CAPÍTULO 4
Narrado por Helena
A manhã seguinte foi um borrão de preparativos.
Jertrudes entrou no meu quarto antes mesmo do sol nascer, mandando desligar as luzes e abrir as janelas como se aquilo fosse normal. Me vestiram com um vestido vinho, longo, justo no corpo. Meu cabelo foi preso num coque elegante, deixando o pescoço à mostra. O perfume era forte, pesado. Eu parecia uma mulher feita — mas por dentro, me sentia como uma prisioneira se arrumando para a execução.
— Hoje à noite você será apresentada oficialmente como noiva de Dimitri Volkov — disse Jertrudes, enquanto ajustava o tecido do meu vestido. — Então sorria. E mantenha a cabeça erguida.
— Você sabia o tempo todo? — perguntei, sem emoção.
Ela não respondeu.
Desci para o salão principal no início da noite, quando os convidados começaram a chegar. A mansão estava ainda mais luxuosa do que no meu aniversário. Candelabros de cristal, vinho caro circulando em taças finas, músicos tocando violino e piano na varanda. Era uma celebração de poder. De domínio. De aliança.
Meu pai estava mais sério que o normal. Falava pouco. Bebia menos. Parecia mais tenso do que gostaria de admitir.
E então, ele chegou.
Dimitri Volkov entrou no salão acompanhado de seus conselheiros russos, todos de preto, todos com o mesmo olhar impenetrável. Ele, no centro, mais uma vez tomou o ambiente com o próprio silêncio. Ninguém ousava rir alto, ninguém o interrompia.
Assim que me viu, caminhou direto até mim.
— Está pronta? — ele perguntou, como se estivéssemos prestes a assinar um contrato de negócios.
— Eu não tive muita escolha. — respondi, encarando seus olhos frios.
Um canto de sua boca se curvou — não exatamente em um sorriso, mas em algo que sugeria diversão com minha resistência.
— Boa garota.
Quis socar aquele rosto perfeito. Mas engoli seco.
Minutos depois, meu pai subiu num pequeno palanque improvisado no centro do salão, junto com Dimitri. Eu fui levada até eles como uma peça de exposição. Senti todos os olhares cravados em mim.
— Agradeço a presença de todos — disse Lorenzo Bellucci, voz firme. — Hoje celebramos mais do que um aniversário. Celebramos uma aliança que mudará o rumo da nossa história.
— A Cosa Divina e a Bratva Krov caminharão juntas. E para selar essa união, anuncio oficialmente o noivado de minha filha, Helena Bellucci, com o Don da máfia russa, Dimitri Volkov.
Aplausos. Olhares de aprovação. Sorrisos de poder.
Por dentro, eu sangrava.
Volkov se aproximou, pegou minha mão e deslizou um anel em meu dedo. Ouro branco. Um rubi cravado no centro. Caríssimo. Frio.
Ele abaixou o rosto até meu ouvido.
— Agora, você é minha.
Senti a pele arrepiar. Mas não era t***o. Era medo.
Depois do anúncio, todos começaram a brindar. Meu pai me beijou a testa com uma falsa ternura. Conselheiros se aproximaram para parabenizar. As esposas italianas sorriram com aquele ar que dizia: agora é sua vez de sofrer.
Volkov ficou ao meu lado o tempo todo. Um sentinela. Um guardião do próprio prêmio.
Foi só depois de mais de uma hora que ele falou:
— Vamos conversar. A sós.
Eu o segui sem pensar. Ou talvez sem coragem de recusar.
Ele me guiou por um dos corredores laterais da mansão até um escritório reservado. Fechou a porta atrás de nós com um clique seco. O silêncio era absoluto.
— Sente-se. — ele apontou para uma poltrona de couro.
Me sentei, tensa.
Ele serviu dois copos de uísque. Me entregou um. Eu não bebo. Mas aceitei. Ele encostou-se na mesa, olhando pra mim como quem observa uma mercadoria rara.
— O que você está pensando? — ele perguntou, direto.
— Que isso é loucura. Que eu nem te conheço. Que tenho dezoito anos.
— Dezoito é o suficiente para ser minha mulher. — respondeu com indiferença. — Você foi criada para isso.
— Fui criada pra obedecer. Não pra amar alguém que m*l me olha nos olhos.
Ele sorriu de lado.
— Amor não tem espaço no nosso mundo, Helena. Isso é uma transação. Você é o selo da paz entre dois impérios. O resto... é detalhe.
— E eu sou esse “detalhe”?
— Você é o que pertence a mim a partir de agora.
Fiquei em silêncio. Engoli o gosto amargo do medo com o álcool que queimava a garganta.
— Eu não sou sua coisa. — disse, por fim.
Ele se aproximou.
— Vai ser. Mais cedo ou mais tarde. Com ou sem sua vontade.
— Você vai me forçar?
— Não preciso. Você vai entender seu lugar. — ele disse com voz baixa, mas firme.
Deus... aquele homem não gritava. Ele não ameaçava. Ele apenas falava — e o mundo se curvava.
Me levantei.
— Você me odeia antes mesmo de me conhecer.
Ele deu dois passos e parou perto demais.
— Eu não odeio você. Só não me importo com o que você sente. Isso aqui não é um romance. É um pacto. E você vai cumprir seu papel. Vai sentar ao meu lado, vai sorrir quando for necessário, vai parir meus filhos quando eu quiser. O resto... não me interessa.
Uma lágrima escorreu, silenciosa.
Ele a viu. Mas não reagiu.
— Guarde isso. Lá fora vão pensar que você é fraca. — ele disse, virando-se de costas.
Abriu a porta.
— Volte para a festa. A princesa da Cosa Divina agora é a futura rainha da máfia russa. Comporte-se como tal.
Saí do escritório como quem volta de um pesadelo. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O anel no dedo me sufocava.
No fundo, algo em mim estava sendo enterrado vivo.
E o que ia nascer... eu ainda não sabia o que seria.