— É mesmo? — o Sr. Clooney parecia finalmente animado com a dinâmica que a aula
estava tomando. — Qual seria então? — desafiou-o. A alfinetada deu certo. O garoto se
empertigou e o respondeu de cara.
— O objetivo era fortalecer o poder dos reis e dos países através da acumulação interna
de ouro e prata. A resposta da colega é superficial e evasiva — continuou com ar de descaso
—, como se quisesse enrolar. Comércio por comércio sempre existiu entre os países, desde
que o mundo é mundo. O mercantilismo europeu fundamentou-se no metalismo e na balança
comercial favorável, pois com os metais podia-se investir em exércitos e em outras coisas
mais como, por exemplo, no próprio comércio. Desta forma tentava-se não só exportar a
maior quantidade de produtos possível, mas também reduzir as importações.
— Perfeito! — disse satisfeito o Sr. Clooney. — Notei que você também é novo… Qual
o seu nome?
— Richard Trent.
— Parabéns, Richard.
O garoto deixou transparecer uma expressão de triunfo através de um sorrisinho
sarcástico. i****a! De fato, a resposta dele era compacta e perfeita. E eu sabia que eu estava
enrolando, só não queria dar o braço a torcer. Mas me dei muito m*l. Meu adversário era
inteligente e mais preparado do que eu. Só não podia esperar o m******e que viria a seguir.
— Obrigado. Aliás, posso fazer um comentário, professor? — indagou ele com a postura
marrenta e encarando-me sem parar.
— Claro.
— Acho que os alunos deviam vir mais preparados e, na falta de conhecimento do
assunto, que se mantenham quietos, para não prejudicar o andamento da aula.
Cretino de uma figa! Além de petulante ainda estava me passando um sermão em
público!
O professor apenas assentiu com a cabeça e me lançou um olhar de desprezo. Comecei a
suar, invadida por um misto de cólera e vergonha.
— A Srta. tem mais alguma consideração a fazer? — minha língua travou e só balancei a
cabeça, completamente sem graça.
Então o Sr. Clooney me jogou a toalha. Fim do round! Eu havia sido nocauteada. Tive
que ficar com as chacotas e o desprezo de uma turma que m*l me conhecia. E aquele garoto
demonstrava um convencimento que fazia todo o meu sangue entrar em ebulição. E entrou.
Explodi quando, faltando poucos minutos para a aula terminar, o cretino pediu para ir ao
banheiro e ao passar por mim fez questão de esbarrar em minha carteira e derrubar todas as folhas do meu fichário.
— Qual é o seu problema, hein? — esbravejei inflamada, catando as folhas no chão.
Calma, Nina. Inspire, expire, inspire…
— Não tenho culpa se você é descuidada com as suas coisas.
Como alguém conseguia ser tão cínico e antipático assim?
— Sabe o que você é? — rugi, meu rosto crispado numa expressão de fúria.
— Ãh? — O Sr. Clooney me encarou boquiaberto. — Srta. Scott, sua conduta…
O ódio fez-me esquecer de todos ao redor, inclusive do professor.
— Você é um ladrão! Um i****a metido a superior! Um cretino! — gritava sem parar.
— Vê se fica mais ligada, Tesouro.
— Ora, seu…
— QUIETOS! — bradou o Sr. Clooney.
De costas para o professor, o marginal metido a superior agachou-se e fez de conta que
iria me ajudar a recolher as folhas espalhadas pelo chão quando, propositalmente, pisou em
duas delas e ainda fez um presunçoso sinal com o polegar e o indicador para que eu fechasse a
minha boca. Foi a gota d’água! Voei em cima dele. Esbofeteei-o e ele segurou os meus braços
com selvageria. Meu corpo tremia, tomado por uma repulsa sem precedentes.
— CHEGA! — ordenou nervoso o Sr. Clooney. — Menos dois pontos no próximo teste e
os dois para o SOC AGORA!
SOC era o serviço de orientação comportamental do colégio.
— O que aconteceu, Nina? — tentava interceder a Dra. Charlaine. — Acho melhor algum
dos dois começar a falar. E logo — ameaçou após quinze minutos de entrevista em que
permanecemos mudos e nos encarando sem parar.
— Este garoto tirou o dia para tirar onda com a minha cara — rugi. — Está me
perseguindo desde cedo.
— Perseguindo?! — ele gargalhava de maneira irônica.
— O que houve? — indagou sem paciência a Dra. Charlaine. E, vendo que seria inútil
qualquer tipo de abordagem, sentenciou: — Pois bem. Vocês pediram. Uma semana de
suspensão!
— Ãh? Mas, Dra. Charlaine, eu… — comecei a implorar, enquanto aquele garoto idiota
esboçava um olhar de satisfação pelo meu desespero.
— Pensem antes de agir da próxima vez — respondeu de forma austera. — Pode ir, Nina.
— Mas, e ele? — argumentei exasperada.
— Vá, Nina. Liberarei Richard depois — finalizou ela.
— d***a de vida! — rugi e, antes mesmo que eu me levantasse, ele já havia se inclinado
na minha direção, bloqueando a minha passagem. As mãos agora à mostra, apoiando-se nos
braços da cadeira. Vacilei. As cicatrizes arderam em meus olhos. Ele percebeu. Sua expressão
debochada foi assustadoramente substituída por uma fisionomia ameaçadora, quase feroz.
— Pois aproveite-a bem enquanto ainda pode, garota.
Ele não estava brincando.
— Ande logo, Nina! Deixe-a passar, Richard! — ordenou nervosa a Dra. Charlaine.
Saí da sala perplexa com o estrago que aquele dia tinha causado em meu imaculado
histórico escolar. m*l conseguia compreender minhas reações, quanto mais o que acabara de
acontecer.
— Sério?! — Para minha grata e inesperada surpresa, Stela ria sem parar quando lhe
contei sobre minha semana de suspensão. — Finalmente!
— Finalmente?!
— Ora, Nina! Já era hora de fazer alguma estripulia em sua vida, não? Você sempre se
cobrou demais, filha! Sempre foi certinha demais.
— Mas…
— Tudo bem que não quero ver você por aí partindo para briga com um colega do
colégio, mas até que a suspensão foi por um motivo bem engraçado — e continuava a
gargalhar. — Eu bem que queria ter visto! — e, acrescentou, dando uma piscada maliciosa: —
Você chegou a acertar algum de seus golpes?
— Ah, mãe! — E bati a porta do meu quarto, deixando-a rindo de se contorcer na sala de
jantar. Para falar a verdade, eu estava aliviada com a sua reação e extremamente chateada
comigo mesma por ter tido uma atitude tão infantil como aquela. Quanto mais pensava naquele
garoto, mais bile produzia em meu fígado. Precisava destilar aquele veneno. Cheguei a pensar que uma semana colocando meus estudos em dia e sem botar os olhos naquele bad boy de uma
figa viria bem a calhar.
Pensei errado.