— Pois é, mas estou de moto.
— Então nós faremos um embrulho bem compactado e o prenderemos ao banco do
carona. Vai nos tomar só mais alguns minutinhos, se o senhor não se importar em esperar…
— Tudo bem. Eu aguardo.
“Minutinhos”? O tempo gasto naquela maldita venda duplicou. Ou pior, triplicou. Beth se
enrolou mais do que o previsto nos lançamentos, quer por falta de prática, quer por estar em
êxtase diante da consumação dos astronômicos lucros. Para meu desespero, o tom de sua voz
dizia tudo:
— Nina?! O Sr. Trent precisa levar a sua mercadoria ainda hoje e…
Eu tinha ouvido toda a conversa com a esperança de que Bob já tivesse retornado não sei
de onde. Não poderia ir sozinha com Richard até lá fora. Se o que Kevin presenciara era
verdade, eu estaria correndo um risco absurdo. Como explicar toda aquela teoria a Beth?
Além de achar que agia de má vontade, me taxaria como louca, no mínimo. Comecei a tremer,
deixando à mostra meu estado de nervos. Era óbvio que ele havia armado tudo aquilo! O que
queria comigo afinal de contas? Podia sentir seus olhos selvagens me observando com
atenção. Teria de disfarçar meu medo.
— Tudo bem, Beth. Eu o ajudo.
Beth expressou sua satisfação com um balançar de cabeça.
— Está dispensada. De lá, pode ir. Eu ainda tenho muitas coisas para lançar. Até amanhã!
— Até, Beth — disse, e inventei um álibi para que ela desse por minha falta: — Ainda
retornarei para guardar umas caixas de DVDs.
— Ok — respondeu-me no modo automático.
Apostaria meus dois dentes frontais que ela não havia prestado a mínima atenção.
Fomos andando lado a lado e em silêncio até o estacionamento. Pelo horário,
completamente deserto. Durante todo o tempo mantive-me alerta a qualquer movimento
suspeito da parte dele. Ele caminhava em direção à moto esportiva mais imponente que eu
vira em toda a minha vida, talvez uma Kawasaki Ninja top de linha. Era n***a e exibia um
enorme raio dourado estampado no lado direito da carenagem. Enquanto eu me esforçava em
transportar o desajeitado pacote, ele carregava seus dois embrulhos com a maior facilidade,
confessando a ridícula encenação. Um discreto ruído. Foi o suficiente para fazê-lo reduzir o
ritmo de suas passadas. Com uma expressão sinistra, começou a olhar em todas as direções.
Aterrorizada, senti uma descarga de adrenalina. Outro barulho, e Richard já estava plantado
atrás de mim. Trêmulas, minhas pernas não sabiam que direção tomar.
— Ah! — gritei quando senti uma fisgada gelada me atingir por trás. O calafrio passeou
novamente por mim. Olhei por cima do ombro e Richard me indicava a direção que devia
seguir da pior forma possível: camuflado por detrás da jaqueta de couro, ele pressionava um
objeto pontiagudo contra as minhas costas. Uma pistola?
— Nem pense em parar, garota. Continue andando — ordenou entredentes e, em estado
de choque, obedeci. O horror de ter aquele objeto pressionado contra o meu corpo parecia
drenar minhas energias. Comecei a ficar fraca. Eu sabia que precisava berrar enquanto ainda
tinha forças, mas minha garganta queimava, fechando-se com velocidade assustadora. —Deixe tudo aí — sussurrou em meu ouvido. Aflita, livrei-me da pesada carga colocando-a sobre o banco da moto. Novos ruídos. Um trepidar. A respiração dele me atingindo.
Atordoada, vasculhei tudo ao meu redor. Nem uma alma viva que pudesse me socorrer.
Absolutamente ninguém. O que fazer agora? Outros sons. Gotas d’água minando de uma
rachadura do teto e mergulhando numa poça de óleo logo adiante, como um cronômetro
denunciador do tempo que se esvaía.
— Não! — meu grito saiu afônico, quase um assovio rouco quando, subitamente, Richard
me segurou pela cintura, imobilizando-me.
— Fique quieta!
— Solte-me!
— Sua…
— Tudo bem aí? — uma voz conhecida resgatava-me daquele pesadelo. Era Bob. —
Nina?! Você está bem?
Após balbuciar qualquer coisa, Richard liberou-me de suas garras.
— Olá! Então você é o Bob? Acabei de fazer esta compra em sua loja — começou ele
com a cara mais cínica deste mundo.
— Reconheci o embrulho — soltou Bob, encarando-o desconfiado. Eu continuava em
choque, imóvel. Richard foi rápido:
— Nina veio me ajudar a trazer a mercadoria até a moto, já que você havia saído.
— Sei. Por que então ela está com esta cara de quem viu um fantasma?
— Porque acho que ela não estava passando bem. Parece que estava se sentindo meio
estranha quando, sem querer, esbarrei nela. Então eu a segurei com força bem na hora em que
ela ia desmaiar sobre estas ratazanas aqui no chão. — E apontou para os meus pés.
Bob e eu olhamos para o local indicado ao mesmo tempo. Quatro enormes ratazanas
semiputrefeitas jaziam a milímetros de meu pé esquerdo.
— Ai! — Dei um pulo para trás enquanto Bob gargalhava.
— Mulheres! — zombou Bob, e os dois riram entre si. — Pode ir, Nina! Eu ajudo o
moço. Estas caixas estão bem desajeitadas mesmo.
Eu estava atônita com a situação.
— Nina? — chamou Bob. — Procure logo um médico, menina. Você não está nada bem.
Assenti com a cabeça, atordoada, e saí dali o mais rápido possível.
Somente do lado de fora da Strike me lembrei de respirar. O que havia acabado de
acontecer afinal de contas? Tinha sido tudo imaginação minha ou uma grande farsa? Estaria ficando paranoica por causa das frequentes tonturas e calafrios? Meu peito ardia. Um indefinido misto de fúria por ter perdido meu tão esperado encontro com Kevin, medo por estar desenvolvendo algum tipo de doença mental e alívio por ter escapado daquele garoto amedrontador distraiu-me de tal forma que custei a perceber a queda vertiginosa no número de
pedestres pelas redondezas. Poucos carros cruzavam a avenida escancarada em frente ao grande shopping center adormecido. Constatei imediatamente o porquê. Já passava das onze da noite, e um vendaval arrepiante anunciava uma tempestade a caminho. Saquei minha
sombrinha para me proteger da chuva grossa que começava a me atingir.
— Ah, não! Ai!
A ventania era tanta que a sombrinha se entortou de uma forma estranha, partindo-se em duas partes. Uma delas voou em minha direção e a ponta afiada do cabo de alumínio atingiu
meu ombro direito, furando meu casaco novinho em folha. Enquanto eu checava os danos, ouvi
um ruído fino, mas, ao fazer a varredura do local, não encontrei ninguém por perto.
Desconfortável com o ermo ambiente, joguei o capuz da parca sobre a cabeça e acelerei. Meu
coração veio à boca quando, ao virar a esquina, percebi passos cadenciados logo atrás dos
meus. Estava sendo seguida! Sem coragem de olhar para trás, apertei o ritmo a ponto de
começar uma corrida. Minhas pernas bambearam ao ouvir o meu nome ecoar pela calçada
deserta.
— Nina?
Meu corpo congelou. Sem comando. A voz tornou a me chamar e eu a reconheci.
— Phill?!
— Oi! Caramba! Já estava ficando preocupado com você!
— Ãh?
— Depois eu explico. Agora vou te dar uma carona antes que um dilúvio desabe sobre
nós — respondeu acelerado.
— Ok! — Um sorriso se estampou em minha face. Phillip era o meu anjo da guarda
naquela noite macabra.
— Ainda bem que meu pai me emprestou o carro — arfou ele enquanto entrávamos no
seu antigo Chevrolet Malibu e saíamos dali. — Você sempre faz hora extra assim?
— Não, Phill. Hoje foi uma loucura. Aliás, como me achou aqui?
— Melly me disse que você estava trabalhando na Strike e então eu resolvi te fazer uma
surpresa — suspirou. — Só não imaginei que seria tão difícil! — E me olhava pelo canto do
olho.
— Puxa, Phill! Você estava me esperando desde nove horas?
Ele sacudiu a cabeça, confirmando.
— Acho que um aluno novo da nossa turma também estava esperando alguém… —
levantou a sobrancelha direita, indagando-me com o olhar. — O garoto louro bonitão, sabe
qual é?
— O Kevin? — meus pulmões se estufaram de felicidade. Disfarcei.
Pensei em fazer algumas perguntas, mas me contive. Bem a tempo. Ele se adiantou:
— Foi embora agora há pouco… e sozinho. — Havia um certo veneno de satisfação
escorrendo pelo canto de sua boca.
— Ele também estava esperando desde cedo?
— Não sei. O lourão estava estacionado do outro lado da avenida e eu só o vi instantes
antes de ele ir embora.
— Ele não deve ter te visto.
— Pode ser — matutou. — Mas o que é isto? Tá maluco?! — Phill abriu a janela e
desatou a xingar um motoqueiro que acabava de nos dar uma fechada e tanto. Mudou de ideia
ao ser atingido por uma rajada violenta de vento e chuva. A tempestade tomara proporções
assustadoras. Relâmpagos rasgavam o céu n***o, trovões açoitavam nossos ouvidos. — Onde
estão os guardas para multar um i*****l como este?
— Em casa e bem quentinhos — brinquei. — É a chuva, Phill! A visibilidade está
péssima.
Phill deu uma risada e soltou uma piadinha jocosa:
— O problema é o horário! Deve estar com pressa porque, quanto maior a demora em
chegar em casa, maior a surra que vai levar da mulher.
Nós rimos. A tensão do ar se dissolveu e, para minha infelicidade, foi o suficiente para
animá-lo a me bombardear com suas infrutíferas cantadas.
— Sei que você mora no East Village, só não sei o endereço exato. Sabe como é?
Preciso…
— CUIDADO! — gritei ao ver um carro crescendo na sua lateral assim que entramos em
uma rua transversal. Por sorte os reflexos de Phill estavam em ordem e, ao invés de frear, ele
acelerou e nos fez escapar de um grave acidente.
— Você viu? Os faróis dele estavam apagados! — Phill xingava alto e ameaçou parar o
carro para tirar satisfação com o condutor do outro veículo. A chuva torrencial dificultava
tudo. Não conseguíamos enxergar praticamente nada à nossa frente.
— Não, Phill! Por favor! Pode ter sido sem querer! Esta chuva está muito forte!
— Está na cara que foi de propósito! — bufou ele.
— Tudo bem! E se foi mesmo de propósito? — retruquei nervosa. — E se forem vários?
O que você vai fazer? Brigar com todos? — Phill ficou assustado com a minha postura
agressiva. Respirei fundo e tratei de contemporizar: — Desculpe, Phill, mas não dá para
enxergar nada! Se foi mesmo de propósito, é porque quem está por detrás daquele volante é
doido ou está procurando algum tipo de confusão, não vê? Por que você acha que o carro estaria com os faróis apagados numa tempestade como essa?
Phill meneou a cabeça, mas dirigia tenso. Eu o convenci a reduzir a marcha em um sinal,
mesmo estando aberto para nós.
— Só por precaução — adverti.
— Isto é um absurdo! — ele reclamava sem parar quando comecei a sentir o calafrio se
espalhando pelo meu corpo. Mau agouro.
— Acelera, Phill — ordenei.
— Mas você não pediu para eu reduzir?
Uma sensação obstrutiva invadia minhas células.
— Acelera! — gritei, e antes que ele me desse qualquer tipo de resposta, empurrei com
força a perna que se apoiava no acelerador.
— O quê?! Nossa!