Episódio 4

1447 Words
Concentro-me nas tarefas para que o tempo passe mais rápido: lavo tudo o que usei, incluindo o forno e a máquina de café. Quando dão quatro da tarde, baixo a grade e cruzo a bolsa sobre o peito. Ao me virar, quase esbarro no peito de Conrad. — Desculpe, não queria te assustar. Diz ele, enquanto suas mãos seguram meus ombros para me equilibrar. — Está tudo bem, estava com a cabeça em outro lugar. Ele me deixa ir quando vê que não vou cair, se coloca ao meu lado e me faz um sinal para começarmos a caminhar em direção à saída. Fazemos isso em silêncio, mas assim que estamos na rua, ele se vira na minha direção. — Gostaria de te levar à melhor hamburgueria da cidade. — Eu... — Diga-me que você gosta de hambúrgueres, por favor. Caso contrário, você não poderá ser minha amiga. De novo ele me tira um sorriso, e não é só porque ele é lindo, mas porque tem um humor leve daqueles que sim ou sim te fazem rir. — Eu adoro hambúrgueres, Conrad. — Bem, prepare-se para que seu paladar exploda. Não diga que eu não te avisei. Rio como resposta, mas não digo nada. A caminho do restaurante, conversamos sobre coisas simples, ele me pergunta como foi minha semana e eu sobre suas reuniões. Em pouco tempo chegamos ao local e ele me abre a porta. Suspiro ao passar por ele, não só cheira muito bem, é expressivo e tem humor, mas também é gentil. Um jogo inteiro. E depois tem eu, simples e com muitos problemas na minha vida. — Onde está a sua mente? A sua voz me tira de minhas lamentações. Só agora percebo que chegamos a uma das mesas vazias. — Desculpe, estava pensando em uma receita. Minto. — Ah, entendo. Ele se apressa em puxar a cadeira para mim e depois senta-se em frente a mim. — No entanto, quero toda a sua atenção para mim, sou um homem exigente. Ele brinca. — Não haverá mais receitas, só você e eu. Respondo, mas coro de tão sugestivo que isso soou. — Sinto muito, não quis... — Fique tranquila, entendi. Ele me interrompe. Para minha sorte, uma garçonete se aproxima para anotar nossos pedidos. Miro a variedade do cardápio, pensando em qual escolher. — Diga-me, o que você me recomenda? — O de queijo é o melhor. Ao retornar a mulher que nos atende, fazemos nossos pedidos e ela se vai, não sem antes nos dizer que não demorará a trazê-los. Conrad e eu nos observamos em silêncio, um silêncio confortável. Analiso os seus traços, assim como ele faz comigo. O que ele vê em mim? Suponho que o meu cabelo e sobrancelhas ruivas, as sardas nas minhas bochechas, meus olhos verdes iguais aos da minha mãe. Além disso, sou normal. M*al meço um metro e sessenta de altura, meu peso está dentro do normal, mas não há nada tonificado em mim. Ele, por outro lado, parece elegante e bonito. Tudo grita luxo, desde a sua barba perfeitamente aparada, seus olhos azuis, seu cabelo ne*gro e não vamos esquecer o quão forte ele parece sob seu terno. Somos um contraste desequilibrado, não há como um homem como ele se interessar por mim. — Você é linda, Margareth. Ele murmura depois de um tempo. — Obrigado, você também. Respondi com as bochechas ardendo. — Obrigada, fico feliz em saber que sou lindo. — Eu... quero dizer que... — Basta, você precisa aprender a interpretar as piadas. E ele começa a rir. — Pensei que um diretor executivo devesse ser mais sério. Eu respondo. — Ei! Queixa-se. — Sou sério quando a ocasião exige, me permito relaxar, senhorita. — Estou vendo isso. E eu adoro porque é como se só eu tivesse o direito de ver a espontaneidade desse homem. Quando trazem os hambúrgueres, ele fica me olhando enquanto eu provo o meu. Deixo escapar um gemido ao sentir o sabor. — Eu te disse. Gaba-se. — Subi ao céu e desci de novo. Digo. — Eu sei. Terminamos de comer entre conversas, ele me fala o quanto trabalhou para chegar à sua posição na multinacional, as coisas que o apaixonam, como esquiar ou ver a paisagem do alto da montanha. Ele me fala que no futuro quer ter filhos, mas que ainda não tem a estabilidade que anseia. Eu permaneço em silêncio, maravilhada com o quão aberto ele se mostra diante de mim, sinto como um privilégio. Ao finalizarmos, ele pagou a conta, recusando-se a que eu contribuísse, e saímos de lá rumo à empresa para que ele pudesse pegar seu veículo. — Apesar de ter colocado um sorriso nos lábios, seus olhos continuam tristes, Margareth. Ele fala antes de chegarmos, pretendo seguir o caminho, mas me detém. — Talvez m(al nos conheçamos, mas, no entanto, sou confiável. Você pode me dizer o que está acontecendo. — Não consigo. Sussurro, um nó se formou na minha garganta, impedindo-me de falar. — Tudo bem. Ele suspira. — Logo você confiará em mim o suficiente para falar sobre o que te aflige. Compartilhar o fardo aliviará sua alma dolorida. — Obrigado, Conrad. — Quando quiser, Margareth. — Pode me chamar de Maggie. Insisto. — Seu nome é muito bonito para ser abreviado, significa pérola. Sabia que é um nome associado à beleza e ao valor, devido à pérola, que é uma gema apreciada pela sua elegância e singularidade? — Não há nada de singular nem elegante em mim. — Nisso você se engana, você é tão valiosa quanto uma pedra rara. Você é única em sua espécie, o tipo de mulher que todo homem merece ter. Me deixa sem palavras, e permaneço assim todo o caminho de volta para buscar o carro dele, também quando ele me leva até minha nova casa e nos despedimos. — Obrigado pelo convite, me diverti muito. — Das melhores noites que tive, obrigado por me honrar com sua presença. Ele se inclina e deixa um beijo em minha bochecha. —Até amanhã. — Até amanhã. Vejo-o ir embora, o meu coração batendo descontroladamente e meu estômago em nó pelas emoções. Não tenho experiência com homens, então não saberia descrever o que estou sentindo. Do que tenho certeza, é que eu gosto, gosto demais. Saio do meu torpor e vou até a loja para comprar os ingredientes da nova receita. Depois, entro no meu prédio e subo no elevador até o meu andar, a sacola de compras é tão grande que cobre a minha visão, por isso não vejo o homem na minha frente até que é muito tarde e estou no chão com tudo espalhado. — Devia ter tido cuidado. Ele diz uma voz grossa e rouca. — Sinto muito! Peço desculpas, embora seja eu quem tenha caído. — Te ajudo. Mãos grandes começam a me ajudar a recolher tudo, continuo com a cabeça baixa de vergonha por ter esbarrado nele. Ao terminar, e sem mais nenhuma desculpa para não olhá-lo, levanto o olhar para ficar congelada diante do espécime que tenho à minha frente. É tão alto que quase toca o teto, deve medir um metro e noventa no mínimo, seu cabelo é castanho escuro, seus olhos são cor de chocolate, sua barba, assim como seu cabelo, tem algumas mechas brancas. — Sinto muito. Peço desculpas novamente, m*al saindo do estupor. — Não tem problema, tome cuidado para a próxima vez. Ele não sorri, mas também não parece incomodado. — Sou Samuel Batz, moro em frente ao seu apartamento. — Sou Margareth Favre, é um prazer. Tento estender a mão, mas a bolsa cambaleia. — Sinto muito. — Você se desculpou três vezes, não precisa fazer isso. — Ah, sim, claro. Balbucio. — Tenha uma boa noite. Ele diz e me olha expectante. Ficamos ali por alguns segundos até que percebo que estou no meio do corredor, obstruindo o avanço dele para o elevador. — Oh, eu sinto muito... Ele eleva uma sobrancelha na minha direção. — Boa noite. Saio do caminho e praticamente corro para a minha porta, estou lutando para abri-la, no entanto, o impulso é mais forte e levanto o olhar bem a tempo de nossos olhos se encontrarem antes que as portas do elevador se fechem. — Isso foi intenso. Digo em voz baixa. Entro no meu apartamento, deixo as coisas sobre a mesa da cozinha e me preparo para fazer o que tenho em mente. Apesar de tudo o que aconteceu, hoje foi um bom dia e Conrad foi a razão pela qual eu melhorei. Ele disse que queria ser meu amigo, mas espero que, se surgir a oportunidade, possamos chegar a algo mais.
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