ÁRIA BLANC
— Não é ótimo conhecer o amor da sua vida aqui? — ouvi Oliver perguntar provocativamente enquanto eu saía dos meus pensamentos.
Oliver sempre zombava de mim por eu ter sentimentos ocultos por essa aberração, mas ele estava completamente enganado.
Eu podia sentir os olhares em mim e sabia exatamente a quem eles pertenciam, mas eu não dava a mínima para isso, ele podia ficar me encarando o quanto quisesse.
— Oliver, é um prazer vê-lo aqui — Um dos sócios de Oliver disse enquanto apertava sua mão e depois se virou para mim. — E quem é essa moça encantadora que está com você? — Sorri para ele enquanto pegava sua mão que estava estendida em minha direção para um aperto de mão.
— Esta é minha melhor amiga, Ária Blanc — disse Oliver enquanto o homem erguia as sobrancelhas, parecendo não acreditar nele.
— Bem, isso é algo diferente dos tipos habituais que você traz aqui.
— Concordo com você nisso — disse Oliver enquanto eles começavam a conversar sobre o que quer que os empresários estivessem falando, enquanto eu apenas tomava um gole do meu vinho.
Uma coisa da qual eu tinha orgulho no meu melhor amigo era que ele era trabalhador. Embora viesse de uma família rica, o crescimento dos seus negócios se deu por meio do seu trabalho duro. Mas muitas pessoas têm a ideia de que tudo o que ele tem foi passado de geração em geração. Elas também tinham a mesma ideia sobre mim, não que eu me importasse.
— Já volto — sussurrei para Oliver enquanto o deixava para ir procurar o banheiro.
— Com licença, por favor... — eu disse a uma das garçonetes que carregava uma bandeja de bebidas. Ela parou e se virou para mim, tomando cuidado para não virar as bebidas que estava carregando.
— Sim, senhora, como posso ajudá-la? — ela me perguntou com um sorriso educado.
— Por favor, onde fica o banheiro mais próximo aqui? Parece um lugar muito grande.
— Ah, senhora, você só precisa subir as escadas e virar à esquerda. Você verá o banheiro. Não é difícil de localizar.
— Ok, obrigada, querida. — Ela voltou ao que estava fazendo enquanto eu subia as escadas, como ela havia instruído.
Quando virei à esquerda e comecei a ir em direção ao banheiro, conforme ela me disse, senti meu telefone vibrar como se eu tivesse acabado de receber uma mensagem ou uma chamada, então abri minha bolsa para pegar o telefone.
De repente, esbarrei em alguém, ou talvez em uma parede, porque aquele corpo parecia grande e eu sabia que não era o corpo de uma mulher.
— Sinto muito, foi mäl — pedi desculpas imediatamente, sem olhar ainda para o rosto do estranho com quem trombei, tão concentrada que estava em tirar o celular da bolsa sem olhar para a frente. Ele era alto, meu rosto estava colado ao seu peito.
— Você sempre teve o péssimo hábito de esbarrar nas pessoas, isso não é novidade. — Imediatamente me afastei da proximidade que tínhamos e o encarei. Sempre que estávamos sozinhos, significava que um de nós estava procurando uma maneira de matar o outro.
— Você está tão desesperado para ser notado que tem que me seguir até aqui? — perguntei a Rafael, cruzando os braços e com os olhos fuzilando-o.
— Não se iluda, sua presença aqui me repugna e pretendo ficar o mais longe possível de você. Você me irrita. — Tive que piscar diante do insulto.
— Com licença, o que te faz pensar que eu quero ter algo a ver com alguém como você? Você, mais do que ninguém, deveria saber disso. — Vi algo perigoso brilhar em seus olhos e, por um momento, fiquei assustada, mas reprimi esse medo. Ele pediu por isso.
— Deixa eu te dizer uma coisa, você não passa de uma perda de tempo. — Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se afastou. Quem diabos ele pensa que é? E por que eu me dei ao trabalho de ficar aqui ouvindo ele despejar toda aquela bobagem para mim? Agora ele acabou de estragar a minha noite.
Abri a porta do banheiro, fechando-a com estrondo, descontando minha raiva na pobre porta.
Olhei-me no espelho e, se eu fosse um personagem de desenho animado, sairia fumaça da minha cabeça de tanta raiva. Ele achou que aquilo tinha acabado, mas eu me vingaria.
A razão pela qual nos odiávamos era clara: eu o intimidava no ensino médio porque eu era a garota popular da época, e Rafael tinha uma queda boba por mim, mas eu o recusei quando ele veio me convidar para ser sua acompanhante no baile de formatura. Eu o chamei de aleijado, ele estava em uma cadeira de rodas, pelo amor de Deus, e por que ele achou que eu iria com ele?
Como eu disse, eu era uma garota má naquela época, mas agora mudei. Bem, para outras pessoas, não para ele. Na escola, todo mundo falava pelas minhas costas sobre como um garoto aleijado veio me convidar para sair.
Daí em diante, nos odiamos, nunca mais cruzando o mesmo trecho, nem mesmo depois que ele conseguiu andar novamente. Nos tornamos inimigos para o resto da vida.
Apliquei mais batom e tirei o telefone do bolso, que começou a tocar novamente. Era uma ligação da minha mãe. Eu não estava com vontade de falar com ela, então simplesmente ignorei a ligação.
Pensei em sair e dizer ao Oliver que queria ir para casa e não queria mais ficar ali por causa da raiva que sentia, mas decidi não fazer isso. Era isso que ele queria. Se ele odiava minha presença, eu poderia muito bem ficar para irritá-lo ainda mais.
Olhei no espelho uma última vez antes de sair pela porta e descer as escadas.
— Sabe, por um momento eu quis subir lá e te procurar. Por que demorou tanto? — perguntou Oliver assim que me viu.
— Encontrei um dos meus arqui-inimigos. Você sabe que estou começando a sentir que meus inimigos são meus maiores fãs, eles me seguem por toda parte.
— Você encontrou o Homem-Formiga? — ele me perguntou, tentando esconder o sorriso como se estivesse achando a situação engraçada. Não havia nada de engraçado. Um dia desses eu sabia que iria para a prisão por matar alguém, pois as pessoas estavam me dando nos nervos.
O jantar continuou sem nenhum sinal dele e eu não poderia estar mais feliz. Eu sabia que ele não estava mais na sala porque parei de ter aquela sensação de que alguém queria me enfiar uma faca nas costas.
Como não suportávamos nos ver, um de nós teve que ir embora. Ainda bem que não fui eu.
Quando a festa acabou, entramos no carro e fomos para casa. Oliver teve que me deixar primeiro antes de dar meia-volta e ir embora, devo acrescentar, com meu carro.
Assim que entrei em casa, fui recebida pela minha mãe, que parecia ter virado o corredor mil vezes de impaciência.
— Mãe, o que houve? — Ao ouvir minha voz, ela imediatamente se virou para mim.
— Ária, estou tentando falar com você, mas você não atende minhas ligações. — O que era tão urgente que ela não me deixou voltar para casa antes de conversarmos sobre isso?
— O que houve? — repeti a pergunta.
— Alguém está aqui para ver você. — Antes que eu pudesse perguntar quem era, ela já tinha pegado minha mão e estava me arrastando para a sala de estar.
— Mãe, vá mais devagar.
— Seu futuro marido está aqui para vê-la. — Parei.
Isso é algum tipo de piada ou algo assim? Quando pensei nisso, olhei para onde meu pai estava, com um homem de costas para mim. Ambos estavam envolvidos em uma conversa séria.
De repente, os dois se viraram para mim e meu coração parou.
Eles só podem estar brincando comigo.