Capítulo 1: O Peso das Medalhas , A Proposta sobre a mesa.
Capítulo 1: O Peso das Medalhas
O ar-condicionado da sala de recepção emitia um zumbido grave e constante, tentando em vão amenizar o calor abafado da tarde. Adem Shay permaneceu imóvel na cadeira de couro sintético, com as costas perfeitamente alinhadas e os pés firmes no chão. Vestia seu único terno escuro — um pouco apertado nos ombros largos, fruto de anos de treinamento físico rigoroso nas Forças Especiais.
Ele olhou discretamente para o relógio de pulso. Quarenta e cinco minutos de atraso.
Para a maioria das pessoas, aquilo seria apenas um incômodo burocrático. Para Adem, treinado para operar sob cronogramas onde milissegundos separavam a vida da morte, aquela espera minava a pouca paciência que lhe restava. No entanto, ele não podia se dar ao luxo de se levantar e ir embora. Naquela manhã, a conta de luz e a mensalidade atrasada da escola da pequena Ece, de 8 anos, haviam chegado acompanhadas do último aviso de cobrança.
— Senhor Adem Shay? — A voz da jovem recrutadora do Setor de Recursos Humanos soou da porta. — Pode entrar.
Adem levantou-se em um único movimento fluido. Entrou na sala decorada com plantas artificiais e frases motivacionais nas paredes. O entrevistador, um homem na casa dos trinta anos vestindo uma camisa social impecável, m*l levantou os olhos do monitor do computador ao apontar para a cadeira vaga.
— Sente-se, por favor — disse o recrutador, folheando as folhas impressas do currículo. — Vejamos... Adem Shay. Dez anos de serviço ativo... Operações Especiais.
O silêncio na sala pesou por alguns segundos. Adem conhecia bem aquele olhar. Era o mesmo olhar que vira nas últimas nove entrevistas.
— O senhor liderou equipes em zonas de conflito de alto risco, correto? — perguntou o recrutador, ajeitando os óculos com hesitação. — Gerenciamento de crise sob fogo real, táticas de evasão, combate urbano...
— Correto — respondeu Adem. Sua voz era grave, limpa de qualquer emoção desnecessária.
— Pois é... — O homem suspirou, reclinando-se na cadeira. — Senhor Shay, a nossa vaga é para a coordenação de segurança patrimonial de um shopping center. O seu perfil é... extraordinário. Mas nós buscamos alguém focado em mediação de conflitos civis, gestão de escalas e relacionamento com o público.
— Eu posso gerenciar escalas e resolver conflitos — disse Adem, mantendo o olhar fixo no homem.
— Sim, mas... o senhor é superqualificado. — O entrevistador sorriu de forma constrangida. — Alguém com o seu histórico não vai se adaptar a relatórios semanais. O senhor foi treinado para a guerra. Francamente, a sua presença aqui... intimida. Não achamos que esta empresa seja o ambiente certo para o seu perfil.
Adem fechou a mão em um punho discreto sob a mesa. O "muro" havia subido novamente. O mesmo muro que o rotulava como uma máquina perigosa demais para o mundo civil, ignorando o homem que precisava apenas sustentar Nevin e garantir o futuro e o tratamento de saúde de Ece.
— Compreendo — disse Adem, levantando-se calmamente. Apenas assentiu com a cabeça e saiu da sala.
Vinte minutos depois, Adem caminhava pela calçada movimentada do centro financeiro da cidade. Ele tirou o celular do bolso. Uma mensagem de texto de Nevin trazia apenas uma frase: "Adem, a farmácia ligou sobre os remédios de Ece e a escola mandou o aviso. Conseguimos cobrir este mês?"
Adem respirou fundo, sentindo um aperto no peito que nenhum combate em zona de guerra jamais provocara. Guardou o telefone e parou no cruzamento.
Ao seu lado, um carro preto de vidros totalmente escurecidos encostou suavemente junto ao meio-fio. O vidro do passageiro baixou poucos centímetros, revelando o rosto de um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos cortados rente e uma cicatriz fina na sobrancelha esquerda.
— Adem Shay — disse o homem. A voz era fria, calma e acostumada a dar ordens.
Adem adotou instantaneamente uma postura de defesa, os olhos mapeando o veículo.
— Não nos conhecemos.
— Mas eu conheço você — retrucou o homem no banco traseiro. — Sei onde você serviu. Sei o que fez nas montanhas de Khost. E sei que você acabou de ouvir pela décima vez este mês que é "qualificado demais" para cuidar da porta de um prédio comercial.
Adem manteve-se imóvel.
— Quem é você?
— Meu nome é Becker — disse o homem, abrindo levemente a porta do carro. — Sou a pessoa que resolve os problemas do senhor Timor Karata. E nós não achamos que seu currículo seja um problema, Adem. Nós achamos que ele é exatamente o que precisamos. Entre no carro. Vamos conversar sobre o tipo de trabalho que paga o que você realmente vale.
Adem olhou para a porta aberta do veículo, depois para o celular em sua mão com a mensagem de Nevin. O sinal de pedestres abriu ao seu redor, mas ele deu o passo em direção ao carro, ciente de que estava cruzando uma linha sem volta.
A Proposta sobre a Mesa
A porta do sedan blindado se fechou, cortando o ruído do trânsito. O interior do veículo cheirava a couro legítimo e charuto. Becker abriu uma pasta de couro e retirou um relatório detalhado.
— Sua esposa, Nevin. Sua filha, Ece — disse Becker, sem alterar o tom de voz. — Oito anos de idade, certo? Uma fase em que os custos escolares e o tratamento contínuo só aumentam. A burocracia civil não se importa se você é um herói decorado, Adem. Para eles, você é apenas um risco operacional.
Adem manteve o corpo rígido, o olhar fixo em Becker.
— Você investigou minha família.
— Investiguei a sua necessidade — corrigiu Becker, deslizando um envelope pardo volumoso para o banco ao lado de Adem. — O senhor Timor Karata não precisa de um vigilante de escritório. Ele precisa de um homem que saiba como agir quando o caos se instalar. Dentro desse envelope há o suficiente para quitar suas dívidas, garantir o tratamento e a escola de Ece por um ano, e manter Nevin tranquila. É apenas um adiantamento pelo seu primeiro mês.
Adem encarou o envelope, sem tocá-lo.
— O que exatamente Timor Karata faz? E qual é o meu papel nessa história?
— O senhor Karata é um homem de negócios influente. E homens influentes acumulam inimigos perigosos — respondeu Becker, olhando pela janela enquanto o carro avançava em direção aos portões de uma propriedade imponente no topo da colina. — Sua função é garantir que nada chegue até ele. Escolta, varredura de perímetro, neutralização de ameaças. Sem perguntas, sem hesitação.
O veículo atravessou os portões de aço da mansão Karata. Pela janela, Adem observou os seguranças espalhados pelo pátio: postura rígida, armas visíveis, mas olhos desatentos aos pontos cegos.
— Seus homens são amadores — comentou Adem, a voz seca. — Qualquer equipe tática bem treinada passaria por essa guarda em menos de dois minutos.
Becker olhou para Adem e um sorriso frio surgiu em seus lábios.
— É exatamente por isso que você está aqui, Adem Shay. Agora vamos ver se o senhor Karata concorda com a sua avaliação.