— Ah! Este é Sebastian, um amigo meu. Sebastian, esta é Nina. — Apresentou-nos com
seu jeito educado de sempre.
— Oi, Nina! Já estava de saída. Então até lá, Kev!
— Até.
O garoto deu um tapinha nas costas do amigo e fez um breve aceno de cabeça para mim.
Eu retribuí e tornei a olhar para Kevin, que, como sempre, estampava um enorme sorriso em
seus lábios.
— Finalmente! — ele soltou feliz.
— Não quer dar uma carona ao seu amigo? — perguntei, tentando esconder meu estado
de ansiedade por estar a sós com ele.
— Claro que não. — Ele fez uma cara marota e acrescentou. — Ele vai se encontrar com
a namorada agora.
— Ah!
— Não nos víamos há um bom tempo — explicou-se. — Nós temos parentes em comum
na Europa.
— São da mesma família?
— Mais ou menos. Venha, pode entrar.
Kevin circulou por diversas ruas dirigindo com muita desenvoltura, estacionou o carro
próximo ao meu prédio, e, de repente, os assuntos se esgotaram. Estávamos os dois ali,
completamente mudos. Talvez ele estivesse tão nervoso quanto eu. Tentei engatar uma ou outra
conversa, mas nada parecia fluir. Por fim, comecei a falar da minha falta de sorte e o quão
grata eu era a ele por ter me salvado daquele quase atropelamento. Era o assunto pelo qual ele
esperava com ansiedade.
— Você fica tonta com muita frequência? — perguntou.
— Já tive algumas tonteiras na minha vida, mas nada como agora. — Abaixei a cabeça
sem graça, mas, pelo canto dos olhos, dava para ver que ele me observava com atenção. —
Acho que é pressão baixa.
Gentil, ele passou as costas de sua mão pela minha bochecha. Eu tremi antes mesmo de
ficar ruborizada.
— Sabe, Nina, estou um pouco preocupado com você — disse num tom baixo.
— Por causa destas tonturas? Não precisa, eu…
— Também por isto, mas porque eu vi uma coisa que me deixou grilado, sei lá! — sua
voz saiu mais baixa ainda, agora era ele quem estava sem graça.
— O que você viu? — indaguei.
— Sabe aquele tal do Richard?
— Aquele garoto m*l-encarado? — Ele assentiu com a cabeça. — O que tem ele?
Ele respirou profundamente e soltou:
— Nada… É que…
Meu coração dava cambalhotas de alegria, ele teria… ciúmes de mim?
— Não gostei dele desde a primeira vez que o vi. Ele tem um olhar que me dá calafrios
— acrescentei.
— Calafrios? — Havia curiosidade no seu semblante.
— Por aí. Não me sinto nada bem perto dele.
— É. Isto acontece comigo também.
— Jura? — perguntei, incrédula com aquela confissão inesperada.
— Não gosto do jeito dele. — Suas bochechas vermelhas fizeram meu coração saltitar.
Sim! De fato ele tinha ciúmes de mim! — Não sei dizer ao certo. — E sua fisionomia ficou
rígida. — Como eu vou lhe contar isto…
— Por favor, fale!
— Bem, Nina. Eu acho que… não! Eu não tenho como provar, mas tudo me faz crer que o
Richard é algum tipo de psicopata.
Meu estômago se revirou.
— Como? — sibilei, perdendo o sangue em minhas veias.
— Eu não havia ligado os fatos — soltou pensativo. — Mas, finalmente compreendi.
Ontem à tarde, quando caminhava pela Lexington, eu o vi agredindo uma pobre senhora que
atravessou o seu caminho. De início fiquei assustado com a cena, mas aí tudo fez sentido!
Eu o acompanhava sem conseguir assimilar o que me dizia. Ele se adiantou em explicar:
— Eu acho que ele tentou te assassinar naquela grande avenida em frente à escola! —
concluiu. — Não sei não, mas também acredito que ele está de olho em mim…
— Mas como? — minha garganta estava se fechando. — Eu não o vi… — balbuciava
atônita.
Kevin respirou profundamente e soltou.
— Eu o vi naquele dia, mas não liguei os fatos.
— Você o viu?
— Sim! Você não disse que se sentia m*l perto dele, com calafrios? Então? Você não
sabe que existem pessoas que têm o poder de afetar mentalmente a psique de outras, fazendo-
as cometer atos estranhos e inexplicáveis, inclusive suicídios?
— Não é possível! — deixei escapar meu pânico.
— Sim, Nina. Eu já li sobre isto, e é perfeitamente possível. E eu acho que é o que vem
acontecendo com você. Foi o que eu presenciei ontem lá no seu trabalho.
— Ontem?!
— Sim. Por isto eu fiz questão de vê-la hoje. Eu não queria te assustar ainda mais, mas
você precisava saber! — Ele olhou pela janela, como se procurando as palavras corretas. —
Me desculpe por ter mentido hoje mais cedo. Eu realmente estive ontem lá na Strike.
— Ontem? Eu sabia!
— Este convite de hoje era para ter acontecido ontem. — Seu rosto agora empalidecido.
— Assim que cheguei ao seu departamento, fiquei muito assustado com o que vi.
Suas palavras me açoitavam.
— O que você viu, Kevin?
— Aquele marginal estava olhando para você de um modo muito assustador enquanto
balbuciava palavras indecifráveis. De repente, um inesperado tumulto se formou e você…
— Eu o quê?
— Você entrou numa espécie de hipnose ou coisa do tipo. Quando tentei socorrê-la, senti
que algo me impedia, me paralisava. Fiquei completamente sem ação, mas Richard percebeu
que eu o observava. Não sei se foi isto que o impediu de ir mais adiante, só sei que o coitado
do japonês não teve a nossa sorte.
Tudo que ele dizia tinha muito sentido, as peças começavam a se encaixar.
— Oh, não!
Surtei.
— Calma, não precisa se preocupar, eu… — Tremi quando ele segurou uma de minhas
mãos. Meu corpo respondia de modo involuntário a qualquer contato com o dele. — Não vai
acontecer nada com você. Ele já viu que estou de olho nele. Que estou com você.
— Comigo? — perguntei ainda sem juntar as ideias.
— Sim. Com você. — E abriu outro lindo sorriso que me fez enrubescer.
Agindo por conta própria, minha razão ralhava comigo. Advertia-me de que já era tarde,
que eu precisava entrar e que, se Stela resolvesse aparecer, eu estaria em maus lençóis.
Apesar da vontade de ficar ali com ele, resolvi não arriscar.
— Kevin, eu… eu preciso entrar.
— Eu sei. — Então, ele se inclinou, beijou minha bochecha e tornou a se afastar. Ah, não!
Só isso? — Boa noite. Durma bem e tente não esquentar a cabeça, ok?
— Ok. Tchau, então — disse decepcionada, desejando que ele deixasse sua timidez de
lado e se despedisse de mim de um jeito bem mais interessante que aquele.
Ele ficou parado, ainda sorrindo. Seu semblante denunciava que ele queria algo mais,
mas que estava sem coragem de ir adiante. Eu estava na mesma situação.
Ao abrir a porta do carro ele novamente me chamou:
— Nina?
— Sim?
Quando tornei a me virar, ele já estava bem próximo do meu corpo. Sem deixar de sorrir
para mim, aproximou seus lábios dos meus e os beijou rápida e delicadamente. Senti uma
breve tontura, mas fui sugada daquele inebriante momento por um ofuscante farol que acabara
de surgir na minha rua. Kevin se recompôs meio assustado.
— Acho melhor você entrar. — E, sem sucesso, tentou checar o retrovisor. Seus olhos
contraíram assim que deram de cara com a luz refletida dos inoportunos faróis. — Quer sair
amanhã?
— Quero.
— Te pego no mesmo horário.
— Ok — despedi-me quase sem enxergá-lo. Os indesejáveis faróis continuavam a
embaçar minha visão.
E embaçariam muito mais coisas…