"Apego-me à calma artificial que o diazepam me oferece, mas sei que não há pílula que possa silenciar a tempestade que ruge dentro de mim."
Basileia, Suíça
Margareth
O meu celular toca no meio da madrugada, um presságio de que algo está errado. Miro a tela iluminada por alguns segundos antes de me encher de coragem e pegá-lo. O nome do meu irmão me dá arrepios, e com um suspiro, deslizo o botão verde com o dedo.
— Por tudo o que é sagrado, Maggie! Ele brama quando respondo. — Você não pode simplesmente nos ignorar assim.
— O que está acontecendo, Nathan?
— É a mamãe, ela... Ele não termina a frase. — Estamos no hospital.
— Estou indo para aí.
A tropeços, troco o pijama por roupa de sair, coloco na bolsa tudo o que preciso e saio de casa com tanta pressa que as minhas chaves caem no chão, fazendo uma bagunça no corredor silencioso. As minhas mãos tremem demais e, após várias tentativas de colocar a chave na fechadura, tenho que me encostar na porta para respirar por alguns segundos e me acalmar.
— O que está acontecendo? Identifico a voz de Samuel atrás de mim.
— Nada, lamento o barulho. Viro-me e dou um meio sorriso para ele. — Te acordei? Que vergonha, eu tenho que ir.
Volto a minha atenção para a m*aldita porta que se recusa a fechar quando de repente sinto a presença de Samuel atrás de mim.
— Não vai fechar se você não se acalmar, o que indica que algo está errado. Tira-me as chaves das mãos e fecha-a por mim. — Onde quer que você vá, não pode fazer isso nesse estado.
— Vou para o hospital, vou ficar bem. Dou um passo em direção ao elevador, mas ele me impede.
— Deixa-me pegar as minhas chaves, eu te levo.
— Não, vou parar um táxi.
— Não foi uma pergunta. Ele diz em tom áspero.
Fico de pé no meio do corredor enquanto ele entra no apartamento e sai em segundos com os sapatos calçados e as chaves na mão. Feche a porta e depois entramos no elevador. Descemos em silêncio, e assim continua até que ele abre a porta do passageiro do carro para depois entrar do lado do motorista.
— Para o hospital central? Ele indaga.
— Sim, por favor.
Ele concorda. Ligue o veículo, saia do estacionamento e nos leve até o endereço que lhe indiquei. Estou completamente parada no meu assento, temo que se eu me mexer, causarei incômodo ao homem ao meu lado. Isso e também o fato de eu não saber o que aconteceu. Será que a mamãe morreu? Não acho, Nathan teria me dito.
Ela está bem, não vai embora. Não vou perder mais ninguém. Repito para mim durante todo o trajeto.
— Chegamos. Anuncia Samuel.
— Ah, me distraí. Desaboto o cinto e abro a porta para sair. — Obrigado por me trazer e peço desculpas novamente por ter te acordado.
— Já te disse que você não me acordou, trabalho como desenvolvedor de software e costumo ser mais produtivo à noite.
— Ah, entendo. Da mesma forma, obrigado.
Saio do veículo e caminho em direção à entrada, mas paro quando as lembranças de cinco anos atrás me invadem. Foi neste mesmo hospital que meu irmão morreu. Como se supõe que eu entre sem ficar paralisada de dor? Não sei quantos minutos fiquei ali, mas de repente sinto uma mão no meu ombro e, ao levantar os olhos, vejo-o.
— Pensei que você tinha ido embora. Sussurro.
— Vi que você estava ficando aqui sem fazer nada, não podia ir embora como se nada tivesse acontecido.
— Entrarei, em algum momento. É só que... Os meus olhos se enchem de lágrimas e um soluço fica preso na minha garganta. — Meu irmão morreu aqui.
— Sinto muito. Ele murmura. — Posso entrar com você se você não se importar.
Pesei a sua sugestão por alguns segundos e acabei concordando. Ele coloca a mão no meu cotovelo e me guia para dentro do hospital. Aproximamo-nos do balcão da área de urgências e, depois de dar o nome da minha mãe, a enfermeira diz-me que ela foi internada e está no terceiro andar.
Subimos pelas escadas e, ao olhar para a direita, vejo meu pai e meu irmão sentados na sala de espera. Afasto-me de Samuel para ir até eles, embora sinta a presença do gigante atrás de mim.
— Maggie. Ele sussurra papai quando me vê.
Ele se levanta e me dá um abraço forte, que eu retribuo; senti falta dele. Ao nos separarmos, é meu irmão que me envolve com os seus braços.
— O que aconteceu com a mamãe? Pergunto depois de nos cumprimentarmos.
— Desde que você foi embora, as coisas não têm sido fáceis. Papai e eu não estamos com ela tanto tempo quanto gostaríamos, e embora Fiorella cuide dela, não é a mesma coisa.
O sentimento de culpa me invade. Sei o que ele quer dizer, e se a intenção dele era me fazer sentir m*al, ele conseguiu. Papai só abaixa o olhar. Ele concorda com o que meu irmão diz.
— Sinto muito, mas não podia ficar lá. Rebato.
— Ir embora foi uma decisão egoísta! Precisamos de você em casa. Ele berra.
Ele nunca tinha levantado a voz para mim, então a minha primeira reação é recuar, sem perceber que estou batendo numa parede de músculos. Ao levantar o olhar, deparo-me com o rosto esculpido de Samuel, cuja atenção está centrada nos meus parentes.
— Não sei o que aconteceu, mas isso não te dá o direito de levantar a voz para a sua irmã. Seja o que for, ela não tem culpa, não descarregue nela.
— E você, quem é? Nathan levanta o queixo num gesto de altivez.
— Um amigo.
Nathan abre a boca para resmungar, mas o pai coloca uma mão no ombro dele e isso basta para calá-lo.
— Sinto muito por tudo isso, filha. Papai se desculpa. Eu estava na cozinha preparando o jantar, deixei a sua mãe sem supervisão e ela teve acesso à medicação dela. Quando voltei para o quarto, ela estava caída no chão com espuma saindo da boca.
— Oh, Deus... Ofego.
— Trouxemos ela a tempo, fizeram uma lavagem e o médico garante que ela vai se recuperar. Ainda assim, ela deve ficar em observação esta noite.
A culpa dentro de mim só faz aumentar. Como é que tudo o que eu faço acaba m*al? Por que eu não posso ser a que carrega o peso de tudo, sem que a minha família seja afetada?
— Vão para casa descansar, amanhã vocês trabalham. Olhei para os dois. — Vou ficar para cuidar da mamãe e ouvir as recomendações do médico.
— Filha…
—Vá, pai. Eu me encarrego.
Nathan não diz nada, mas pega as suas coisas e sai sem me olhar. Entretanto, papai me olha com pena, também pega as suas coisas e vai embora.
É só depois que eles vão embora que me lembro que tenho companhia. Viro-me para olhá-lo e noto que ele já está com a atenção voltada para mim, presumo que com um milhão de interrogações, as quais não tenho certeza de ser capaz de responder.
Sento-me na primeira poltrona que vejo e ele senta-se ao meu lado. Deixo escapar um suspiro antes de falar: você não deveria ter presenciado essa conversa.
— Por que você deixa que te tratem assim?
Se eu lhe disser a verdade, isso mudará a forma como ele me vê? Suponho que só saberei se for sincero com ele. Também não é como se devesse me importar com a opinião dele. Ou seja, ele foi gentil, mas eu m*al o conheço. Em vez disso, se fosse o Conrad... melhor não ir por aí. Não suportaria que ele me visse como uma assassina.
— Porque eles têm motivos para fazer isso. Meu irmão mais novo está morto por minha culpa, e por isso a depressão da mamãe piorou. Saí de casa sabendo que precisavam de mim, e olha como acabou.
Samuel fica em silêncio por um momento, o seu olhar fixo no meu, como se estivesse avaliando cada palavra que eu disse.
— Olha, não vou te dar uma versão açucarada. A culpa é um veneno que você está se forçando a engolir todos os dias, mas não está fazendo bem nem a você, nem a ninguém. O que aconteceu com seu irmão é uma tragédia, sim, mas você não pode continuar carregando toda a responsabilidade. Você não é uma assassina, e a sua mãe não está melhor porque você se martiriza. No final do dia, se você continuar vivendo no passado, não conseguirá avançar, e ninguém, nem você, nem sua família, vai se curar assim.
Inclina-se para a frente, a voz mais baixa, mas firme.
— Você tem que se perdoar, não porque merece ou não, mas porque é a única coisa que permitirá que você siga em frente. A culpa só está te acorrentando, e se você continuar assim, acabará se destruindo e perdendo qualquer oportunidade de encontrar a paz. Pode ser um golpe baixo o que vou te perguntar, mas você acha que seu irmão ficaria feliz em ver o que você está fazendo consigo mesma?
— Eu... Fico em silêncio ponderando as suas palavras.
Sei que ele tem razão, sinto isso no fundo da minha alma, mas não é simples deixar ir esse sentimento que me acompanha há tantos anos.
Samuel interpreta meu silêncio como resposta, assente e recosta-se no banco. Imito a sua ação, grata por não ter que fazer isso sozinha, mesmo que seja um estranho que me acompanhe.