Capítulo 11

1107 Words
— É mesmo? — o Sr. Clooney parecia finalmente animado com a dinâmica que a aula estava tomando. — Qual seria então? — desafiou-o. A alfinetada deu certo. O garoto se empertigou e o respondeu de cara. — O objetivo era fortalecer o poder dos reis e dos países através da acumulação interna de ouro e prata. A resposta da colega é superficial e evasiva — continuou com ar de descaso —, como se quisesse enrolar. Comércio por comércio sempre existiu entre os países, desde que o mundo é mundo. O mercantilismo europeu fundamentou-se no metalismo e na balança comercial favorável, pois com os metais podia-se investir em exércitos e em outras coisas mais como, por exemplo, no próprio comércio. Desta forma tentava-se não só exportar a maior quantidade de produtos possível, mas também reduzir as importações. — Perfeito! — disse satisfeito o Sr. Clooney. — Notei que você também é novo… Qual o seu nome? — Richard Trent. — Parabéns, Richard. O garoto deixou transparecer uma expressão de triunfo através de um sorrisinho sarcástico. i****a! De fato, a resposta dele era compacta e perfeita. E eu sabia que eu estava enrolando, só não queria dar o braço a torcer. Mas me dei muito m*l. Meu adversário era inteligente e mais preparado do que eu. Só não podia esperar o m******e que viria a seguir. — Obrigado. Aliás, posso fazer um comentário, professor? — indagou ele com a postura marrenta e encarando-me sem parar. — Claro. — Acho que os alunos deviam vir mais preparados e, na falta de conhecimento do assunto, que se mantenham quietos, para não prejudicar o andamento da aula. Cretino de uma figa! Além de petulante ainda estava me passando um sermão em público! O professor apenas assentiu com a cabeça e me lançou um olhar de desprezo. Comecei a suar, invadida por um misto de cólera e vergonha. — A Srta. tem mais alguma consideração a fazer? — minha língua travou e só balancei a cabeça, completamente sem graça. Então o Sr. Clooney me jogou a toalha. Fim do round! Eu havia sido nocauteada. Tive que ficar com as chacotas e o desprezo de uma turma que m*l me conhecia. E aquele garoto demonstrava um convencimento que fazia todo o meu sangue entrar em ebulição. E entrou. Explodi quando, faltando poucos minutos para a aula terminar, o cretino pediu para ir ao banheiro e ao passar por mim fez questão de esbarrar em minha carteira e derrubar todas as folhas do meu fichário. — Qual é o seu problema, hein? — esbravejei inflamada, catando as folhas no chão. Calma, Nina. Inspire, expire, inspire… — Não tenho culpa se você é descuidada com as suas coisas. Como alguém conseguia ser tão cínico e antipático assim? — Sabe o que você é? — rugi, meu rosto crispado numa expressão de fúria. — Ãh? — O Sr. Clooney me encarou boquiaberto. — Srta. Scott, sua conduta… O ódio fez-me esquecer de todos ao redor, inclusive do professor. — Você é um ladrão! Um i****a metido a superior! Um cretino! — gritava sem parar. — Vê se fica mais ligada, Tesouro. — Ora, seu… — QUIETOS! — bradou o Sr. Clooney. De costas para o professor, o marginal metido a superior agachou-se e fez de conta que iria me ajudar a recolher as folhas espalhadas pelo chão quando, propositalmente, pisou em duas delas e ainda fez um presunçoso sinal com o polegar e o indicador para que eu fechasse a minha boca. Foi a gota d’água! Voei em cima dele. Esbofeteei-o e ele segurou os meus braços com selvageria. Meu corpo tremia, tomado por uma repulsa sem precedentes. — CHEGA! — ordenou nervoso o Sr. Clooney. — Menos dois pontos no próximo teste e os dois para o SOC AGORA! SOC era o serviço de orientação comportamental do colégio. — O que aconteceu, Nina? — tentava interceder a Dra. Charlaine. — Acho melhor algum dos dois começar a falar. E logo — ameaçou após quinze minutos de entrevista em que permanecemos mudos e nos encarando sem parar. — Este garoto tirou o dia para tirar onda com a minha cara — rugi. — Está me perseguindo desde cedo. — Perseguindo?! — ele gargalhava de maneira irônica. — O que houve? — indagou sem paciência a Dra. Charlaine. E, vendo que seria inútil qualquer tipo de abordagem, sentenciou: — Pois bem. Vocês pediram. Uma semana de suspensão! — Ãh? Mas, Dra. Charlaine, eu… — comecei a implorar, enquanto aquele garoto idiota esboçava um olhar de satisfação pelo meu desespero. — Pensem antes de agir da próxima vez — respondeu de forma austera. — Pode ir, Nina. — Mas, e ele? — argumentei exasperada. — Vá, Nina. Liberarei Richard depois — finalizou ela. — d***a de vida! — rugi e, antes mesmo que eu me levantasse, ele já havia se inclinado na minha direção, bloqueando a minha passagem. As mãos agora à mostra, apoiando-se nos braços da cadeira. Vacilei. As cicatrizes arderam em meus olhos. Ele percebeu. Sua expressão debochada foi assustadoramente substituída por uma fisionomia ameaçadora, quase feroz. — Pois aproveite-a bem enquanto ainda pode, garota. Ele não estava brincando. — Ande logo, Nina! Deixe-a passar, Richard! — ordenou nervosa a Dra. Charlaine. Saí da sala perplexa com o estrago que aquele dia tinha causado em meu imaculado histórico escolar. m*l conseguia compreender minhas reações, quanto mais o que acabara de acontecer. — Sério?! — Para minha grata e inesperada surpresa, Stela ria sem parar quando lhe contei sobre minha semana de suspensão. — Finalmente! — Finalmente?! — Ora, Nina! Já era hora de fazer alguma estripulia em sua vida, não? Você sempre se cobrou demais, filha! Sempre foi certinha demais. — Mas… — Tudo bem que não quero ver você por aí partindo para briga com um colega do colégio, mas até que a suspensão foi por um motivo bem engraçado — e continuava a gargalhar. — Eu bem que queria ter visto! — e, acrescentou, dando uma piscada maliciosa: — Você chegou a acertar algum de seus golpes? — Ah, mãe! — E bati a porta do meu quarto, deixando-a rindo de se contorcer na sala de jantar. Para falar a verdade, eu estava aliviada com a sua reação e extremamente chateada comigo mesma por ter tido uma atitude tão infantil como aquela. Quanto mais pensava naquele garoto, mais bile produzia em meu fígado. Precisava destilar aquele veneno. Cheguei a pensar que uma semana colocando meus estudos em dia e sem botar os olhos naquele bad boy de uma figa viria bem a calhar. Pensei errado.
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