— Ande, Nina! Você está engarrafando toda a fila.
— Tá bom!
Quando comecei a empurrar tudo de qualquer jeito para dentro do apertado bagageiro,
senti novamente o calafrio passar por mim. Experimentei uma fraqueza momentânea e afundei-
me no meu assento.
Stela tinha a fisionomia assustada.
— Que foi agora, mãe?
— Nada — respondeu ela com uma cara sinistra. Olhava para todos os lados. Parecia
examinar cada assento da aeronave, um por um. Sentou-se reta, completamente enrijecida.
Após o jantar, tomei o meu Dramin e cochilei, exausta pela nossa saída fugitiva para os
Estados Unidos. Quando acordei, as luzes da aeronave estavam apagadas e já devia ser de
madrugada, pois praticamente todos os passageiros estavam dormindo, inclusive Stela. Joguei
suas pernas frouxas para o lado e, aproveitando a calmaria, dirigi-me ao toalete. Quando
estava retornando para o meu assento senti novamente aquele frio intenso passar pela espinha
e subir pelas costas. Tremi. Como por reflexo, virei-me rapidamente. Nada! Não havia nada
nem ninguém atrás de mim. Tive a estranha sensação, entretanto, de que estava sendo
observada. Olhei ao redor e tudo parecia perfeitamente normal: a maioria dos homens
roncando, crianças dormindo e babando nos colos de suas exauridas mães, além de alguns
adolescentes assistindo a todos os filmes disponíveis durante a madrugada.
— Tolice! — disse a mim mesma. E retornei ao meu lugar. Subitamente, senti aquela
sensação estranha acompanhada de um som diferente, e, quando olhei para trás, tudo estava
igual, com exceção de ter visto um vulto n***o entrar no sanitário. Fiquei confusa. Resolvi que
ficaria ali no corredor aguardando até aquela pessoa sair do toalete. Poderia ser bobagem
minha, mas tinha que tirar a dúvida. O tempo se passou e ninguém saía do maldito lavatório.
Já estava ficando cansada com a espera.
— Esta pessoa deve estar passando muito m*l — caçoei da situação para mim mesma.
Naquele momento, uma senhora bem gorda se levantou e dirigiu-se para o sanitário
ocupado. Ótimo! Agora a pessoa que está lá dentro terá que sair. Foi quando não acreditei no
que meus olhos presenciaram: não havia ninguém naquele lavatório! A senhora entrou e saiu
calmamente. Não é possível! Enfureci-me comigo mesma. Este Dramin é forte mesmo.
— Você está procurando alguma coisa, senhorita?
— Ãh? — olhei para baixo e vi um senhor bem idoso me abrindo um largo sorriso. De
cima pude examinar sua calvície salpicada de sardas, sua pele sem viço.
— Tudo bem, senhorita?
— Ah! Claro! Está tudo ok. Eu estava procurando a comissária de bordo para pedir um
copo d’água. — menti descaradamente. — Mas ela deve estar ocupada.
— Ou tirando uma soneca — zombou o velhinho sorrindo.
— Ou isto — sorri também.
Neste momento, o sinal de apertar o cinto de segurança foi acionado em virtude de
iminente turbulência.
— Bem, vou para o meu lugar. Tchau.
— Até logo, senhorita.
Ao empurrar novamente as pernas de Stela para chegar ao meu assento, ela acordou
sobressaltada:
— O que foi? Tudo bem, filha?
—Tudo — soltei um longo suspiro. — Só fui ao banheiro.
Stela olhou-me de forma carinhosa e passou os dedos pela minha farta e
momentaneamente embolada cabeleira.
— Você está tão bonita. Minha menina já é uma mulher… — deixou brotar um olhar feliz
por detrás de sua face fatigada de um sofrimento desconhecido. Pelo menos para mim. Mas
desisti de perguntar. Hoje aceitava resignada a mudez de minha mãe. Se ela não queria falar
do seu passado, é porque deveria existir uma boa razão.
— Agora é minha vez de ir ao toalete. Não vou demorar. Evite sair do seu lugar e falar
com estranhos, tá, filha?
— Mas, por quê? — E, antes que ela pudesse me ouvir, já havia se retirado do meu
campo de visão. — Que ótimo! — reclamei quase xingando.
De repente senti um aperto na garganta, minha língua árida e uma forte sede me
consumindo. E, como num passe de mágica, uma pessoa surgiu ao meu lado. De pé, na
penumbra, vi que me oferecia uma garrafinha de água.
— Olá, senhorita! — sussurrou o simpático senhor lá do fundo. Ele tinha um olhar
distante. — Lembrei-me de que tinha uma garrafa de água e a trouxe para ti. Ainda está com
sede?
— Ãh? — soltei espantada. — Puxa! Eu… eu não sei o que houve, mas já acionei várias
vezes o botão de chamada e nenhum comissário apareceu. Acho que deve ser por causa da
turbulência. Por sinal, o senhor não deveria ter se levantado. É perigoso!
— Então pode pegar, ela é sua — respondeu.
— Obrigada. — Peguei a garrafa de imediato, castigada por uma sede subitamente
crescente e agonizante.
Do instante que desenrosquei a tampa da garrafa até o percurso que ela fez para alcançar
a minha boca, fui atingida por rajadas de luzes e sombras. Um vulto? Uma pane? Um som
grave acompanhado de um soco fez a garrafa voar longe, espalhando a água pelo corredor e
derrubando o velhinho. O estrondo acordou as pessoas, assustando-as. As luzes tornaram a
acender. Petrificada, olhei para baixo e vi o pobre senhor caído no chão, contorcendo-se
violentamente. Eu estava aturdida demais com a cena em andamento. Então ouvi um grito e vi
Stela chegando com os olhos apavorados, seu rosto exangue, com a calça entreaberta, como se
ela não tivesse acabado de se vestir adequadamente após utilizar o toalete:
— Oh, não! Você está bem, filha? O que houve? Que líquido é este? Você bebeu? — Stela
gania, atropelando as palavras umas sobre as outras.
— O quê? A água? — A irritação fluía em minhas veias.
— Sim, Nina. A água!
— Não tive tempo. A turbulência… Qual o problema, mãe?! Por que você está assim? O
que está acontecendo? — berrei revoltada com sua atitude. Ela não me respondeu. A confusão
estava formada. Diversos comissários de bordo corriam de um lado para o outro tentando
achar algum médico entre os passageiros.
— Ele está tendo um ataque cardíaco! — gritou um dos tripulantes. Só vimos o pobre
senhor ser levado rapidamente para algum local reservado da aeronave. Eu fuzilava minha
mãe com um olhar de reprovação e horror. Será que foi mesmo a pane elétrica ou o berro
histérico de Stela que fez o pobre senhor ter o ataque cardíaco? Eu vi algum vulto ou foi
apenas uma queda de luz que me deu esta impressão? E se aquele senhor falecesse? O pobre
coitado havia batido as botas porque veio me ajudar? Por fim, os comissários pararam de
passar por nós e um silêncio ensurdecedor tomou conta de todos os passageiros, em especial
de mim e de Stela. O que teria acontecido com o pobre senhor? O sentimento de culpa me
invadia.
— Eu o matei! — murmurava entristecida.
— Não fale bobagem! — disse ela.
— Se ele não tivesse levantado para me ajudar…
— Nina, cale-se! Pare de chamar atenção, senão…
— Senão o quê? Você vai ter que me dar uma explicação para isso tudo!
— Eu vou dar na hora certa.
Mas ela nunca chegou a dar.