— Amiga! Sério que vocês transaram no carro dele?
— Sim, amiga.
— Uau! Você é uma sortuda.
— Por quê?
— Ele é rico.
— Ah. Eu não estou interessada no dinheiro dele.
— Eu sei. Mas você não vai precisar se preocupar com dinheiro.
— Eu ainda estou o conhecendo. Nem estamos namorando.
— Mas você está gostando dele?
— Não sei ainda. Talvez...
— Ele parece ser gente boa.
— Ele é misterioso.
— Misterioso?
— Sim. Ele não é muito de falar da vida dele.
Paula era a melhor amiga de Patrícia. Elas conversavam sobre todos os acontecimentos em suas vidas.
O dia foi muito agitado no trabalho, diferente do anterior. Patrícia estava exausta. O dia passou e viu em seu celular as horas marcarem o final do seu expediente. Despediu-se de sua chefe e pegou a mochila. Seria mais uma noite de faculdade.
Surpreendentemente, Bruno apareceu na porta da loja. E não foi de qualquer jeito.
— Flores para a mulher mais bela.
Patrícia corou.
— Que lindas! Muito obrigada!
— De nada, meu bem.
Se beijaram e entraram no carro. Patrícia estava com o lindo buquê de flores nas mãos.
— Mas, e agora? Como vou entrar na sala de aula com essas flores?
— Você pode deixá-las no banco de trás. Pega quando for embora.
— Está bem.
Chegaram em frente a faculdade e se beijaram novamente.
— Te vejo mais tarde.
— Até mais.
Patrícia deixou o perfumado carro de Bruno e entrou no prédio da faculdade.
As aulas seriam sobre psicologia analítica.
Psicologia analítica é o termo designado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) para o seu método de interpretação da psique humana. Para se diferenciar da metodologia da psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939), Jung atribuiu este nome à sua abordagem.
A psicologia junguiana, também conhecida como psicologia analítica, é a abordagem psicológica baseada na filosofia e nas ideias do psiquiatra e teórico Carl Gustav Jung. Essa vertenteda psicologia busca compreender a mente humana em suas complexidades e experiências pessoais por meio de uma análise geral do indivíduo.
O professor explicava a matéria numa mansidão que fazia os alunos cochilarem. Patrícia estava cansada e quase pegou no sono.
A Psicologia Analítica trabalha para integrar aspectos inconscientes à consciência e estabelecer um equilíbrio entre mundo interno e externo.
Os principais conceitos da Psicologia Analítica de Jung são o inconsciente coletivo, o que difere sua teoria da teoria de Freud, os arquétipos, a persona, a anima e o animus entre outros mais que vem dar força a esta teoria que traz a base para a psicoterapia de orientação analítica.
O objetivo de uma terapia é o processo de individuação, no qual o paciente “confrontando-se” com o seu próprio inconsciente, tanto o coletivo, quanto o pessoal, chegará a ser a sua própria totalidade, chegará à plenitude, ou seja à sua personalidade total.
Patrícia levantou a mão para perguntar:
— Professor, por que o símbolo é considerado um aspecto central da psicologia analítica?
— Bem. Vejamos. O símbolo é a melhor expressão possível de algo relativamente desconhecido, pois ele representa por imagens, experiências e vivências, que incluem aspectos conscientes e inconscientes, desconhecidas da consciência.
Na psicologia junguiana, a personalidade como um todo é denominada psique.
Esta palavra de origem latina significava originalmente “espírito” ou “alma”, mas
atualmente vem sendo usada no sentido de mente.
A psique não se resume apenas ao cérebro. É, antes de tudo, um processo em
evolução contínua, repleto de energia. Esta energia é gerada a partir da própria tensão
criativa entre as polaridades (opostos), que irá resultar na produção dos sonhos,
imagens fantasias, enfim, nos símbolos da psique.
A consciência é a única parte da mente que é conhecida diretamente pelo indivíduo. Surge muito cedo na vida: ao observar-se uma criança, pode-se notar uma percepção consciente a operar quando ela reconhece e identifica seus pais, brinquedos e demais objetos que a cercam.
Além dessas quatro funções mentais, existem ainda duas atitudes que determinam a orientação da mente consciente. Estas atitudes são a extroversão e a introversão. A atitude extrovertida orienta a consciência para o mundo externo e objetivo. Em contrapartida, a atitude introvertida orienta a consciência para o mundo interno e subjetivo.
Para não dormir na aula, Patrícia adotou a estratégia de fazer perguntas. E isso estava funcionando bem.
— Professor, tenho mais outra dúvida.
— Diga.
— Qual é o processo em que a consciência de uma pessoa se diferencia de outra?
— É a individuação. A consciência e a individuação caminham lado a lado no
desenvolvimento da personalidade, pois o início da consciência é também o início da
individuação. Do processo de individuação da consciência, surge um novo elemento,
ao qual Jung deu o nome de Ego.
Ego foi o nome dado por Jung à organização da mente consciente. Essa
organização se dá por meio de uma composição de percepções conscientes,
recordações, pensamentos e sentimentos. Embora ocupe pequena parte da psique total, o Ego desempenha a função básica de vigia da consciência: a menos que o Ego reconheça a presença de uma idéia, de um sentimento, de uma lembrança ou de uma percepção, nada disto pode chegar à consciência.
O Ego tem uma relação muito importante com o Si mesmo: trata-se de uma realidade paradoxal: num certo sentido, o Ego é o Si mesmo, pelo menos aquela parte do Si mesmo que existe na consciência empírica, que vive e atua no mundo da realidade consensual.
— Já ouvi dizer que existem pessoas com o ego muito grande. Como o ego cresce? — perguntou Patrícia novamente.
— Boa pergunta. O ego cresce à medida que interage com o inconsciente e o meio ambiente. Nos bebês, o ego tem, inicialmente, uma atitude passiva. Ele surge da colisão entre as necessidades corporais e o meio ambiente.
A exclusão de emoções e pensamentos também pode ocorrer de forma inconsciente. Essa “exclusão” é feita por um mecanismo de defesa chamado repressão.
Outra função do desenvolvimento do Ego e da consciência, além da questão adaptativa ao meio ambiente, seria a de garantir a própria existência, pois, para
compreender o ser que há em cada um de nós, é necessário que criemos significados
capazes de imprimir um sentido, um rumo a nossas vidas. E essa capacidade de criar
significados e dar um sentido à existência é desempenhada pela capacidade de simbolização da consciência do Ego.
As aulas terminaram e Patrícia saiu satisfeita, pois não cochilou sobre a carteira e pôde tirar dúvidas.
Ao sair, lá estava o Camaro branco esperando por ela. Dessa vez, foram direto pra casa. Ela despediu-se dele com um longo beijo e entrou em casa com o buquê de flores.
— Que flores são essas, filha? Quem te deu? — Perguntou sua mãe.
— Ah, é uma longa história.