Capítulo 5: Emanuele

916 Words
(Este capítulo se passa em Trapani, Sicília. Os diálogos a seguir são em italiano, traduzidos para a compreensão do leitor.) Fiquei ali, parada sobre o cascalho, tendo como única companhia o homem que me trouxera até ali, meu carcereiro e agora, aparentemente, meu tradutor. Diante de nós, o monstro de pedra que era a mansão me encarava com suas janelas escuras, silencioso e imponente. Como se tivessem esperado pelo sinal, as pesadas portas duplas de madeira no topo da escadaria de mármore se abriram. Três figuras masculinas surgiram contra a luz que vinha de dentro, silhuetas de poder recortadas contra a escuridão do saguão. E então, eles começaram a descer. Um passo de cada vez, sem pressa, vindo em minha direção. Minha mente, em um esforço desesperado para se manter sã, começou a trabalhar. A analisar. A tentar adivinhar qual deles seria a minha sentença. O que vinha no centro era o mais velho, talvez o pai dos outros. O velhinho que pintava o cabelo de um preto artificial, mas se esquecia de disfarçar o bigode que continuava grisalho. Um detalhe que expunha uma vaidade falha. À sua direita, descia o mais alto. Forte, com ombros largos que preenchiam o terno caro. Bonitão, de um jeito clássico e intimidador, como os vilões de filmes antigos. Ele caminhava com a confiança de quem nunca ouviu a palavra "não". E, por último, à esquerda do velho, vinha o terceiro. O mais novo, talvez. Era menor que o outro, mais branco, quase pálido. Havia uma indiferença tão profunda em seu rosto que o tornava tão desinteressante quanto desinteressado em mim. m*l olhou na minha direção enquanto descia. Seus olhos, no entanto... Havia um flash de verde neles, tão claro e bonito que era quase uma ofensa naquele rosto sem emoção. Uma pergunta inesperada me pegou: qual deles seria o meu noivo? Era irrelevante, pois naquele momento odiava a todos e mandaria até os céus para o inferno. Eles pararam no último degrau, a apenas alguns metros de mim. Três predadores avaliando a presa. Uma parte de mim queria gritar. Mas a parte mais forte, a parte que me manteve de pé no mercado dia após dia, assumiu o controle. Meu instinto gritava para que eu corresse. Para que eu lutasse. Mas para onde? Eu estava em um país desconhecido, cercada por homens que me compraram. Lutar agora seria suicídio. O pânico era um luxo que eu não podia pagar. Então, eu me forcei a ficar parada. Apenas observar. E esperar. Uma senhora mais velha, de postura rígida e coque apertado, surgiu na porta atrás deles e aguardou, em silêncio. O velho deu o último passo, parando bem na minha frente. Seu olhar percorreu meu corpo de cima a baixo, frio e analítico. — Benvenuta alla villa Rossi — ele disse, a voz grave como o ranger de pedras. O raptor, que pelo visto também era tradutor, se inclinou ao meu lado e disse: — "Bem-vinda à villa Rossi". O bigodudo continuou, e o tradutor seguiu, sua voz um sussurro neutro no meu ouvido: — "Você é bonita. Forte. Servirá ao seu propósito." Ele então fez um gesto para a senhora que esperava na porta. — Elena. Prendila. Mostrale la sua stanza. ("Elena. Leve-a. Mostre a ela o seu quarto.") A tal Elena desceu os degraus restantes e parou ao meu lado, seu olhar tão acolhedor quanto o de uma estátua. Os três homens me deram as costas e subiram as escadas, desaparecendo dentro da casa. O assunto estava encerrado. A mercadoria fora inspecionada e recebida. Segui Elena para dentro da fortaleza. O homem me seguia de perto, a sombra que eu não conseguia despistar. Passamos por corredores que pareciam não ter fim, decorados com tapetes tão macios que meus pés afundavam neles e quadros de pessoas com olhos severos que pareciam me julgar. Elena parou diante de uma porta dupla de madeira escura e a abriu. O que vi lá dentro fez meu coração parar por um segundo. Não era um quarto. Parecia uma pequena casa fingindo ser um quarto, com certeza maior do que a que eu morava até... nem sei quantos dias atrás. — Estas são suas acomodações — traduziu o homem, enquanto Elena me observava. A cama com dossel era maior que o meu antigo quarto inteiro. O banheiro de mármore, mais luxuoso que qualquer coisa que eu já vira. Havia uma sala de estar com sofás de veludo e uma porta de vidro que dava para uma varanda particular. Elena caminhou até uma parede e abriu outras duas portas, revelando um closet, cuja palavra até me era estranha. Tudo era novo, distante de mim, e agora forçadamente aproximado. E ali, a realidade da minha situação me atingiu de uma nova forma. O espaço era forrado de roupas. Dezenas de vestidos, sapatos, bolsas, tudo novo, impecável, etiquetado e... no meu tamanho. Eles não tinham apenas me sequestrado. Eles tinham preparado uma fantasia completa para a nova personagem que eu seria forçada a interpretar. Elena disse mais alguma coisa, sua voz um murmúrio profissional. — A senhora diz que você deve descansar. Esteja pronta para o jantar, às oito — traduziu o homem. Ele e a governanta se viraram e saíram do quarto. A porta pesada de madeira se fechou na minha frente com um baque surdo. E então, eu ouvi. O som metálico, frio e definitivo, de uma chave girando na fechadura. Do lado de fora. Bem na hora que não consegui mais segurar o choro.
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