A HISTÓRIA DE HELENA

1242 Words
CAPÍTULO 2 Narrado por Helena Eu sempre fui uma garota obediente. Nunca causei confusão, nunca questionei ordens. Me ensinaram que, na vida de uma filha da máfia, silêncio é sobrevivência. Cresci cercada por muros altos, vozes baixas e olhares frios. Mas mesmo naquele castelo de gelo em que fui criada, havia coisas que não faziam sentido — e essa semana foi uma delas. Desde o momento em que voltei pra casa, algo está estranho. Os empregados cochicham quando passo. Alguns desviam o olhar. Outros me olham com uma mistura de pena e curiosidade que me dá náuseas. E Jertrudes... ela está mais mandona do que nunca. Fica me medindo como se eu fosse uma boneca prestes a ser vendida. Na quarta-feira, tudo ficou ainda mais estranho. Ela entrou no meu quarto sem bater, como se ainda mandasse em mim, como se eu tivesse seis anos outra vez. Atrás dela, vieram duas mulheres e um homem — maquiadores, cabeleireiros, esteticistas. Uma equipe profissional. Trouxeram equipamentos, produtos caríssimos, uma mala de pincéis e escovas douradas. Fui arrastada pra frente do espelho sem tempo de reagir. — O que tá acontecendo, Jertrudes? — Você precisa estar impecável para o jantar de aniversário. — Ela sorriu sem mostrar os dentes. — Mas... impecável por quê? É só um jantar. — Um jantar importante. De família. E conselheiros. — Ela falou com aquele tom que não admitia questionamentos. Fiquei quieta. Aprendi que, às vezes, o silêncio revela mais do que as palavras. E ela estava escondendo alguma coisa. Era nítido. Depois da sessão de beleza, fui levada para outro cômodo da casa — onde uma estilista me esperava com uma arara cheia de vestidos. Roupas que eu nunca tinha visto antes. Tecidos finos, cortes justos, brilhos e transparências. Fui obrigada a provar um por um. — Isso tudo é pra um jantar? — perguntei de novo. A mulher nem respondeu. Jertrudes apenas cruzou os braços e observou. Aquilo não era um simples aniversário. Era uma preparação. Mas para quê? Na sexta-feira pela manhã, Jertrudes me acordou cedo, com um tom que não me dava opção. — Vista algo discreto. Vamos sair. — Pra onde? — Consultas. — Que tipo de consulta? — De rotina. Exames. Seu pai pediu. Desconfiei. Mas obedeci. Entramos no carro com dois seguranças. O caminho foi silencioso. Eu tentava entender o que estava acontecendo. Quando chegamos, vi a placa da clínica: uma instituição de luxo. Atendimento particular. Fomos direto para uma sala isolada. Uma médica me esperava. Foi tudo muito frio. Profissional demais. Me colocaram numa maca, fizeram alguns exames clínicos, e depois... veio o que me deixou em choque. — Agora vamos realizar o exame de integridade do hímen — disse a médica, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Quis levantar. Gritar. Perguntar se estavam loucos. Mas não fiz nada. Fiquei ali, deitada, com o estômago revirando e o coração disparado. A ficha caiu no segundo seguinte. Estavam comprovando se eu era virgem. O sangue sumiu do meu rosto. Não chorei. Não questionei. Não me mexi. Aprendi a suportar. Depois do exame, Jertrudes me ofereceu um suco como se nada tivesse acontecido. E no carro, durante o caminho de volta, agia como se não tivesse invadido a parte mais íntima da minha vida. Eu encarei a janela o tempo inteiro, engolindo a dor e a vergonha. No fundo, eu já sabia: tinha algo vindo. Algo que não dependia da minha vontade. Algo que ia mudar tudo. Na tarde de sábado, ouvi barulho de helicóptero. Saí até a varanda do meu quarto e vi a aeronave descendo no campo ao fundo da mansão. Os empregados correram, apressados, e a movimentação se intensificou. Meu pai tinha chegado. Desci as escadas com o coração disparado. Fazia um ano que eu não o via. Um ano sem nenhuma ligação, sem cartas, sem perguntas. Apenas o silêncio — que já era parte da nossa relação. Ele entrou na casa com o mesmo ar de autoridade de sempre. Terno escuro, óculos de sol, barba bem feita. Imponente. Intocável. — Olá, filha. — Sua voz soou mais como um cumprimento formal do que um gesto de afeto. — Oi, pai. Ele me olhou por alguns segundos, como quem analisa uma joia para ver se ainda brilha. Não me abraçou. Apenas assentiu com a cabeça, como se eu fosse um dos capos se apresentando numa reunião de negócios. — Está linda — disse, quase como uma obrigação. — Obrigada. — Forcei um sorriso. Naquela noite, jantamos juntos. Eu, ele e Jertrudes. A mesa era grande demais, fria demais, silenciosa demais. Meu pai m*l me olhava. Conversava sobre negócios, sobre homens que eu não conhecia, sobre reuniões na Rússia, cifras e contratos. Nada de mim. Nenhuma pergunta sobre como eu me sentia. Sobre o colégio. Sobre meus sonhos. Apenas números e poder. — O jantar de amanhã será importante. — Ele disse, seco. — Estarão todos os conselheiros presentes. Espero que você se porte à altura da sua posição. — Claro. — Foi a única coisa que consegui dizer. Subi para o quarto com o estômago revirado. Me deitei sem sono. Fiquei encarando o teto por horas, me perguntando o que estava acontecendo. Por que a preparação exagerada? Por que o exame? Por que a frieza do meu pai? Alguma coisa estava sendo arquitetada — e eu estava no centro disso. Na manhã do meu aniversário, acordei com Jertrudes abrindo as cortinas. — Bom dia, Helena. Feliz aniversário. — Obrigada. — Minha voz saiu fraca. Ela parecia mais animada do que de costume. Mandou trazer o café no quarto, acompanhou cada detalhe do meu banho, da maquiagem, do vestido. — Você vai usar esse aqui. — Apontou para um vestido azul-petróleo, de tecido fino e recortes delicados. — Seu pai aprovou. Enquanto me arrumava, ouvi o som de carros chegando. Olhei pela janela e vi os conselheiros do clã Bellucci, outros homens que eu reconhecia vagamente de reuniões passadas. Todos estavam lá. À noite, a mansão estava transformada. Luzes acesas por toda parte, música clássica tocando em volume baixo, garçons servindo champanhe e canapés. O salão principal decorado com flores brancas e douradas. Um cenário digno de contos de fadas — mas eu sentia como se estivesse entrando numa prisão enfeitada. Meu pai fez um discurso formal. Brindou ao meu aniversário. Alguns convidados vieram me cumprimentar com sorrisos calculados. Mas foi no final da noite que tudo ficou claro. Ouvi uma das esposas dos conselheiros cochichando com outra perto da escada: — O noivo ainda não chegou, né? — Vai vir amanhã. Vai se hospedar no Grand Hôtel de Parma. Mas já está tudo certo... o contrato foi assinado ontem. Eu congelei. Noivo? Contrato? Meu coração parou por um segundo. Senti o chão sumir dos meus pés. Não consegui reagir. Me afastei devagar, subi as escadas e entrei no quarto. Tranquei a porta e me joguei na cama. O vestido ainda colado ao corpo, o coração batendo como um tambor. Eu tinha um noivo. Um casamento. E ninguém teve a coragem de me dizer. Não me perguntaram o que eu queria. Não me avisaram. Não me prepararam emocionalmente. Apenas cuidaram da minha aparência. Me maquiaram como uma boneca. Me prepararam como uma oferenda. Minha vida, mais uma vez, não me pertence. E amanhã... eu vou olhar nos olhos do homem que meu pai escolheu pra mim. E vou descobrir se ele é minha salvação — ou minha sentença
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