Capítulo 2

1744 Words
— Estou indo acertar os detalhes da mudança. Aproveite para arrumar as malas. Não temos muito tempo — disse Stela com um olhar distante enquanto abria a porta. Eu conhecia aquele olhar. O mesmo olhar que confirmava que minha mãe estava com seus pensamentos bem longe dali. Aqueles mesmos pensamentos que nos fizeram mudar constantemente, as mesmas neuras que insistiam em me afastar de todos ao meu redor, em me isolar. Já deveria ter me acostumado, mas a cada dia tal situação ficava mais insuportável. Queria outras pessoas para desabafar, contar meus segredos. Queria amigos de verdade! Os poucos amigos que fiz se perderam no caminho, ficaram para trás. Amizade exige presença, e eu não ficava muito tempo em lugar algum. — Por que tem que ser assim, mãe? — A tristeza impregnava meu murmúrio. Ela voltou, mexeu na gargantilha do meu pescoço e me beijou a testa. — Estou indo devolver as chaves do carro e do apartamento. Nós nunca comprávamos nada de valor, como imóveis ou carros. Stela sempre os alugava. — Eu te amo, filha. Mais do que tudo nesta vida. — Eu sei, mãe. — Senti um aperto em meu peito, abaixei a cabeça e fui para o meu quarto. Por mais chateada que ficasse com Stela, meu amor por ela era enorme. Meus ombros carregavam uma pesada sensação de dívida. A dor que podia ser vista por detrás do seu semblante sofrido acabavam me calando. Sabia que ela me amava. Mas era um amor estranho, doentio de certa forma. Talvez porque não tivéssemos família. Éramos só nós duas. Talvez porque houvesse algo mais… Toda vez que tínhamos uma discussão como esta, eu ficava me consumindo de remorso. No início até me sentia satisfeita pelo fato de ela não ter refeito sua vida com outro homem. Assim eu não precisaria dividir sua atenção. Mas hoje me arrependo muitíssimo de ter pensado assim. Agora percebo que teremos que seguir caminhos diferentes um dia. Como ela ficará sem mim? Será que vai suportar? Eram perguntas constantes que me martirizavam. Morávamos no andar superior de um espaçoso e antigo sobrado. Meu quarto ficava virado para o Sul, era claro e bem mais frio que o restante da casa. Por alguma razão, os ventos glaciais do Mar do Norte cruzavam silvando dezenas de ruas bucólicas e o atingiam em cheio. Os móveis tinham sido alugados juntamente com o imóvel, e, da mesma forma, eram tão antigos quanto ele. De novo somente as minhas roupas, sapatos e o meu notebook. Puxei as malas que guardava embaixo da minha cama, e, como não era de espantar, não se encontravam tão empoeiradas assim, afinal de contas elas estavam constantemente sendo utilizadas na nossa solitária e agitada vida de errantes. O tempo estava nublado, e Amsterdã despediu-se de nós com gelados beijinhos em forma de pingos de chuva. O check-in teria sido tranquilo se eu não tivesse me aproximado de uma banca de jornal e visto algo que me intrigou. — Mãe, olhe! — Que foi? — Meu Deus! — exclamei assustada. — Veja! O artista de rua! Foi… assassinado! Apareceu hoje boiando em um dos canais, cheio de facadas, ou algo assim. Stela pegou o jornal de minhas mãos e leu toda a matéria em silêncio. Não falou absolutamente nada. Nem um único comentário. Seu corpo permanecia rígido e o rosto indecifrável. Não gostei daquela reação. — Vamos — disse ela mais seca do que nunca —, temos que despachar nossas bagagens. — O que está acontecendo? — perguntei agressivamente. — Nada. Por quê? — retrucou de forma irônica. — Você parece assustada… Sei lá — murmurei. — É impressão sua. Algo dentro de mim fazia perguntas sem sentido: Será que Stela sabia de alguma coisa sobre aquele assassinato e não me contou? Seria por isto que estávamos saindo dali com tamanha urgência? Não! É óbvio que não! Até porque sair às pressas de um local para outro já era seu famigerado hobby, e eu já deveria ter me acostumado a ele. MAS NÃO! Faltando menos de dois meses para completar dezessete anos eu conseguia me sentir ainda mais diferente e solitária do que nunca. O que antes tentava esconder, agora fazia questão de demonstrar. Eu estava infeliz! Como minha mãe poderia achar normal viver em mais de vinte diferentes cidades e países num curto intervalo de dezessete anos? Por que tinha que ser assim? Eu queria uma vida normal! Pela primeira vez, pensava em alguma comemoração no meu aniversário, algo que nunca tive a oportunidade de ter. As razões eram diversas: a primeira é que apesar de termos conforto, nunca sobrou muito dinheiro. Não que eu visse Stela esbanjar em bolsas e sapatos da moda, mas, de alguma forma, o dinheiro desaparecia. Sei que ela sempre recebeu bons honorários por ser uma referência em sua área de atuação. Minha mãe, Stela, especializou-se em um ramo da indústria de produção de lentes de contato. Sei que fez isto por amor a mim. Nasci com um defeito em ambas as córneas. Apesar de ter uma visão perfeita, a anatomia de minhas pupilas é estranhamente incomum, fina e vertical, assemelhando-se à de uma cobra, lagarto ou de um felino, como prefiro imaginar. Assustador, eu sei, mas graças à Stela, nunca me foi constrangedor. Ela percebeu que aquela aberração poderia influenciar o modo como as pessoas me tratariam. Como sempre foi uma mãe protetora e uma mulher muito inteligente, arregaçou as mangas e começou a estudar por conta própria os meios de confecção das lentes de contato que existiam no mercado. Especializou-se nos diversos tipos de materiais, modelos e matizes das lentes que existiam no mundo, de maneira que seu grau de conhecimento ficou tão singular nesta área, que ela foi rapidamente absorvida pela indústria de produtos oftalmológicos. Fui criada como uma criança normal, sem distinções, graças ao uso destas lentes especiais desde muito pequena. Este era o nosso segredo, embora no início eu não soubesse se era pior ficar com ou sem elas. Como incomodavam! Mas Stela nunca desistiu. Com o tempo desenvolveu lentes melhores, com maior durabilidade, feitas sob encomenda para mim. Tudo era feito em sigilo, sempre, de forma que até hoje absolutamente ninguém foi capaz de perceber que uso estes modificados corpos refratores. Acreditam apenas que uso tradicionais lentes de contato para os meus desnecessariamente chamativos olhos castanho-claros. Em parte sinto-me culpada por nossa solitária vida de nômades, porque sempre que Stela ouvia falar de algum avanço científico na área, lá estávamos nós de novo fazendo as malas e partindo para outra cidade ou país. Hoje sei que, graças à sua experiência neste ramo de atividade, encontra-se também a desculpa perfeita para as suas costumeiras mudanças bruscas de vida e lugar, a válvula de escape para as suas habituais inconstâncias de temperamento. Outro motivo para não ter qualquer comemoração no meu aniversário é que Stela fica particularmente tensa e com atitudes, como diria, insanas, sempre que esta data se aproxima. Complexo de envelhecimento? Neurose materna? Nunca entendi. Ah! Esqueci de mencionar que o azar é uma constante em minha vida, apesar de não ser, tecnicamente, uma garota estabanada. Para uma mãe solitária e neurótica isto já seria prato feito, imagine se essa mãe fosse também tremendamente supersticiosa. Pois é o caso de Stela! Sempre que algum fato estranho acontecia, já era motivo para ela pensar em mudar de cidade. Como sempre fui muito azarada, aprendi a omitir acontecimentos nada convencionais que, vez ou outra, insistiam em ocorrer comigo. Cheguei a pensar que talvez fosse algum problema com a minha visão ou com as minhas lentes de contato, mas percebi a tempo que era mesmo falta de sorte. — Vou comprar um sanduíche. Quer um? Aterrissei. — Não — refutei de má vontade. Estava imaginando se meu ano escolar estaria severamente comprometido. — Que foi, Nina? — Posso perder o meu ano letivo, mãe. Você não fica nem um pouco preocupada? — franzi as sobrancelhas. — Você é uma excelente aluna. Vai conseguir — rebateu ela sem dar a mínima importância. Seu descaso me enervou: — E se as matérias forem completamente diferentes? E se eu não conseguir? — retruquei histérica. — Você sempre se saiu bem e, além do mais, tem coisa pior nesta vida… — Pior?! Ah! Não. O pior é a minha mãe ter de levar uma vida normal, não é mesmo? — Você não sabe de nada! Se sentisse o que eu sinto… — As palavras saíram como um gemido dentro de uma face torturada. — Como não sei? Sou eu quem convive com você! Sou eu quem aguenta de tempos em tempos este seu olhar de depressão e suas atitudes egoístas! E em mim você não pensa? — Claro que sim, Nina! É por você que faço estas mudanças… — Eu nunca pedi para me mudar! — Meus olhos quase saltando das órbitas. — Olhe! Estão começando a chamar o nosso voo. Vamos, eu como no avião! — Mudou de assunto e levantou-se rapidamente. — Vamos, Nina! Que lerdeza! — Mas por que a pressa? Posso saber? — explodi. — Depois a gente discute, está bem? — e fechou a cara. Pronto, entrara no casulo novamente. Joguei minha mochila nos ombros, peguei meu notebook e me encaminhei para a fila que se formava, com Stela logo atrás de mim, como um cão treinado pronto para me defender de qualquer ataque de um inimigo. — Que saco! — reclamei baixinho. Ela não me ouviu, ou fingiu não ouvir. Resolvi então colocar meu i-pod e não me preocupar com o que estaria por vir. Atrapalhada, deixei meu fone de ouvido se enroscar em meus cabelos e ele acabou se soltando. Ao abaixar para procurá-lo, senti uma fisgada nas costas e um calafrio muito forte passar e repassar por todo o meu corpo. — Que estranho! — sibilei ao levantar. Mas dei de ombros e continuei andando. Virei para trás e vi Stela com a expressão petrificada, olhar acuado. A comissária nos recebeu com um sorriso animado, o que mais aumentava a minha fúria, e indicou os nossos assentos — provavelmente pensando que tínhamos algum problema com numeração, algum tipo de dificuldade visual (mas minhas lentes estavam bem posicionadas!) ou duvidava de nossa capacidade intelectual. É… realmente eu não estava de bom humor e as comissárias não tinham culpa alguma de eu estar novamente de partida para outro local onde também não saberia por quanto tempo permaneceria.
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