Capítulo 3

1195 Words
— Ande, Nina! Você está engarrafando toda a fila. — Tá bom! Quando comecei a empurrar tudo de qualquer jeito para dentro do apertado bagageiro, senti novamente o calafrio passar por mim. Experimentei uma fraqueza momentânea e afundei- me no meu assento. Stela tinha a fisionomia assustada. — Que foi agora, mãe? — Nada — respondeu ela com uma cara sinistra. Olhava para todos os lados. Parecia examinar cada assento da aeronave, um por um. Sentou-se reta, completamente enrijecida. Após o jantar, tomei o meu Dramin e cochilei, exausta pela nossa saída fugitiva para os Estados Unidos. Quando acordei, as luzes da aeronave estavam apagadas e já devia ser de madrugada, pois praticamente todos os passageiros estavam dormindo, inclusive Stela. Joguei suas pernas frouxas para o lado e, aproveitando a calmaria, dirigi-me ao toalete. Quando estava retornando para o meu assento senti novamente aquele frio intenso passar pela espinha e subir pelas costas. Tremi. Como por reflexo, virei-me rapidamente. Nada! Não havia nada nem ninguém atrás de mim. Tive a estranha sensação, entretanto, de que estava sendo observada. Olhei ao redor e tudo parecia perfeitamente normal: a maioria dos homens roncando, crianças dormindo e babando nos colos de suas exauridas mães, além de alguns adolescentes assistindo a todos os filmes disponíveis durante a madrugada. — Tolice! — disse a mim mesma. E retornei ao meu lugar. Subitamente, senti aquela sensação estranha acompanhada de um som diferente, e, quando olhei para trás, tudo estava igual, com exceção de ter visto um vulto n***o entrar no sanitário. Fiquei confusa. Resolvi que ficaria ali no corredor aguardando até aquela pessoa sair do toalete. Poderia ser bobagem minha, mas tinha que tirar a dúvida. O tempo se passou e ninguém saía do maldito lavatório. Já estava ficando cansada com a espera. — Esta pessoa deve estar passando muito m*l — caçoei da situação para mim mesma. Naquele momento, uma senhora bem gorda se levantou e dirigiu-se para o sanitário ocupado. Ótimo! Agora a pessoa que está lá dentro terá que sair. Foi quando não acreditei no que meus olhos presenciaram: não havia ninguém naquele lavatório! A senhora entrou e saiu calmamente. Não é possível! Enfureci-me comigo mesma. Este Dramin é forte mesmo. — Você está procurando alguma coisa, senhorita? — Ãh? — olhei para baixo e vi um senhor bem idoso me abrindo um largo sorriso. De cima pude examinar sua calvície salpicada de sardas, sua pele sem viço. — Tudo bem, senhorita? — Ah! Claro! Está tudo ok. Eu estava procurando a comissária de bordo para pedir um copo d’água. — menti descaradamente. — Mas ela deve estar ocupada. — Ou tirando uma soneca — zombou o velhinho sorrindo. — Ou isto — sorri também. Neste momento, o sinal de apertar o cinto de segurança foi acionado em virtude de iminente turbulência. — Bem, vou para o meu lugar. Tchau. — Até logo, senhorita. Ao empurrar novamente as pernas de Stela para chegar ao meu assento, ela acordou sobressaltada: — O que foi? Tudo bem, filha? —Tudo — soltei um longo suspiro. — Só fui ao banheiro. Stela olhou-me de forma carinhosa e passou os dedos pela minha farta e momentaneamente embolada cabeleira. — Você está tão bonita. Minha menina já é uma mulher… — deixou brotar um olhar feliz por detrás de sua face fatigada de um sofrimento desconhecido. Pelo menos para mim. Mas desisti de perguntar. Hoje aceitava resignada a mudez de minha mãe. Se ela não queria falar do seu passado, é porque deveria existir uma boa razão. — Agora é minha vez de ir ao toalete. Não vou demorar. Evite sair do seu lugar e falar com estranhos, tá, filha? — Mas, por quê? — E, antes que ela pudesse me ouvir, já havia se retirado do meu campo de visão. — Que ótimo! — reclamei quase xingando. De repente senti um aperto na garganta, minha língua árida e uma forte sede me consumindo. E, como num passe de mágica, uma pessoa surgiu ao meu lado. De pé, na penumbra, vi que me oferecia uma garrafinha de água. — Olá, senhorita! — sussurrou o simpático senhor lá do fundo. Ele tinha um olhar distante. — Lembrei-me de que tinha uma garrafa de água e a trouxe para ti. Ainda está com sede? — Ãh? — soltei espantada. — Puxa! Eu… eu não sei o que houve, mas já acionei várias vezes o botão de chamada e nenhum comissário apareceu. Acho que deve ser por causa da turbulência. Por sinal, o senhor não deveria ter se levantado. É perigoso! — Então pode pegar, ela é sua — respondeu. — Obrigada. — Peguei a garrafa de imediato, castigada por uma sede subitamente crescente e agonizante. Do instante que desenrosquei a tampa da garrafa até o percurso que ela fez para alcançar a minha boca, fui atingida por rajadas de luzes e sombras. Um vulto? Uma pane? Um som grave acompanhado de um soco fez a garrafa voar longe, espalhando a água pelo corredor e derrubando o velhinho. O estrondo acordou as pessoas, assustando-as. As luzes tornaram a acender. Petrificada, olhei para baixo e vi o pobre senhor caído no chão, contorcendo-se violentamente. Eu estava aturdida demais com a cena em andamento. Então ouvi um grito e vi Stela chegando com os olhos apavorados, seu rosto exangue, com a calça entreaberta, como se ela não tivesse acabado de se vestir adequadamente após utilizar o toalete: — Oh, não! Você está bem, filha? O que houve? Que líquido é este? Você bebeu? — Stela gania, atropelando as palavras umas sobre as outras. — O quê? A água? — A irritação fluía em minhas veias. — Sim, Nina. A água! — Não tive tempo. A turbulência… Qual o problema, mãe?! Por que você está assim? O que está acontecendo? — berrei revoltada com sua atitude. Ela não me respondeu. A confusão estava formada. Diversos comissários de bordo corriam de um lado para o outro tentando achar algum médico entre os passageiros. — Ele está tendo um ataque cardíaco! — gritou um dos tripulantes. Só vimos o pobre senhor ser levado rapidamente para algum local reservado da aeronave. Eu fuzilava minha mãe com um olhar de reprovação e horror. Será que foi mesmo a pane elétrica ou o berro histérico de Stela que fez o pobre senhor ter o ataque cardíaco? Eu vi algum vulto ou foi apenas uma queda de luz que me deu esta impressão? E se aquele senhor falecesse? O pobre coitado havia batido as botas porque veio me ajudar? Por fim, os comissários pararam de passar por nós e um silêncio ensurdecedor tomou conta de todos os passageiros, em especial de mim e de Stela. O que teria acontecido com o pobre senhor? O sentimento de culpa me invadia. — Eu o matei! — murmurava entristecida. — Não fale bobagem! — disse ela. — Se ele não tivesse levantado para me ajudar… — Nina, cale-se! Pare de chamar atenção, senão… — Senão o quê? Você vai ter que me dar uma explicação para isso tudo! — Eu vou dar na hora certa. Mas ela nunca chegou a dar.
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