Sentados na mesa no fundo da lanchonete, eu estava rindo com o Luís do perrengue que a Fernanda tinha passado no shopping ontem
_Não, vocês não têm noção - ela continuou sua história - então a mulher do caixa esqueceu de tirar o pino da roupa e quando eu passei pelos detectores apitou! Juro, até a mulher da loja da frente me olhou com simpatia, não sabendo se ria ou se sentia pena de mim!
_E o que você fez? - perguntei ainda rindo e me encostando de lado no Luís, que passou seu braço ao meu redor
_Eu voltei no caixa, não é? O que mais eu podia fazer? A mulher me pediu desculpas e tudo, mas ainda assim saí morta de vergonha
O toque de um celular a interrompeu e Fernanda puxou seu celular, atendendo
_Oi, David! O que foi? - a vimos mudar de relaxada a preocupada em instantes – entendi, não, tudo bem, eu só estou na lanchonete com a Rebeca e o Luís - mais uma pausa, enquanto eu e Luís a assistíamos curiosos – claro, tudo bem, daqui a pouco chego aí - eu e Luís nos olhamos dessa vez, levantando as sobrancelhas em uma conversa silenciosa e sorrimos – certo, tchau – ela se despediu e desligou
_Então? - questionei, ainda sorrindo, enquanto ela guardava o celular
_O que? - ela me olhou, se levantando
_Então, o que é tão importante que você vai nos deixar? - elaborei e ela revirou os olhos
_Eu estou ajudando o David com uns problemas pessoais, só isso, agora eu á vou indo – ela se despediu, já se afastando
_Certo, vá salvar seu donzelo, Nanda, corra até sua torre antes que o dragão acorde de seu sono! - brinquei e ela me fez careta, saindo da lanchonete
Olhei para minha companhia restante e ele estava sorrindo para mim
_O que? - perguntei
_Nada – ele beijou minha bochecha e o olhei desconfiada
_Certo... Então, considerando que estamos em uma lanchonete, vou pegar um lanche, quer algo? - Me levantei e ele se esticou
_Uma coxinha, pode ser
Fui buscar os lanches e cumprimentei a tia Sílvia, que sorriu, continuando a atender os clientes. Quando voltei a me aproximar da mesa, Luís estava mexendo no celular distraído.
_Aqui – entreguei seu prato com a coxinha e abri a latinha de refrigerante, servindo nós dois – O que estava vendo?
_Nada demais – ele deixou o celular na mesa para pegar a coxinha e pude ver que era só um jogo - Então, não quis uma coxinha? - ele me questionou, confuso ao olhar o folheado que eu já devorava
_Pensei em mudar um pouco – dei de ombros
Continuamos a comer, quando pensei em algo e sorri
_Ei – chamei – lembra do dia em que nos conhecemos?
_Sim – ele confirmou, sorrindo para mim – devíamos ter o que? 10 anos? - eu confirmei - eu tinha acabado de me mudar e só tinha conhecido a Nanda, era meu primeiro dia na escola nova, a aula já tinha começado e eu estava bebendo água, quando você veio como um furacão - ele riu e lembrei com ele
“Eu estava atrasada, morava longe do colégio e meus pais não ajudavam quando se tratava de horário, entrei correndo na escola, segurando uma caixa com as coisas da Fernanda que ela tinha esquecido na minha casa antes, virei a esquina do bebedouro e bati com o garotinho baixo e de cabelo castanho, me levantei irritada vendo as coisas da caixa no chão tudo molhado.
_Olha o que você fez, seu burro! - empurrei o menino que tinha acabado de se levantar – o que eu vou dizer para a Nanda? - me perguntei preocupada
_Não fui eu! Você quem veio correndo como uma doida – apontou, já de pé, e o encarei irritada
_A culpa é sua! Não devia estar no corredor, a aula já começou há um tempão! - gritei
_E você? Não sou eu quem chegou atrasado, se chegasse na hora nada disso teria acontecido! - ele reclamou e parecia um bebê chorão
_Ah, é? Você vai ver só! - gritei e saí correndo atrás do garoto, que fugia de mim”
_Eu ainda caí na rampa, enquanto corria de você - Luís apontou e eu ri
_Sim, até a coordenadora nos ver e a gente ser mandado para a aula – mordi outro pedaço do meu folheado
_Não antes de um aviso na agenda – ele concordou
_Sim, minha mãe não ficou muito feliz com isso, acho que foi quando recebi minha sexta chance antes dela desistir totalmente de me disciplinar - dei de ombros
_Sim, então virou nosso trabalho – ele sorriu para mim – meu e da Nanda, botar juízo nessa cabeça - ele bagunçou meu cabelo e afastei sua mão irritada
_Tanto faz, eu estava pensando mais no mesmo dia, só que no recreio, depois que a raiva da Nanda passou pelo que fizemos com as coisas dela
_Sim, verdade ela não queria nem falar com a gente – ele concordou
Eu lembrava tão bem daquele dia, não sei porque, talvez por causa da confusão toda?
“Passamos a primeira parte do recreio atrás da Fernanda, quando ela, finalmente, sentou em um banco e a gente parou na frente dela, ainda insistindo:
_Nanda, eu já disse, a culpa foi toda dele! - apontei para o menino que me olhou f**o, já reclamando, mas o ignorei – ele quem me derrubou e jogou água nas suas coisas; ele quem estragou tudo!
_Não foi! - ele gritou irritado – Foi ela! Ela quem chegou correndo e derramou toda a água, ela ainda saiu correndo atrás de mim – ele se aproximou da Fernanda quase desesperado – essa menina é louca!
Eu parei, prestes a voar no menino que se atreveu a me chamar assim, quando Fernanda foi mais rápida:
_Também não exagere, Luís, ela ainda é minha prima!
_Luís? Esse é o novo vizinho que você falou? - perguntei confusa
_Ah, não - ele parou em descrença - ela é a sua prima?
_Esperem – Fernanda nos olhou divertida - vocês estão quase se matando há horas e ainda nem sabiam seus nomes?
_Não entendi ainda o ‘legal’ que você usou para descrever esse ser – apontei para o menino, que melou ofendido
_E essa coisa só é ‘divertida’ no mundo dos ogros! - ele respondeu
_Você vai ver uma coisa divertida! - gritei e ele se assustou, correndo comigo atrás dele
_Parem, vocês dois! Vocês querem receber outro aviso? - ouvi o grito da Fernanda, mas eu á tinha alcançado o menino
Todos os alunos curiosos assistindo, enquanto eu o ensinava porque não devia me chamar de ogra.”
_Como viramos amigos? - eu perguntei
_A Fernanda – ele deu de ombros
_Comigo foi a sua mãe - respondi e ele me olhou estranho - O que? Você acha que eu te aguentaria se não fossem os lanches grátis?
_Você sabe que sua avó paga todo mês, certo? - Ele sorriu
_Sério? - Ele assentiu e o olhei indignada – sua mãe me enganou! Todos esses anos e eu achei que estava sendo paga para te suportar
Ele revirou os olhos, mas sorriu me abraçando.
_Quer? - Ele me ofereceu sua coxinha, vendo que eu já tinha terminado meu folheado
Mordi um pedaço e o deixei comer, enquanto bebia meu refrigerante
_E a primeira vez que dormimos os três na casa da vó Lena? - comentei
_Até hoje sinto que não me desculpei o suficiente – eu ri com seu comentário
_Por favor, não pegue os créditos só para você - provoquei
“Quando cheguei na casa da vó Lena, fui direto guardar minhas coisas no quarto de visitas, mas quando entrei encontrei com o Luís.
_d***a! Estava torcendo para você não vir – reclamei e ele me sorriu falso
_Também estava morrendo de v*****e de te aturar uma noite toda
_Se você sobreviver à toda a noite – sorri e o vi se assustar
_A sua avó vai estar cuidando da gente – ele tentou me fazer ceder
_A minha avó vai ficar assistindo no quarto – meu sorriso aumentou com o olhar de medo do menino - ninguém vai te salvar
_Nanda! - ele saiu correndo e gritando, me deixando rindo
Aquela foi uma noite divertida, eu comecei minha lista quando nos sentamos no sofá para assistir alguns filmes
_Eu vou buscar sal – comentei, levando a pipoca para garantir
Peguei um copo de plástico e enchi de água, me aproximando com cuidado dos dois, quando eles estavam concentrados no filme, derramei a água toda de uma vez no Luís, que pulou do sofá de couro assustado.
_Rebeca! - os dois gritaram, enquanto eu ria
Luís saiu irritado para se trocar e eu peguei a pipoca e sal, voltando para o sofá
_Aqui o sal – comentei para a Fernanda
_Você não consegue se controlar, não é? - dei de ombros
Ainda estávamos assistindo quando Luís voltou, ele parecia calmo e até feliz demais para quem tinha acabado de levar um banho de água gelada, o olhei desconfiada, mas nada aconteceu nos próximos minutos de filme, até que não aguentei mais e pausei a televisão
_O que você fez? - o olhei forte e ele se fez de inocente
_Do que você está falando?
_Fale, antes que eu descubra – ameacei e Fernanda decidiu intervir
_Rebeca, ele não fez nada, ele está quieto desde que voltou
_Exatamente – me virei completamente para o Luís - O que você fez, fale!
_Rebeca, já chega, ele não- - Fernanda não concluiu e eu parei com medo – chiclete
Olhei para a Fernanda em confirmação e ela assentiu
_Ele colocou chiclete no seu cabelo
Não foi preciso dizer mais nada, o olhar de terror do menino durou instantes, antes que eu voasse em cima dele tentando destrui-lo
_Você vai se arrepender de ter nascido, seu i****a! - gritei e Fernanda tentava me tirar de cima dele
A gente gritou tanto que minha avó já devia estar vindo ver o que acontecia, quando a Fernanda conseguiu me tirar de cima dele e o Luís passou a correr de mim pela casa. Minha avó apareceu na porta perguntando o que estava acontecendo, mas não paramos, até que Luís bateu no móvel da televisão e eu não consegui para e caímos os dois em cima da televisão, que caiu no centro de vidro da sala, quebrando os dois.
Paralisamos assustados, olhando um para o outro antes de perceber que o resto da estante onde a televisão ficava só não caiu ainda porque ambos se seguravam nela
_Não solte! - gritamos ao mesmo tempo, sem saber o que fazer, mas estava ficando pesada
Com medo, soltamos ao mesmo tempo e nos afastamos, a estante caindo e quebrando com tudo que tinha nela. Olhamos nervosos para minha avó por um momento, antes de gritarmos juntos:
_Foi ele(a)! - apontando um para o outro
Olhei irritada para ele e o empurrei, ouvi o grito da Nanda e da minha avó, antes dele me segurar e os dois caírem no chão cheio de vidro.”
_Passamos o resto da noite caladinhos, enquanto a vó Lena cuidava dos nossos machucados – lembrei
_Sim, e essa nem foi a última vez que você tentou me m***r – ele brincou e o bati de lado
_Quem diria que aquelas duas crianças bagunceiras estariam aqui hoje, juntos – ele beijou minha bochecha
_Então acho que valeu de alguma coisa ter te aturado todos esses anos – comentei e ele beliscou minha cintura de brincadeira, eu ri
_Eu também te amo – ele provocou
_Eu sei, difícil não amar – respondi e o deixei lá, enquanto levava os pratos vazios para a cozinha da lanchonete, rindo.