A ciprofloxacina eliminou a infecção do meu corpo, mas não há antibiótico que cure as feridas que o nosso relacionamento quebrado deixou.
Basileia, Suíça
Margareth
É fim de semana e, em vez de estar descansando, estou em frente à bancada da minha cozinha, olhando tudo com frustração. Há uma hora decidi fazer uma sobremesa para Samuel como agradecimento por ter me acompanhado ontem à noite. Não é muito, mas depois de tudo o que ele fez por mim, sinto que o mínimo que posso fazer é preparar algo especial para ele. Abro o meu laptop na cozinha e procuro receitas para pessoas com diabetes.
— Bolo de baunilha sem açúcar. Leio em voz alta enquanto seleciono a primeira opção que parece simples.
Me armo com todos os ingredientes e coloco a mão na massa. A farinha é misturada com o fermento em pó, os ovos são batidos até atingir uma textura suave, e a baunilha impregna o ar com o seu aroma quente. Tudo parece ir bem até chegar a hora de testar a primeira mistura da massa. Faço isso com esperança, mas o sabor é... decepcionante. É insípido, seco, e nem a baunilha consegue salvá-lo.
Frustrada, jogo-o no lixo e começo de novo. A próxima receita é diferente, ou pelo menos espero. Desta vez, misturo a massa com mais cuidado, medindo cada ingrediente com precisão. Quando o bolo sai do forno, parece promissor. Mas ao cortá-lo, a textura é muito densa, e o sabor continua... pobre. Outro fracasso. Outro bolo que vai para o lixo.
— Tinha que ser diabético? Reclamo.
Não sei quanto tempo já se passou, mas o barulho do lixo abrindo e fechando deve ser uma prova de como sou perfeccionista. Tento manter a calma. No entanto, cada tentativa fracassada aumenta a minha frustração. Samuel merece algo perfeito, algo que o faça sentir que eu realmente aprecio o que ele fez por mim. Não posso entregar-lhe algo medíocre.
Finalmente, encontro uma receita que promete ser a certa. Bolo de baunilha, de novo, mas desta vez com alguns ajustes que podem fazer a diferença. A minha cozinha parece um campo de batalha, com farinha espalhada por todo lado e utensílios acumulados na pia. No entanto, não me importo. Estou decidida a fazer isso direito.
Misturo os ingredientes novamente, desta vez com mais cuidado, e coloco o bolo no forno. Enquanto cozinha, preparo a mistura para o bolo três leites sem açúcar: leite evaporado, leite condensado sem açúcar — que por alguma razão eu tinha — e creme de leite. A mistura fica macia, cremosa, e quando provo um pouco, sorrio satisfeita. Isso poderia funcionar.
O aroma do bolo enchendo a cozinha me dá um pouco de esperança. Quando o tiro do forno, a textura é fofa, e ao cortar um pedaço, ele esfarela suavemente. Mergulho-o nas três leites, observando como absorve a mistura lentamente, garantindo que fique magnífico.
Depois de algumas horas na geladeira, o bolo está pronto. Decoro-a com morangos fatiados e um pouco de creme sem açúcar, e olho para ela com orgulho. Não é apenas uma sobremesa, é a minha forma de dizer "obrigado", de mostrar que o apoio dele significou muito para mim. Espero que Samuel sinta isso quando eu entregar este bolo a ele.
Agora, só resta esperar o momento certo para entregá-lo. E ele chega logo, porque ouço o som da porta dele abrindo e depois fechando. Sei que é ele porque o senti sair cedo. Não é como se eu estivesse de olho nele nem nada do tipo, foi pura coincidência.
Pego o recipiente, encho-me de coragem e saio de casa para bater na porta dela. Toco a campainha e, em segundos, ele abre.
— Olá. Ele cumprimento.
— Olá.
— Eu... fiz algo para você por ter me acompanhado ontem à noite. É simples, mas espero que você goste.
— Eu te disse que sou diabético.
— Eu sei, levei isso em consideração. É sem açúcar, prometo que não estou tentando te matar. Ele eleva uma sobrancelha diante da minha tentativa de piada.
Ele se afasta, convidando-me a passar, o que não demoro em fazer. Analiso a sua casa. A sua distribuição é semelhante à minha, embora difira na decoração, pois, enquanto eu tenho coisas rosas espalhadas por aí, a sua casa é organizada e não há nada colorido.
Samuel caminha para a cozinha e eu o sigo. Deixo o recipiente na mesa enquanto ele tira pratos e uma faca. Me dá este último, então distribuo as porções. Ele faz um gesto para que eu me sente e ele faz o mesmo. Quando ele dá a primeira mordida, espero pacientemente a sua opinião, mas ele dá outra e eu não aguento mais.
— Está bom?
— Gostei, não me lembro da última vez que provei algo assim. Obrigado.
— É o mínimo que posso fazer depois do que aconteceu ontem à noite.
— Você tem alguma notícia dela? Ele pergunta sem parar de comer.
— Meu pai mandou uma mensagem. Disse que darão alta a ela e que um psiquiatra irá vê-la em casa.
— Não quero ser imprudente, mas não pensaram em interná-la?
— Para ser honesta, não. Papai se recusa a se separar dela, assim como meu irmão.
— Compreendo. Ele diz.
E isso basta para encerrar o assunto. Ao terminar de comer, deixo o recipiente com o restante da sobremesa, despeço-me novamente e saio em direção à minha casa. Assim que abro a porta, o meu celular toca anunciando uma mensagem recebida; não conheço o remetente.
Estranho: Um passarinho me deu o seu número. Você gostaria de fazer algo à tarde?
Eu: Quem fala?
Estranho: Me sentiria ofendido, mas depois lembro que nunca te dei o meu número e muito menos te pedi o seu. Sou eu. O Conrad.
O meu coração acelera e um sorriso se planta no meu rosto ao saber que é ele.
Conrad: Então, vamos sair?
Eu: Sim, onde você quer ir?
Conrad: Vamos comer hambúrgueres.
Eu: A que horas?
Conrad: Dê-me o seu endereço, passo para buscá-la em vinte minutos.
Contenho o grito emocionado que quer escapar da minha garganta. Dou o meu endereço e depois corro para o meu quarto para trocar de roupa. Está um pouco frio, então me visto com um jeans, botas e um suéter quentinho. Maquio-me um pouco, prendo o cabelo num r**o de cavalo baixo e pego na minha bolsa antes de sair de casa.
Quando saio do prédio, vejo o carro do Conrad estacionado. Trotei em direção a ele e abro a porta do passageiro.
— Olá. Cumprimentei-o ao entrar.
— Olá, Margareth.
Conrad se inclina e deixa um beijo na minha bochecha, que cora. Arranque o veículo, que já estava em funcionamento, e nos leva até aquele restaurante que ele tanto gosta. Durante todo o trajeto, ele me conta coisas do trabalho e o quão atarefado se sentia.
— Como foi seu dia?
— Ah, foi bom. Tentei uma receita nova. Comentei, omitindo o incidente com a minha mãe.
— Espero ter o prazer de prová-la.
— Foi uma sobremesa sem açúcar, adequada para diabéticos.
— Melhor não. Você faz sobremesas deliciosas, mas não acho que chegue ao ponto de me fazer provar uma sem açucar.
É inevitável não baixar o olhar para as minhas mãos que se contorcem entre si. O seu comentário pode ter sido sem sentido, mas para mim significa muito. E se ele estiver certo? E se Samuel o comeu por obrigação? Não sei, ele parece um homem honesto. Ele me diria se não tivesse gostado, mas...
— Chegamos. A voz de Conrad me tira dos meus pensamentos.
A ilusão de vir com ele começa a se apagar um pouco; já não me sinto tão confiante como quando entrei no carro.
Conrad sai do carro e eu faço o mesmo. Quando entramos no local, ele me pega pela mão e me leva a uma mesa vazia. Puxa a cadeira para mim e depois senta-se em frente a mim. A garçonete aparece, e Conrad pede por nós dois sem nem mesmo me perguntar se eu queria algo.
Por que ele se comporta dessa maneira?
— Eu poderia ter querido algo diferente. Digo.
— O pouco que conheço de você mostra que você é previsível. Você tem uma rotina estabelecida e se apega a ela. Parte do meu trabalho é estudar as pessoas, estou errado?
— Não sei.
— Eu pensei isso. Ser previsível não é rui*m, só me torna mais fácil te conhecer. Vou tirar toda a vantagem que puder quando se trata de te conquistar.
— Espera, o quê?
— Ser seu amigo é o primeiro passo, e não me contentarei com isso. Quero ser mais do que isso, Margareth.
Eu, de todas as mulheres, chamo a atenção deste homem. E pela primeira vez em todo o dia, sinto que fiz algo certo.