Episódio 5

1471 Words
Tomei paracetamol para aliviar a dor física, mas ainda não há remédio que cure a dor no meu coração. Basileia, Suíça Margareth Empacoto as porções de bolo de cenoura que preparei na noite anterior. Passei mais de quatro horas aperfeiçoando a receita até ficar satisfeita com o resultado. Tanto é assim que fiz uma versão saudável para Joelle porque ela ama todas as sobremesas, palavras dela, não minhas. No entanto, a de Conrad é especial, uma receita feita só para ele. Saio de casa com as minhas bolsas penduradas nos ombros, olho para a porta fechada do meu vizinho, dou alguns passos e deixo a cesta na entrada dele. Coloquei algumas preparações que tinha em casa junto com um bilhete de desculpas pela minha falta de jeito. Agora que estou com as mãos livres, fecho a porta atrás de mim, bato na porta de Samuel e saio correndo para o elevador porque não quero vê-lo. Bo*ba? Talvez. Já passei vergonha uma vez, não quero que se repita mais. O lugar onde moro agora fica mais perto do meu trabalho, então em menos de vinte minutos estou lá. Depois de cumprimentar os guardas de segurança, abro a minha estação de trabalho e, como todas as manhãs, preparo-me para começar os preparativos. Estou colocando a mistura dos muffins de mirtilo na bandeja quando ouço alguém batendo no balcão. Deixo o que estou fazendo e saio para encontrar uma mulher baixinha, talvez alguns anos mais velha que eu. O seu cabelo é preto e ele tem um sorriso afável no rosto. — Olá, em que posso ajudá-la? Pergunto, dado que ela não traz nada que a identifique como funcionária da empresa. — Você é a Margareth? Assinto à sua pergunta. — Serei sua nova assistente, o meu nome é Caroline Mitchell. Levanto uma sobrancelha, o seu nome e sotaque são indícios de que ela não é daqui. — Muito prazer e bem-vinda. Aproximo-me dela para apertar a sua mão. — Já estava precisando de uma ajudante. — Estou pronta para começar. Diz ela. Eu me afasto e permito a sua entrada. Levo-a até a parte de trás para que ela possa deixar as coisas lá e então começo a dar-lhe uma introdução sobre o manuseio das máquinas e o funcionamento de tudo em geral. — Você tem alguma dúvida? Pergunto a ela ao terminar. — Não, tudo ficou claro. Você explica muito bem. — Perfeito, abrimos em... Olho para o meu relógio para verificar a hora. — Dez minutos, vamos terminar de organizar os preparativos para que seja mais fácil despachar. — Tudo bem. Com as mãos extras de Caroline, o trabalho rende mais. Quando dão oito horas em ponto, chegam as primeiras pessoas. Caroline anota os pedidos enquanto eu os entrego com um sorriso no rosto. Apesar de ter dormido quase nada, estou de bom humor. Suponho que isso esteja relacionado a certo homem que acaba de aparecer na minha frente. — Bom dia, Margareth. Cumprimenta Conrad. — Bom dia. Retribuo a saudação com as bochechas coradas. — A sua manhã está indo bem? Vejo que você tem uma nova ajudante. Ele acrescenta. — Eu tenho. E sim, a minha amanhã está indo bem. Ele se inclina um pouco na minha direção e eu inevitavelmente aproximo-me mais. — A minha também, deve ser por causa do bom jantar que tive ontem à noite. O meu coração dá uma cambalhota, as minhas mãos umedecem e a minha boca abre e fecha repetidamente, buscando algo coerente para dizer. — Parece que te deixei sem palavras. Ele zomba. — Dê-me um café como eu gosto, por favor. — Claro. Digo assim que me recomponho. Sirvo o café numa xícara para depois me inclinar e pegar a porção da sobremesa que preparei para ele. A embalagem é semelhante à que usamos aqui, assim não levantarei suspeitas. — Eu não... — É especial, espero que goste. Interrompo-o. — Tenho certeza que será assim. Alguém pigarreia atrás dele, quebrando o momento. — Nos vemos depois. Forço-me a voltar a minha atenção para os outros clientes enquanto ele vai registrar o pedido com a minha nova ajudante. Estou pensando que ninguém mais vai se aproximar por enquanto quando vejo Joelle entrar correndo, de salto alto, e quase bater no balcão. — Salve-me! Ela grita, chamando a atenção dos que ainda estão por perto. — Deitei-me tarde terminando um relatório, esta manhã o alarme não tocou e agora estou atrasada, mas não consigo subir sem as tuas adições. O que você tem para mim hoje? Surpreende-me que consiga falar entre soluços. — Tenho o que você precisa. Envaso o café dela e lhe entrego a outra porção de bolo. — Me conta depois se você gostou. — Prometo. E tão rápido quanto chegou, ela foi. O último cliente vai embora, e quando Caroline termina o pedido dela, eu me aproximo dela. — Tudo bem? Pergunto. — Foi simples, este parece ser um trabalho dos sonho. Ela até suspira. — É. Costuma ser agitado nas manhãs e depois do almoço, mas o resto do tempo passa voando. Acompanhe-me, precisamos limpar tudo e preparar mais coisas. — Sim, chefe. — Só Maggie. Corrijo ela. Ela promete me chamar assim enquanto me segue para dentro da cozinha. Caroline se oferece para limpar enquanto eu preparo alguns brownies e biscoitos de gotas de chocolate; quando termino, ela se aproxima de mim para olhar e, notando o seu interesse, começo a explicar. Num determinado momento, ela corre para buscar um caderno para anotar as minhas indicações e conselhos. Uma emoção surge no meu peito, faz tempo que alguém se interessou pelo que eu faço, muito tempo, para ser sincero. — Vou tentar esta noite, amanhã te conto. Ela me diz. — Tudo bem, ajudarei com prazer. Passam-se alguns minutos antes que ela volte a falar. — Aquele homem de antes, o que se inclinou para você, é seu namorado? E lá vou eu de novo, a esse ritmo serei mais um semáforo da rua. Acaso as minhas bochechas não conhecem a discrição? Elas sempre ficam vermelhos com cada coisa que me deixa envergonhada ou tímida. — Não, ele é meu amigo. Respondo. — Ah, pareciam ínti*mos, ficam bem juntos. De qualquer forma, não é da minha conta. Fico calada sem saber o que mais acrescentar. Continuamos trabalhando até as três e Conrad ainda não desceu para tomar café. Tenho o impulso de subir até o andar dele, no entanto, me contenho porque isso seria estranho, além de parecer m*al e eu não querer ser um problema para ele. Um pouco tristes, Caroline e eu fechamos o local. Despeço-me dela e caminho para a saída, mas as portas do elevador abrem-se primeiro e paro ao ver o homem que tem estado na minha mente o tempo todo. Um sorriso gigante aparece no meu rosto e dou um passo à frente para me aproximar dele, no entanto, congelo diante da sua expressão irritada. Ele sai do elevador, passa por mim e só me dá um aceno de cabeça antes de sair do prédio. Fico ali de pé, sem entender completamente o que aconteceu. Ele me viu, mas não sorriu de volta, agiu como se não me conhecesse. Eu fiz algo de errado? Ele não gostou do bolo que eu preparei para ele? Perguntas após perguntas surgem na minha mente e nenhuma delas tem resposta. É assim durante todo o caminho de volta para casa, mesmo enquanto abro a porta do meu apartamento. — Ei. Chama-me uma voz profunda. Viro-me para ver meu vizinho, ele tem a cesta desta manhã no braço, o objeto parece de brinquedo de tão grande que é aquele homem. — Sim? Pergunto. — Obrigado pelo detalhe, não precisava. Ele estende a cesta na minha direção. — Você está bem? — O quê? Sim. — Não parece. O seu cenho está franzido, como se algo o incomodasse. — Estou, espero que você tenha gostado. Mudo de assunto. — Suponho que estava bom, não provei. — Por quê? A minha voz não esconde o quão triste isso me deixa. Que as pessoas comam o que eu preparo me enche de uma forma que não consigo explicar, só sei que tem sido assim desde que Renard morreu. — Sou diabético. — Oh, sinto muito. — Não é culpa sua, você não sabia. — Ainda assim, eu... — Boa noite. Interrompe-me. Ele entra no apartamento e fecha a porta atrás de si enquanto eu fico ali, processando o que aconteceu. O que deu nesses homens para agirem estranho hoje? ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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