Capítulo 15

1487 Words
O dia seguinte se arrastou. Kevin não apareceu no colégio e nem comentara nada que não iria na véspera. Os demais alunos novos também haviam faltado. Que estranho! Na minha ansiedade em reencontrá-lo, as horas pareciam passar em câmera lenta. Tudo ia devagar. Pensando bastante no que ele havia dito sobre Richard, achei tudo meio exagerado. Uma pitada teatral temperada de ciúmes, talvez. O que me deixava mais empolgada ainda com o nosso encontro de logo mais. O tumulto na Strike finalmente cessara e as coisas retornaram ao normal. Rose aproveitou a calmaria para sair mais cedo e resolver algumas pendências de ordem pessoal, deixando a gerência com Beth. Normalmente, ela deixava com Bob. Orgulhosa de si, Beth se esmerava em fazer tudo com extremo cuidado. Bob achava graça da situação e aproveitava para implicar com a coitada. Eu desfrutava de cada momento de sossego decorando uma série de frases de impacto que pudessem impressionar Kevin. Eu precisava ter mais desenvoltura que na noite anterior. Faltando poucos minutos para fechar a loja, ouvi Beth disparar uma série de “Sim, claro!”, “Fique à vontade!”, “Pode deixar!”, “Com certeza!”, que me deixaram intrigada. Virei-me para ver o que estava acontecendo. — Essa não! Logo agora! — pensei alto, furiosa, quando percebi uma baita compra prestes a começar, a poucos minutos da minha tão esperada saída. De costas, segurando uma comprida lista de compras, estava um rapaz alto, de ombros largos, cabelo bem preto, liso e farto. Trajava calça preta e jaqueta pretas. Segurava um capacete preto com o desenho de um raio dourado. Parecia ser bem interessante, porque não só os olhos de Beth estavam hipnotizados assim como seus lábios encontravam-se congelados em um sorriso tão amplo que expunha até seus sisos. Ela estaria assim porque ia realizar a melhor venda dos últimos meses ou porque o rapaz era muito gato? Pela quantidade de produtos que ele pretendia levar, aquela venda não seria nada rápida. Tinha que ser logo agora? Logo quando Kevin viria me buscar para um encontro de verdade? Devo ter nascido no dia do azar! — Nina! — berrou Beth. — Venha me ajudar, por favor! Eu fingi que não ouvi, empilhando alguns DVDs numa banqueta embaixo da prateleira principal. Se eu me fingisse de compenetrada, talvez ela chamasse Bob, que, apesar de mais distante, estava desocupado. Mas ela voltou a me chamar e agora com um tom bem mais enérgico do que da primeira vez. d***a! — Nina?! — Pois não? — tive que responder. — Ajude-me aqui, por favor. — Beth, eu estou um pouquinho ocupada. Não dá para chamar o Bob? — retruquei abaixada, sem olhar para ela. — Você por acaso está vendo o Bob por aqui? — sua resposta foi azeda. Levantei a cabeça com má vontade e, quando meus olhos fizeram a varredura, não encontraram nada ao nosso redor. Nem sinal de Bob. — Estou indo! Logo que me aproximei, o rapaz se virou e me recepcionou com um familiar sorriso irônico. Fiquei sem cor. Senti meus pés perderem o chão e minha visão esmorecer ao entrar em linha direta com um par de olhos deslumbrantes e atormentados, em um rosto igualmente perfeito e contraído. Ai. Meu. Deus. Não podia ser! Richard? Ah, não! Meu estômago se revirou. Sem os óculos escuros e sem aquela ridícula bandana na cabeça, ele era outra pessoa. Porém uma coisa permanecia igual: sua expressão de sarcasmo e superioridade. — Pois não? — respondi meio atordoada, meio enfurecida. — Nina, o Sr. Trent deseja fazer uma compra de CDs e DVDs de grande porte. Eu sugiro que você o ajude na seleção dos artistas enquanto inicio o cadastro de todos os que ele já adquiriu para que a gente consiga sair daqui antes das dez. O som grave da aldrava se fechando encheu o recinto e o meu peito de aflição. Ah, não! A loja já havia encerrado seu turno e eu estava ali, presa, e por causa dele. — Dez?! — indaguei irritada. Kevin passaria às nove. — Desculpe-me, senhor. Nina, venha cá! Disfarçadamente, Beth me puxou pelo braço, levou-me para uma área mais reservada da loja e se dirigiu a mim de forma educada, porém incisiva: — Este rapaz vai fazer uma das maiores compras que eu já vi neste setor. Eu pedirei a Rose para lhe dar hora extra ou parte da porcentagem desta venda, o que acho justo. Agora, se você fizer jogo duro para sair cedo no seu terceiro dia de trabalho, sinto lhe informar que é melhor não retornar amanhã. Fui clara? — Com certeza — sussurrei cabisbaixa. — Ok. Pode ir ajudá-lo. Assim que me virei, Beth emendou: — E, Nina? — Hum? — Afinal, não vai ser tão difícil assim, não é mesmo? — acrescentou com um sorrisinho maroto. — Fazia tempo que não via um garoto tão bonito! Bonito é pouco. Es-pe-ta-cu-lar! —e com outra risadinha virou-se para adiantar os lançamentos. — Bem, o que mais o senhor deseja? — retornei, fingindo eficiência. O ódio que sentia por aquele garoto me fazia perder a lucidez. — Por hoje, só isto — grunhiu e me entregou uma lista imensa de cantores e grupos de rock. — E rápido, garota! — Seus gestos desencontrados evidenciavam que ele estava ali contra a sua própria vontade. Como se estivesse sendo forçado a fazer algo que não queria. — Como? Quem este i****a pensa que é para mandar em mim? — Seja rápida, ok? — rosnou e me deu um sorriso tão verdadeiro quanto uma nota de três dólares. — Ora, seu grosso e… — tornei a encará-lo com furor e de novo me peguei divagando. Como ele conseguia ser tão… tão bonito… tão exuberante… e absurdamente insuportável?! — Tudo bem, Sr. Trent? — gritou Beth à distância para bajulá-lo, já sentindo o clima esquentando entre nós dois. — Perfeitamente. Estamos apenas discutindo algumas faixas de músicas! — E lhe enviou outro falso sorriso. Como mentia com naturalidade o dissimulado! A esta hora, Kevin devia estar cansado de me esperar, ou talvez tivesse ido embora, achando que lhe dei o maior bolo, enquanto este filhinho de papai fica aqui enchendo a minha paciência depois do horário. Por que não chegou mais cedo? Era isso! Ele queria me enervar, eu podia sentir seu cínico olhar tripudiando sobre mim. — Aqui está. — Depois de uma cansativa “caça ao tesouro”, despejei tudo que havia encontrado sobre o balcão. — É tudo que temos no momento. Ele tirou vagarosamente uma das mãos do bolso da jaqueta e verificou as horas em seu relógio. Parecia estar tirando onda com a minha cara. — Mais alguma coisa, senhor? — grunhi entre dentes. — Por que a pressa, Tesouro? — indagava-me com escancarada ironia, divertindo-se com minha aflição. Filho da mãe! Primeiro me manda ser rápida e agora quer ir em slow motion? — Pare de me chamar assim! — adverti com os dentes trincados. — Algum problema? Se for o caso, eu farei os pedidos diretamente à Beth e… — Não! — esbravejei e fiquei aliviada ao me certificar que Beth não estava nos observando. — Deseja mais alguma coisa?! — Muitas, deixe-me ver… — E ficou olhando para o nada, com a clara intenção de me irritar. — Está bem! Quero mais uma caixa deste conjunto aqui e duas do Pink Floyd. Pink Floyd? Eu queria aquela coletânea há tempos. Não perdi o ensejo: — Você pretende distribuir tudo por aí ou vai dar o mesmo CD para os seus familiares durante os próximos cinco anos? Que falta de originalidade! — Não te pedi opinião — rebateu ele. — Ótimo! Acabou? Por que ele conseguia me irritar daquela maneira? Por que seu olhar me queimava tanto? Seria realmente capaz de afetar a minha psique com algum tipo de truque, como Kevin havia dito? — Sim. Mas tem um probleminha. — Então Richard apertou os lábios, tentando esconder que se divertia à minha custa. — Qual? E, virando de costas para mim, dirigiu-se até o balcão onde Beth estava. Gelei. — Beth? — Ãh? Oi! O senhor está sendo bem atendido? — Seus olhos brilhavam. O cretino passou lentamente as mãos pelos fartos cabelos, olhou para mim e fez uma pausa cinematográfica. Pronto! Acabo de perder meu emprego! — Muito bem — e desferiu com seus bélicos olhos azuis um tiro certeiro em Beth, que se deixou a****r com incrível facilidade. — É que tem um probleminha. — Pode falar, Sr. Trent. — Eu preciso levar toda esta mercadoria ainda hoje, senão infelizmente não poderei efetuar a compra. — Isto não é problema! Nós temos todo o restante do que o senhor pediu no estoque. O serviço de entrega já encerrou a esta hora, mas poderemos levar a encomenda até o seu carro.
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