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Entre Silêncios e Promessas

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Blurb

Helena é uma jovem violinista que vê sua vida virar de cabeça para baixo após a morte repentina de sua irmã mais velha, Isadora. Com o coração despedaçado e cheia de perguntas sem respostas, ela se muda para a casa do cunhado, Rafael, um médico frio e enigmático que guarda segredos sobre o passado da esposa — e sobre o próprio envolvimento com o acidente que a matou.Rafael tenta manter a distância, mas não esperava que Helena fosse tão parecida com Isadora — nem que sua presença despertasse sentimentos que ele julgava enterrados. Divididos entre a culpa, o luto e uma atração proibida, eles se veem presos em um emaranhado de emoções, onde o amor pode curar ou destruir.Mas quando verdades ocultas vêm à tona, Helena precisa decidir: perdoar ou fugir? Confiar ou confrontar? Amar ou deixar ir?

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Capítulo 1 – O Som do Silêncio
A chuva caía fina sobre o asfalto enquanto Helena observava, pela janela do táxi, as luzes da cidade embaçarem atrás das gotas. Cada rua percorrida era como um passo mais fundo em um mundo do qual ela não queria fazer parte. A casa onde Isadora viveu — e morreu — agora seria o seu novo lar. Ela abraçou a mochila com força, sentindo o contorno do estojo do violino contra o peito. A música era tudo o que lhe restava. Tudo que a mantinha respirando. Desde a noite do acidente, Helena não conseguia mais tocar. O silêncio do instrumento parecia gritar o que ela não tinha coragem de dizer. Quando o carro parou em frente à casa, ela hesitou. As janelas estavam acesas, e mesmo de longe, ela sabia que ele estava lá. Rafael. O viúvo. O homem com olhos frios demais para alguém que havia perdido a esposa há tão pouco tempo. — Tem certeza que quer ficar aqui? — perguntou o motorista, notando sua hesitação. Ela assentiu, sem olhar para ele. Desceu do carro com a chuva molhando os cabelos, os ombros e a alma. Rafael abriu a porta antes que ela pudesse bater. Alto, impecável, com uma camisa branca e o rosto indecifrável. Não parecia alguém em luto. Não parecia alguém, ponto. — Helena — ele disse, apenas, e abriu espaço para ela entrar. O cheiro da casa era o mesmo que ela lembrava das visitas esporádicas. Lavanda, livros antigos e um leve aroma de café. Mas agora, tudo parecia estéril. Como se o lugar tivesse esquecido como era ser um lar. — O quarto de hóspedes está pronto. Você pode ficar o tempo que quiser. Ela assentiu em silêncio, tirando os sapatos na entrada como sempre fizera. Havia tantas palavras engasgadas que nenhuma delas saía. Não ali. Não com ele. — Eu fiz sopa — ele disse, virando-se para a cozinha. — Está quente. Helena o seguiu, mais por educação do que por fome. Ele a serviu em silêncio, e por um instante, os dois ficaram frente a frente à mesa, como se o destino estivesse zombando da situação. — Obrigada — ela disse, por fim. — Sinto muito por Isadora — ele respondeu, sem emoção. Ela apertou os lábios. Ele não chorava. Nunca chorou, nem mesmo no funeral. E agora, sua presença era como uma sombra — constante, porém sem calor. Depois do jantar, Helena subiu para o quarto. O cômodo era aconchegante, mas impessoal. Uma tentativa clara de acolhimento sem envolvimento. Deixou a mochila sobre a cama e se sentou na janela, ouvindo a chuva ainda cair lá fora. Ela fechou os olhos e tentou lembrar da risada de Isadora, mas a imagem vinha distorcida pela dor. O som do violino, o cheiro do perfume dela, as noites em que dormiam de mãos dadas quando eram pequenas... Tudo parecia tão distante agora. Uma batida leve na porta a despertou. — Está tudo bem? — era a voz de Rafael, baixa. — Está — respondeu, sem se virar. Silêncio. Ela podia sentir que ele ainda estava ali, parado, como se quisesse dizer algo — ou esperar que ela dissesse. Mas não havia palavras suficientes no mundo para atravessar aquele abismo entre eles. — Boa noite, Helena. — Boa noite, Rafael. A porta se fechou suavemente. Naquela noite, ela sonhou com o som do violino. Mas, ao fundo, havia um grito abafado. E sangue. Muito sangue. --- Na manhã seguinte, a casa estava silenciosa. Rafael já havia saído, provavelmente para o hospital. Ele sempre se escondia no trabalho — mesmo quando Isadora ainda estava viva. Helena sabia disso, embora nunca tivesse dito em voz alta. Desceu para a cozinha e encontrou um bilhete sobre a mesa: “Comprei algumas coisas para o café. Fique à vontade. — R.” Era o tipo de gesto que pareceria gentil vindo de outra pessoa. Mas de Rafael, soava mecânico. Como um médico escrevendo uma receita por obrigação. Depois do café, ela abriu a porta dos fundos e saiu para o jardim. O lugar favorito de sua irmã. As flores estavam bem cuidadas, e isso a surpreendeu. Rafael jamais foi de cuidar de detalhes. Talvez estivesse tentando manter viva alguma parte dela. O banco de madeira sob a árvore ainda estava lá. Helena sentou-se, com o violino no colo, mas não tirou o instrumento do estojo. Apenas o segurava, como se isso fosse suficiente para se reconectar com quem ela era antes. — Você também sente falta dela, não é? — sussurrou, olhando para o céu cinzento. Um vento suave soprou, balançando as folhas. Ela fechou os olhos e deixou uma lágrima cair. — Eu sinto tanto... --- À noite, ela decidiu finalmente tocar. O silêncio precisava ser rompido. Subiu ao quarto e, depois de se assegurar de que estava sozinha, pegou o violino e ajustou a postura. Os dedos trêmulos, o coração acelerado. Mas, ao fechar os olhos, permitiu-se mergulhar na melodia. Era uma canção triste, cheia de dor e saudade. E cada nota parecia carregar uma parte de sua alma. O que ela não sabia era que Rafael estava parado do lado de fora da porta, ouvindo. O olhar fixo, o maxilar tenso. Por um momento, algo dentro dele pareceu ceder. Mas não o suficiente para entrar. Não ainda. --- Quando Helena terminou, sentiu como se tivesse chorado sem lágrimas. Como se tivesse tirado um peso do peito — mas ganhado outro. Voltou a guardar o instrumento quando percebeu uma carta sob sua mala. Era a caligrafia de Isadora. Tremendo, abriu o envelope. "Se um dia eu não estiver mais aqui, prometa que vai cuidar do Rafael. Ele parece forte, mas por dentro... ele se esconde. Não o odeie, Lena. Ele já carrega dor demais. Amo você." Helena sentiu o chão desaparecer. Ela não sabia o que a irmã sabia. Mas agora, tudo estava prestes a mudar.

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