A professora ainda não havia chegado da troca de aula, eu estava revisando a matéria com a Fernanda, temos prova nessa aula e todos parecem nervosos, e pensar que há duas semanas eu estava tranquila relembrando o passado com o Luís.
_Ainda bem que você está revisando comigo, eu estou muito nervosa
Ouvi uma voz atrás de mim que não pertence ao garoto de óculos que não cala a boca na aula, qual o nome dele mesmo? Felipe? Fernando? Não me importo. E não me importaria mesmo, se não ouvisse uma voz mais conhecida responder:
_Fica calma, estudamos muito e você acertou quase todas as questões da revisão de ontem - Luís respondeu
Na mesma hora, olhei para confirmar e lá estavam: meu suposto namorado e um garota que tenho certeza que estuda com a gente há pelo menos três anos, mas ela não anda com a turminha do outro lado da sala? Ela não senta do outro lado da sala? O que ela está fazendo? Estreitei os olhos antes da Fernanda chamar minha atenção.
_O que você acha, Rebeca? Rebeca? - olhei para ela – Estou perguntando dessa questão, não entendi muito bem como foi feito
Suspirei e ia olhar a questão, quando o David se apressou, puxando a apostila mais para perto e explicando à minha prima a questão, dei de ombros e fingi prestar atenção à sua explicação, enquanto focava na conversa atrás de mim.
_Sério, se você não tivesse ido lá em casa ontem para me ajudar, eu estaria desesperada – a garota continuou e respirei fundo para não socar alguém - Eu sou péssima nessa matéria
_Para mim é muito fácil - Luís provocou
_Ah, mas para você, não é, Luís? Para mim não é, então pode voltar a me ajudar com a revisão!
_Você quem manda, Mel – ele respondeu
Certo, chega. O nome dela é Melissa, não Mel, é isso! Eu estava prestes a me virar quando a professora chegou.
_Todos prontos? - a professora perguntou, deixando suas coisas no birô
_A prova está difícil, professora? - um garoto da frente perguntou
_Não para quem estudou – a professora sorriu – agora se organizem para começarmos
E assim foi feito, os grupos que se montaram para revisar se quebraram e logo as provas estavam sendo passadas para todos. Ainda estava com raiva e chateada, mas respirei fundo tentando me concentrar, terminei a prova o mais rápido que pude, me concentrando o máximo que consegui, entreguei a prova e desci para o intervalo mais cedo.
Logo notei alguns outros alunos que terminaram e a Fernanda apareceu, sentando ao meu lado na mesa e já questionando:
_Como você terminou tão rápido? Aquela prova estava difícil!
_Sei lá, só fiz – respondi e ela me olhou estranha
_Tudo bem, o que aconteceu? - dei de ombros, sem v*****e de falar sobre
Felizmente, o David se aproximou bem na hora, sentando em cima da mesa
_Aí estão vocês! O que acharam da prova?
E assim ficamos conversando sobre a prova, sobre os professores e até sobre como seria quando o ano acabasse, afinal, é nosso último ano, a maioria ainda está decidindo.
_Estou com medo do ano acabar e eu ainda não souber o que quero fazer – Fernanda disse – Eu tenho minhas opções claro, mas ainda estou indecisa
_Fica tranquila, não é nossa vida que está acabando, só o colégio - a acalmei – ainda temos tempo para decidir, mudar de ideia e ir por outro caminho, se quisermos
_Sim, a Rebeca está certa, acho que o mais complicado é a pressão, meus pais não tem exatamente facilitado – David concordou
_Eu sei, os meus lá de São Paulo conseguem ficar no meu pé, hoje mais cedo deve ter sido a sexta vez que me ligaram para falar sobre faculdade só nesse mês, eles ainda insistem para que eu faça faculdade lá - Fernanda contou
_Você já decidiu se vai? - perguntei
_Eu não sei, eu prefiro fazer aqui – ela respondeu
Ainda estávamos conversando quando Luís chegou, sentando ao meu lado e passando o braço por cima do banco atrás de mim
_Do que vocês estão falando?
_De nada – respondi, me levantando e saindo
_Rebeca, espera! - ele me chamou, correndo até mim, mas continuei andando – o que foi? O que aconteceu?
_Nada – respondi – Fernanda! - chamei e vi Nanda nos olhando antes de suspirar e vir correndo
Fernanda afastou Luís de mim, enquanto tentava tranquiliza-lo, eu me afastei, ainda a escutando:
_Tudo bem, depois você fala com ela, me deixa falar primeiro
Eu soube que Luís tinha voltado para a mesa frustrado, quando Fernanda se aproximou de mim e fomos para um canto mais afastado, onde expliquei a ela minha raiva.
_Amiga, acho que você está exagerando, não? - Fernanda falou e eu bufei
_Não, eu não sei e não ligo, eu estou com raiva, fim – Respirei fundo
_Tudo bem, tenha seu momento de raiva – Fernanda falou e ficamos em silêncio por alguns instantes, para que eu respirasse - você sabe que eles são amigos, não é?
_Desde quando? - perguntei brusca, mas Fernanda sabia que não é com ela
_Até onde eu sei, já tem tempo – eu a olhei irritada – você n******e realmente está tão chateada só porque ele a ajudou a estudar
_Não, é porque ele foi para a casa dela ontem, ele me chamou para sair ontem e foi para a casa dela – reclamei
_Sim, certo, mas não foi você quem recusou?
_Tanto faz – bufei - só me deixa ficar com raiva, depois passa e recupero meu eu racional e resolvo isso
Fernanda sorriu e concordou, me deixando reclamar para desabafar. Ficamos nisso até o sinal tocar, quando tivemos nossas últimas aulas, onde tentei dormir ou pelo menos fingir, para quê Luís me deixasse em paz.
Na hora da saída fui para casa sozinha, Fernanda me disse que esperaria o Luís para falar com ele, o que significa que eles vão para a lanchonete e eu vou ter um tempo sozinha no meu quarto para respirar.
Cheguei em casa e me tranquei no meu quarto minha avó ainda veio saber o que aconteceu, mas estava chateada e disse que contava depois, ela me deixou sozinha e disse que o almoço logo estaria pronto.
Joguei a mochila no chão e deitei na cama, respirando fundo, acho que fiquei tempo demais olhando para o teto, então me encolhi no chão encostada à cama e fiquei pensando em nada.
Então eles eram amigos? Tudo bem, acredito em amizade entre homem e mulher, nunca vi nenhum problema e até acho chato quem sempre desconfia. Ele estava na casa dela? E daí? Eu confio nele, qual o problema? Ele gosta de mim, eu sei disso e conheço ele desde sempre, ele não é nenhum b****a. Então porque não gosto disso? Por que tenho que ficar tão incomodada?
A essa altura, eu já estava mais chateada comigo mesma do que com ele, mas orgulhosa do jeito que sou, não sei como explicar isso ou se consigo dizer em voz alta, suspirei, jogando a cabeça para trás na cama. Foi quando ouvi as batidas na porta, a Fernanda chegou.
_Ainda não, Nanda, depois conversamos – falei e fechei os olhos, mas ouvi a porta abrir mesmo assim – Nanda, o que- - me interrompi quando encontrei Luís na porta, o encarei – saia
_Não - ele respondeu e fechou a porta, deixando a mochila de lado
_Eu não quero conversar agora – desviei o olhar chateada
_Tudo bem – ele se aproximou e sentou ao meu lado no chão, olhando para a porta
O olhei por alguns instantes, antes de suspirar e voltar a jogar a cabeça para trás na cama. Como combinado, ele ficou em silêncio e eu também, até que não aguentei mais, respirando fundo.
_Tudo bem, eu fiquei com raiva – falei
_Eu sei – ele concordou simplesmente
_De você e da Melissa – continuei e ele só assentiu, ainda inexpressivo e encarando a porta - é só... Eu sei que vocês são amigos, quer dizer, agora eu sei – suspirei – e sei que você só devia estar ajudando-a com a matéria, mas é que- - eu não sabia como continuar e lutei com as palavras, então respirei fundo e desisti – eu não sei, eu não sei porque estou com tanta raiva e é ridículo! É ridículo e a culpa é sua! - o bati de lado irritada e, finalmente, reagiu, sorrindo para mim
_Eu sei e se precisar de alguém para descontar a raiva – ele abriu os braços, se oferecendo, mas revirei os olhos
_Não - respondi cansada e o soquei de leve no braço - Eu não estou mais com raiva
_Eu sei – ele me puxou em seu abraço e ficamos assim por um tempo
Ele me fazia cafuné, enquanto eu me sentia triste, condenando minhas mudanças de humor, era só como se toda a raiva sumisse e de resto tivesse ficado um vazio melancólico. Eu sabia que estava exagerando, não aconteceu nada demais, mas esse pensamento não iria me ajudar, só me deixava ainda mais deprimida comigo mesma.
Eu sabia que só precisava de um tempo, um tempo para sofrer um pouquinho, para desabafar toda essa emoção antes de poder voltar ao normal, continuar e seguir, emoções não expressas machucam, e contanto que meus dois pontos de equilíbrio, Fernanda e Luís, me entendessem, tudo ficaria bem.
_A Melissa é minha amiga desde o nono ano – ele começou, depois do nosso tempo em silêncio
_Eu nunca tinha notado – falei baixo, com medo da minha própria voz
_Não conversamos muito no colégio, ela tem o g***o e amigos dela, eu tenho o meu – seu abraço ficou mais forte, como se para provar seu ponto
_Então, por celular?
_Sim, ela é realmente como uma irmã para mim, eu nunca a veria assim, é até estranho – ele riu baixo e eu sorri - você deveria falar mais com ela, então veria que não existe nada
_Eu confio em você - sussurrei e ele beijou minha testa
Uns segundos de silêncio passaram, enquanto eu tentava me decidir se perguntava ou não
_Ei – chamei, levantando a cabeça de seu ombro para olha-lo, sem saber se continuava – hum, ontem, quando você me chamou para sair – ele assentiu, em indicação que lembrava – por que me chamou para sair se ia ajudar a Melissa a estudar?
_A Melissa me pediu ajuda depois que você disse que não podia – ele me olhou de olhos estreitos
_Ei! Eu só disse não porque estava estudando com a Nanda – reclamei e fingi não me importar com sua expressão surpresa – o que? Já viu alguém passar direto sem estudar?
_Não - ele riu, me deixando um beijo na bochecha – de certa forma, eu já esperava que você estudasse - ele se levantou e o olhei confusa
_Para onde você está indo? - perguntei e ele sorriu para mim
Luís se aproximou da porta e mexeu em sua mochila, voltando para o meu lado e me entregando um pacote
_Eu trouxe para você - ele disse, enquanto eu abria o pacote e sorria
_Obrigada! - o abracei e beijei seu rosto, antes de puxar a coxinha
_Não sei como você não enjoa – ele comentou e eu ri
Ouvimos a minha avó reclamando com a Fernanda sobre ter comido besteira na lanchonete na hora do almoço e o Luís me olhou nervoso
_Não conta para a sua avó que eu te trouxe isso
Eu ri dele e concordei, mordendo a coxinha antes de lembrar de algo
_Ei, só mais uma coisa – o olhei séria
_O que? - ele me perguntou nervoso
_Mel? Sério? - levantei as sobrancelhas para ele em provocação
Luís revirou os olhos, bufando e riu, enquanto me puxava mais perto e reclamei sobre ele quase derrubar minha coxinha.