ÁRIA BLANC
Eu não tinha nem um dia de viagem e já estava sendo ameaçada. Além dos meus pais já estarem falando em casamento, eu achava que as coisas não poderiam piorar.
Eu não ia mostrar isso a eles. Tornaria tudo insuportável. Eles teriam apenas uma frota de guarda-costas me seguindo pela cidade. Eu já estava reclamando da quantidade de guarda-costas que eu tinha, com o tiroteio que acabou de acontecer, se eu mostrasse essa mensagem a eles, estaria vendendo minha liberdade.
Eu tinha que manter isso em segredo, mas também tinha que ter cuidado. Não sei de quem era a mensagem, mas era óbvio que o mentor do ataque a enviou. Poderia ser minha arqui-inimiga, Jessie? Eu não tinha tanta certeza, e se outra pessoa estivesse por trás disso?
Estava claro como o dia que meu retorno a este país não agradava a ninguém. Jessie era uma dessas pessoas, mas não acho que ela fosse ousada o suficiente para fazer isso quando todos na família sabem da nossa rivalidade. Ela poderia facilmente se meter em encrenca.
Então quem poderia ser?
A Itália não era para mim, mas meus pais simplesmente não me deixaram ficar nos Estados Unidos. Foi lá que passei os melhores momentos da minha vida.
Suspirei enquanto me levantava da cama e ia até a janela. Fazia muito tempo mesmo. Lembro-me de quando eu costumava sentar perto desta janela e desejar que minha vida fosse melhor e que eu pudesse viajar pelo mundo sem meus pais me ligando a cada segundo, como se eu fosse uma criança. Engraçado como o tempo voa.
Inclinei-me para a janela e olhei para fora; já estava escuro. Imagino que meus familiares já teriam ido para seus respectivos quartos ou se reunido em algum lugar para discutir, mas eu não me importava. Eu só queria ficar sozinha.
Pelo canto do olho, algo me chamou a atenção, como se algo estivesse se movendo nos arbustos. Havia um jardim perto da minha janela. Tentei focar a visão porque geralmente tinha dificuldade para enxergar à noite, e eu odiava óculos.
Quando meus olhos avistaram o que estava escondido nos arbustos, rapidamente cobri minha boca para não fazer nenhum som, mas eu já tinha sido avistada.
Observei algo, ou melhor, alguém, surgir de trás dos arbustos. A pessoa estava com uma máscara cobrindo o rosto, o que me impedia de ver direito. Ela apontou dois dedos para mim como se fosse uma arma, depois fez um gesto de atirar e soprou os dedos antes de desaparecer, correndo.
Fiquei chocada demais para falar: será que eles tinham mesmo segurança aqui? Como diabos tudo isso estava acontecendo se meu pai dizia que fazia tudo da melhor forma?
Sem nem pensar, corri escada abaixo.
— Mãe! Pai! Mãe! — gritei, desesperada.
— Querida, o que houve? — disse minha mãe, preocupada, enquanto corria até mim.
— O que aconteceu? — meu pai perguntou, pegando minha mão e me fazendo sentar.
— Preciso voltar para a América. Preciso ir embora.
— Aleluia! — disse Jessie, com aquele tom irritante. Eu nem sabia quem a convidara para isso. Quando e por que todos os meus parentes vieram aqui? Chamei pelos meus pais, não por eles. O olhar que minha mãe lançou a fez calar-se instantaneamente.
— Não se trata do que discutimos, certo? — perguntou minha mãe, franzindo a testa.
— Mãe, eu não estou neste país há nem um dia e alguém já me quer morta. Eu deveria voltar para os Estados Unidos porque lá eu tive paz e ninguém estava atrás da minha cabeça. Como você quer que eu durma bem ou fique neste país?
— É exatamente por isso que queremos que você se case com alguém de uma família respeitável. Alguém que possa protegê-la. — afirmou meu pai.
— Isso pode ser evitado se vocês me deixarem voltar para os Estados Unidos — insisti.
— Concordo com ela nisso — disse Jessie novamente.
— Você pode ficar quieta?! — minha mãe e eu dissemos ao mesmo tempo. Jessie levantou as mãos em sinal de rendição. Isso era entre meus pais e eu. Ninguém os convidou para se meter aqui.
Todos foram dispensados e voltaram para seus quartos. Eu não poderia estar mais feliz por finalmente estar longe deles.
— Querida, esqueça isso. Você deveria estar descansando. Não deixe que isso te incomode muito. Seu pai e eu não deixaríamos nada acontecer com você — minha mãe disse, enquanto esfregava meu queixo carinhosamente. Ela não sabia o que eu tinha visto pela janela.
Eles não entenderiam. Não eram eles que estavam recebendo ameaças apenas um dia depois de voltar para casa.
— Vá descansar. Conversamos mais amanhã — disse meu pai.
Sem querer discutir mais, voltei para o meu quarto. Certifiquei-me de que a janela estava bem fechada, de forma que ninguém pudesse entrar. Eu só esperava não receber mais visitas indesejadas.
Eu não conseguia dormir. Minha mente dizia que alguém estaria me observando se eu fechasse os olhos. Eu estava paranoica, mas não conseguia evitar. Quem quer que fosse o responsável por aquele tiroteio ficaria muito feliz com o efeito que teve em mim, que me tirou o sono.
Como não conseguia dormir, levantei-me da cama para pegar uma bebida. Era tarde, mas eu não me importei.
Olhei meu celular para ver algumas mensagens das minhas amigas. Elas não paravam de me provocar.
Abri a garrafa de uísque, mas não consegui beber. Não ia mudar nada; meus problemas continuariam lá. Apenas um dia na Itália… apenas um dia. Era um sinal claro de que eu não era bem-vinda ali.
Mas, pensando bem, esta era a terra do meu pai, e ninguém podia decidir onde eu deveria ou não estar. Por mais que eu não quisesse estar na Itália, ao mesmo tempo, não ia deixar ninguém me assustar. Eles poderiam fazer o que quisessem, mas eu nunca me acovardaria como eles querem. Eu não sou covarde.
Com esse pensamento, voltei para a cama. Para lutar, preciso de força, e isso significa dormir o suficiente.
Amanhã é outro dia de luta.
Ária Sophia Blanc não desiste.