telefone finalmente tocou, o som foi tão estridente que me fez saltar por dentro, embora eu não tenha movido um músculo. Meu pai ergueu o aparelho com uma calma exasperante, levando-o ao ouvido.
— Pronto.
Ele ouviu por um momento, o rosto impassível como uma máscara de mármore. Seus olhos escuros, cópias dos meus, fixaram-se em mim. Um arrepio percorreu minha espinha.
— Bom — ele disse, a voz grave e baixa. — Sem complicações? ...Ótimo. Tragam a encomenda para villa. Quero-a aqui o mais rápido possível.
Encomenda. Era assim que ele se referia a ela. Não uma garota, não uma pessoa. Uma encomenda. Um pacote sendo enviado para selar uma nova rota de negócios com o Brasil. E eu era o destinatário.
Ele desligou o telefone, o clique do gancho soando como uma sentença final.
— Está feito — anunciou, como se falasse do clima. — A garota está a caminho. Em dois dias, ela estará aqui.
— Tão rápido? — as palavras escaparam de mim, mais ásperas do que eu pretendia.
Meu pai me fuzilou com o olhar.
— Você esperava o quê, Dante? Um noivado de um ano? Precisamos da confiança dos brasileiros, este é o primeiro passo. Primeiro passo para torná-lo útil dentro da nossa família. O casamento acontecerá na próxima semana.
A náusea subiu pela minha garganta. Fazer-me útil... As ofensas nem me atingiam mais. E em uma semana eu estaria acorrentado a uma completa estranha. Uma selvagem de algum lugar esquecido pelo mundo, escolhida por ser anônima, sem laços, fácil de controlar, com a nacionalidade daqueles que meu pai queria começar a negociar.
E ela tinha que ser virgem, é claro. Meu pai fazia questão da pureza de sua nova aquisição.
— Ela será sua responsabilidade — ele continuou, a voz dura como aço. — Você vai domá-la, vai ensiná-la nosso modo de vida. E vai me dar um neto no primeiro ano. Precisamos de um herdeiro com o sangue dela para solidificar os laços. Entendido?
Cada palavra era um tijolo na parede da minha prisão. Eu queria gritar. Quebrar a garrafa de uísque na parede. Dizer a ele que eu não era um animal reprodutor, que eu não queria essa vida, que eu não queria ela. Mas eu era um Rossi. E um Rossi não tem querer. Apenas o dever.
— Sì, padre — respondi, a voz vazia.
— Bom menino. Agora saia. Tenho outros assuntos a resolver.
A dispensa foi um alívio. Levantei-me, minhas pernas rígidas, e saí do escritório sem olhar para trás. Caminhei pelos corredores silenciosos e opulentos da villa, um palácio que sempre fora mais uma gaiola dourada do que um lar.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta, finalmente sozinho. O reflexo no espelho me encarou de volta: um estranho de terno caro, com desespero nos olhos. Aquele não era eu.
Com as mãos trêmulas, peguei meu celular no bolso. Havia apenas uma pessoa no mundo que me via de verdade. Uma pessoa que me lembrava de que, sob o nome Rossi, ainda existia um coração que batia.
Disquei o número que sabia de cor. Ela atendeu no segundo toque.
— Pronto? — A voz dela soou, sonolenta, mas doce como mel.
Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios. Só ouvir sua voz já acalmava parte da tempestade dentro de mim.
— Chiara? Sou eu. Desculpe ligar a esta hora.
— Dante! — Ela despertou de vez, a preocupação em sua voz. — O que aconteceu? É o seu pai?
Eu fechei os olhos, a imagem daquela garota desconhecida, a "encomenda", assombrando minha mente. Eu não podia contar a Chiara sobre isso. Não ainda. Mas eu precisava dela. Precisava me sentir humano de novo, nem que fosse por uma única noite.
— Não, está tudo bem — menti. — Eu só... preciso te ver. Agora. Posso ir até aí?