Capítulo 1
Arrependo-me de não ter prestado atenção aos sinais que me cercavam. Teria sido tudo
diferente? Se eu pudesse imaginar que estes seriam os últimos dias da minha vida, ou melhor,
da vida a que estava acostumada, faria alguma diferença?
No entanto, de uma coisa eu tinha certeza: eu deveria ter ficado em casa naquele dia e
jamais ter colocado os pés naquela maldita praça. Jamais!
— Venha, Nina — chamou Stela eufórica, apontando para um showzinho a ponto de
começar na praça Dam.
Quando me aproximei, foi tudo tão rápido que meu cérebro m*l conseguiu processar a
sequência de eventos que aconteciam diante de meus olhos.
Zooomp! Zooomp! O gemido s***o do ar sendo apunhalado. Fragmentado. Zooomp! Uma
praça. Uma aglomeração de pessoas em uma roda. O artista de rua em uma assustadora
exibição com facas voadoras. Seu olhar concentrado ficando estranho, aéreo talvez. As
cintilantes facas se movimentando com incrível rapidez. O homem se aproximando. Zooomp!
As lâminas afiadas se chocam, produzindo hipnóticas faíscas e gritos de delírio. O
exibicionista se aproximando. A atmosfera cinza, o inebriante tilintar e brilho das facas, o
burburinho de excitação das pessoas e… meu cérebro processando as imagens com enorme
dificuldade. As letais facas cada vez mais perto. Meu estado de transe subitamente
interrompido por uma voz incisiva atrás de mim:
— Abaixe-se!
No mesmo instante tive a sensação de que alguma pessoa havia me puxado e ao me
inclinar para ver quem era senti um vento frio passar pelos meus cabelos. Só deu tempo de
ouvir um ohh!!! das pessoas ao meu redor. Por que todas estavam olhando para mim?
Aturdida, finalmente entendi o que acabara de acontecer: uma das facas havia se desprendido
da mão do artista de rua e voado diretamente em minha direção. Com certeza teria
transpassado meu pescoço se meu reflexo não fosse tão… tão incompreensivelmente rápido!?
— Nina, você está bem? Você está bem? — gritava Stela supernervosa. — Oh, meu
Deus, foi por pouco!
— Eu estou bem! Só um pouco tonta, mãe.
— Venha, vamos embora! — Agarrou-me com agressividade pelo braço, conduzindo-me
para longe da multidão. — Meu Deus, meu Deus! — ficava balbuciando e olhando em pânico
para todas as direções.
— Calma, mãe. Não aconteceu nada! — respondia ainda meio desorientada.
Não conseguia compreender por que ainda me sentia muito estranha, mas não
mencionaria tal fato com Stela no estado de nervos em que ela se encontrava. Devia ser
pressão baixa.
Ao chegar em casa, o olhar de fúria nos olhos de Stela era evidente. Pronto! O estrago
estava feito.
— Arrume suas roupas, filha — ela sacudia a cabeça transtornada. — Partiremos
amanhã! É só o tempo para que eu providencie algumas coisas.
— Eu não quero ir! Mãe, nós acabamos de chegar à Holanda! Isto é um absurdo! —
retrucava de maneira histérica. — Comecei o ano letivo em Oslo, pouco tempo depois já
estávamos aqui em Amsterdã e agora você já quer mudar de novo só porque eu sou a mais
azarada garota da face da Terra? Você não vê que isto está me prejudicando? Será que você
não pode esperar?
— Não! Além do mais, recebi uma irrecusável oferta caso atue fora da Europa… — a
voz dela saía cambaleante.
— EU NÃO VOU! A gente não precisa desta oferta! — grunhia.
— Nina, se eu recusar este trabalho uma série de portas vão se fechar para mim — ela
arfava. — Lembre-se que já fui referência em minha área, mas hoje não sou mais. O mercado
está muito competitivo e vem engolindo os que não se adaptam. Precisamos ir!
— Por que eu não posso ser como todas as garotas da minha idade, hein? Sempre que
começo a fazer amigos você parece que fica insatisfeita. Eu quero uma vida NORMAL!
— Que conversa é esta? Sempre tivemos uma vida normal e, bem… eu nunca me
importei com as suas novas amizades. — Mas o semblante culpado de Stela evidenciava o
contrário.
— É claro que não se importa, afinal de contas eu não tenho amigos mesmo! Eu não tenho
tempo sequer de conhecê-los! m*l consigo gravar os nomes dos meus colegas! Isto é o normal
para você? — indaguei com o rosto suado e em brasas, as sobrancelhas cerradas, quase
obstruindo minha visão. — Já sei! — continuei sarcasticamente. — Normal para você é
começar um ano letivo em Varsóvia, mudar logo em seguida para Viena e terminá-lo em
Copenhague, reiniciarmos o outro ano em Oslo, mudarmos para Amsterdã, para então irmos
não sei para onde, de onde logo partiremos para outro lugar, e mais outro, e outro —
esbravejava aos quatro ventos. — Aliás, Stela, deve ser por isso que sou tão boa em
Geografia, não é? — completei enfurecida.
— Não me chame de Stela! Você sabe que eu não gosto! — e continuou com a voz
embargada. — Nina, eu te prometo que nós vamos mudar cada vez menos. As coisas só
precisam se acalmar um pouco… — puxou o ar com visível dificuldade —… e aí a gente se
estabelece na cidade que você escolher. Por favor, filha, aguente mais um pouco.
— O que precisa se acalmar?
— Nada de mais! Na hora devida eu falo — e desconversou, como sempre. Seus
motivos: insondáveis. — Ah! Não tive tempo de dizer para onde vamos nos mudar… É um
local que gosto muito e que você adorou quando criança. Quer uma pista?
Contaminada por uma raiva sem precedentes, não respondi com palavras impróprias
àquela pergunta cretina por respeito a ela. Stela insistia:
— Não vai dar um palpite? — perguntou deixando um sorriso amarelo esboçar-se em seu
rosto.
Permanecia calada.
— Nova Iorque! — exclamou feliz, aguardando minha reação.
Acertou em cheio! Apesar de não querer dar o braço a torcer, minhas expressões
suavizaram-se. Se houve um local de que eu realmente tinha boas recordações, este local era
Manhattan. Não que eu não gostasse de Amsterdã, seus lindos canais, passear de bicicleta pela
cidade, sua vida tranquila. Mas algo dentro de mim borbulhava. Agora eu queria mais. Queria
mais gente, mais agitação, e até mesmo mais buzinas, sirenes, fumaça, escadas rolantes em
minha vida. É isto mesmo: eu queria mais vida na minha vida!
— Partiremos amanhã à tarde — completou, já percebendo que meu semblante
melhorara.
— Por que tanta pressa, mãe? Ou você já tinha decidido?
— Não tinha nada decidido! A oferta apareceu e pronto. E é para ontem, ok? Fim de
papo! — a voz grave confirmava que sua paciência estava ribanceira abaixo.
De nada adiantaria estender aquela conversa, Stela havia se fechado em seu casulo
particular. Apesar de não ser um comportamento comum, dois assuntos costumavam
encaminhá-la diretamente para este casulo: o primeiro era discutir algo que ela já havia
decidido, como mudar repentinamente de uma cidade para outra; o segundo, que também me
incomodava cada vez mais, era falar sobre nossa família, principalmente sobre o meu pai.
Stela nunca falou. Nos últimos dois anos as nossas brigas aumentaram de forma exponencial.
Queria saber algo sobre ele. Não teria uma foto sequer? Eu deveria ter muitas semelhanças
com ele. Stela é morena, baixa, corpulenta, seus cabelos são negros assim como seus miúdos
olhos. Completamente diferente de mim! Minha pele muito branca, meu biótipo longilíneo,
meus fartos cabelos castanho-claros assim como meus arredondados olhos desta mesma cor
eram a prova viva da herança genética herdada de meu pai. Dela havia herdado minha
incapacidade de aceitar um não como resposta e meu gênio indomável… Por que não poderia
me dizer algo sobre ele? Queria entender o porquê. Ele havia nos abandonado ou estaria
morto?