Capítulo 7: Emanuele

535 Words
Minhas palavras em português pairaram no ar úmido do banheiro, uma barreira de som que as duas mulheres obviamente não entendiam, mas cujo sentimento era universal. A mais jovem recuou um passo, assustada. A mais velha, a coroa, apenas estreitou os olhos, sua impaciência se transformando em uma irritação fria. Ela latiu algo em italiano, uma frase curta e dura. E então, sem esperar por uma reação, agarrou meu braço. Sua força era surpreendente. O banho foi rápido, mecânico e humilhante. Não houve delicadeza. Fui tratada como um objeto a ser esfregado e limpo, minhas lágrimas se misturando à água quente e à espuma perfumada. Quando me ergueram da banheira e me enrolaram em uma toalha felpuda, eu já não tinha mais forças para lutar. Meu ato de rebeldia tinha me custado a última reserva de energia. Agora, eu era apenas um corpo dócil, o que, suspeitava, era tudo o que eles queriam. De volta ao quarto, a empregada mais jovem abriu o closet e retirou de lá um vestido. Era vermelho. Um vermelho tão escuro e profundo que parecia sangue coagulado. O tecido brilhava sob a luz do lustre, um material que eu nunca tinha tocado na vida, talvez seda. Não tinha mangas e o decote era discreto, mas a forma como ele foi feito deixava claro que abraçaria cada curva do corpo. Era um vestido feito para ser visto. Elas me secaram sem cerimônia e então vieram com a peça. Senti as mãos delas em mim, me guiando para dentro do tecido frio. O zíper subiu pelas minhas costas, selando-me dentro daquela segunda pele. O vestido caiu perfeitamente, como se tivesse sido costurado em mim. O que, de certa forma, era verdade. Aquela não era a minha escolha. Aquela não era eu. A mais velha me sentou à força em uma penteadeira. Pegou uma escova e começou a desembaraçar meu cabelo molhado com puxões firmes. A jovem abriu uma gaveta e tirou um par de sapatos de salto alto, pretos e finos. Elas estavam me montando. Peça por peça. Quando terminaram, a mulher mais velha me puxou pelo cotovelo, me forçando a ficar de pé, e me virou para um espelho de corpo inteiro que eu não tinha notado antes. E eu parei de respirar. A garota no espelho não era Emanuele Santos. A garota do mercado, do Ceará, de pés rachados e cabelo preso, tinha desaparecido. Em seu lugar, havia uma estranha. Uma mulher pálida, de olhos inchados pelo choro, mas com uma postura que o vestido caro impunha. O vermelho da seda fazia minha pele parecer ainda mais branca, quase translúcida. Meu cabelo escuro e úmido caía pesado sobre meus ombros. Eu parecia mais velha, mais dura. Uma prisioneira fantasiada de dama. Ergui a mão e toquei a superfície fria do espelho, nos contornos daquele rosto que deveria ser o meu. Quem era ela? O que eles queriam que ela fosse? Um som metálico me fez saltar. A chave girava na fechadura mais uma vez. A porta do quarto se abriu. Era o tradutor. Ele não olhou para mim, mas para o relógio na parede. — Oito horas — ele disse, em português. — O Don a espera para o jantar.
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