Capítulo 9

1528 Words
— Não mesmo! E também está na hora de eu começar a fazer novos amigos! O rosto de Melly se fechou, seus lábios se uniram em uma linha bem fina. — O que foi? — É que estou pensando… — E o que tem de mais? — Pensar me dá dor de cabeça. — Ãh?! — Falando sério… Agora você vai me deixar de lado, como sempre acontece com as minhas amigas preferidas quando elas encontram garotas mais populares. — Deixe de ser melodramática, Melly! Você sempre será minha melhor amiga de colégio. — Jura pela felicidade do professor Clooney? — E me mostrou os dedos cruzados. — Do chato do professor Clooney? — segurei o riso. Melly era uma figura! — Claro! De todo o meu coração! E começamos a gargalhar, já fazendo planos para os próximos finais de semana. — Tem mais uma boa notícia. Consegui o emprego na Strike. Começo semana que vem. — Demais! — E, olhando-me de soslaio, soltou: — Tem certeza que é só isso mesmo? Caramba! Seria Melly mais ligada do que eu imaginava ou meu estado de euforia era tão evidente assim? — Bem… Hoje cedo eu desequilibrei e só não fui atropelada bem na entrada do colégio porque um garoto me salvou. E ele era lindo! — Gato e poderoso? Que espetáculo! — E, lançando-me uma piscadela, perguntou ansiosa: — Ele pegou o seu telefone? — Não foi preciso. — Hã? Como assim? — Melly chacoalhou a cabeça. — Ele vai estudar aqui também. Ele é um dos alunos novos que ainda não havia chegado. — Uau! — assoviou. — Isto é que é destino! Uma multidão de alunos começou a entrar na sala, fazendo grande alvoroço. Susana, acompanhada de Clarice, veio em nossa direção. — Os deuses ouviram as nossas preces! — Ela estava quase sem fôlego com seus múltiplos saltinhos. — Como assim? — Melly indagou confusa. — O aluno novo! — exclamou Susana. — Quem? — senti o bolo se formando no meu peito. — O aluno novo que chegou hoje é lindo! — Clarice gemia, em uma inútil tentativa de imitar os trejeitos da amiga. — Ah! — respondi sem graça. Pronto! Elas já tinham se deparado com o meu anjo louro e aquilo me gerou certo m*l-estar. — E tem mais! — continuou Susana toda animadinha. — Ele também não é novo como a gente. — Muita coincidência, não é mesmo? Com certeza era de Kevin que ela estava falando. m*l tive tempo para expressar um mísero comentário. Meu gato louro entrou na sala de aula sob a escolta dos olhares femininos e o desdém dos masculinos. As meninas ficaram hipnotizadas e aquilo estava me dando nos nervos. — Agora só está faltando o bad boy — ela acrescentou de modo teatral. — Quem?! — As vozes saíram em uníssono. — Hoje cedo eu vi um garoto todo marrento acertando detalhes de sua matrícula com a Sra. Nancy. Acho que deve ser o último deles. — Muita coincidência tantos alunos novos começando na mesma época, não? — matutava Clarice displicente. “Coincidência”? Depois da aula concordei em ir até a casa de Melly para lhe ensinar algumas equações de Química Orgânica. O Sr. e a Sra. Baylor eram advogados e pareciam ter uma boa condição econômica. Era uma família tranquila, feliz e normal. Senti uma pontada de inveja de toda aquela harmonia. Era fácil entender porque Melly era tão leve, tão alegre. — Não deu tempo de fazer um lauto almoço. Vou ficar te devendo essa. — E Melly me entregou um hambúrguer tamanho gigante enquanto ligava a televisão. — Está ótimo! — Ah! Aquela pirralha ali é Sthefanie — disse apontando para a irmã caçula, que brincava com outra coleguinha. — E também tenho um irmão mais velho, Robert. Ele está morando em Londres. É seu primeiro ano na faculdade de Direito. — E me mostrou uma foto antiga de toda a família que pairava feliz em uma das prateleiras da estante de livros. Enquanto comíamos, vi no noticiário da televisão algo que me arrepiou inteira. — O que foi, Nina? Por que você está com esta cara assustada? — indagou Melly. — É sobre o acidente de ontem! — Como assim? — Está vendo este homem da televisão? — Qual? Este maluco aí que apareceu morto? — perguntou, entupindo seu hambúrguer de ketchup. — Ele mesmo — respondi nervosa. — O que é que tem? — indagou-me dispersa, enquanto abocanhava um pedaço enorme do hambúrguer. — Que horror! Ele foi assassinado em uma briga na delegacia onde estava detido! — Isto é muito comum… — E Melly permanecia alheia ao meu estado de choque. — Eu acho que ele queria me m***r, Melly! — Te m***r? Você pirou? — Finalmente ela havia aterrissado de seu vôo. Estava atenta. — Melly, eu conheço este homem! Ele entrou na loja algum tempo antes de você chegar. Ele se dizia empregado da companhia de limpeza que faria a lavagem das pastilhas do prédio. — E daí? — E daí que este homem soltou o andaime propositadamente em cima de mim. — Você está ficando paranoica! Foi só uma infeliz coincidência. — Não! Quando ele entrou na loja, percebi que ele tinha um jeito muito estranho, falava com as vendedoras, mas ficava olhando fixamente para mim, como em transe. E a polícia suspeita de que aquilo não foi um acidente! — Você está com mania de perseguição, mas seu problema é o azar. Tem que se benzer, eu já te disse! Calei. Talvez Melly tivesse razão. Para minha agonia, o tempo passara mais depressa do que gostaria, e eu não havia decidido ainda se falaria a verdade para Stela, se omitiria o incidente de hoje cedo ou se lhe mentiria descaradamente. Sabia que ela já deveria estar em casa, arrancando os cabelos. Um novo confronto à vista. A cada passo em direção ao meu prédio, meu instinto alertava sobre a possibilidade de uma nova e desgastante briga com minha mãe. Resolvi, num impulso, jogar o coitado do celular no chão, partindo-o em vários pedaços. Desculpa pronta! Ao abrir a porta, lá estava ela: petrificada, sem uma única gota de sangue, como um vampiro sedento. — Graças a Deus! — berrou vindo ao meu encontro. Abraçava-me com vontade. — Você está bem? — seu tom de voz agora caminhando do aflito para o colérico. — Por que esta cena toda, mãe? — retruquei no mesmo tom. — POR QUÊ??? — ela berrava, eu me encolhi. — Qual o nosso trato, Nina? — O celular caiu e quebrou, ouviu? Que saco! Agora tenho que te dar meu relatório diário? Tenho que estar disponível para os seus chiliques vinte e quatro horas por dia? Vai ser assim? — Tentei ser convincente com aquela encenação. — Como aconteceu? — Ela estava concentrada. — Eu esbarrei em um colega e o aparelho voou longe. — Quando foi? — Hoje cedo. —Hum. — Ela sabia que eu estava mentindo, mas preferiu parar a briga por ali. — Fique com o meu — ordenou e me estendeu o seu velho aparelho. — Preciso voltar ao trabalho! Acabei deixando alguns serviços pendentes… Não faça mais isto, filha. — Pare de me perseguir, mãe! d***a! Se meu pai fosse vivo, nada disto aconteceria! Mesmo sem querer, lágrimas me escapavam. Meu pai. O assunto proibido. A mesma dor que nos unia e afastava. Subitamente o semblante furioso de Stela foi substituído por um preocupado, que logo deu lugar a um pesaroso, triste. Ela caminhou lentamente para a porta e se foi sem olhar para trás. No fundo eu sabia que minha mãe tinha razão. Eu também estava ficando muito preocupada com o rumo daqueles bizarros acontecimentos em um intervalo de tempo tão curto. Meu inexplicável m*l-estar na avenida em frente ao colégio, sem falar no artista de rua em Amsterdã e no homem do andaime, ambos mortos bem no dia seguinte aos meus acidentes… Poderia ser apenas coincidência? Na internet procurei por respostas que explicassem a sintomatologia que eu vinha apresentando: calafrios, perda de visão e desmaio. Após longo tempo de busca, uma resposta estarrecedora apareceu na tela do meu notebook: Oi, eu sou Anna e vivo na Espanha com minha mãe. Tenho passado por episódios semelhantes aos seus, com a diferença que eu só desmaio, não tenho os calafrios e perda da visão. Pessoas surgem do nada e, de repente, resolvem me atacar. Acidentes estranhos também vêm me cercando. Antes achava que era mania de perseguição, mas agora até a minha mãe está ficando preocupada e contratou um segurança para me vigiar 24h por dia. Apesar de ser chato, me sinto bem mais confiante, e, por incrível que pareça, os episódios estão diminuindo. De início senti brotar uma pitada de esperança em meu peito: eu não era a única a passar por tais bizarros atentados! Mas uma frase de Anna martelava minha consciência tirando-me o sono: “Pessoas surgem do nada e, de repente, resolvem me atacar…” O que ela queria dizer com aquilo? A resposta viria ao meu encontro, e não era boa.
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