Episódio 9

1254 Words
E mais meia hora depois, estou me arrependendo de ter vindo. Conrad foi completamente dominado: ele grita, ruge e bebe como os outros. Supostamente, este seria um workshop para preparar cerveja, não uma degustação. Incomodada com ele por me ter trazido a esta situação desconfortável, longe de ser considerada um encontro, pego o meu celular e envio uma mensagem de texto para a única pessoa que pode me tirar desta enrascada. Eu: Você está ocupado? Samuel: Não, por quê? Eu: Estou longe de casa e não tenho como voltar, você pode me buscar? Passaram alguns segundos antes que ele respondesse. Estou a um passo de me desculpar e pedir que ele esqueça quando chega uma mensagem dele. Samuel: Dê-me o endereço. Digo a minha localização e afasto-me da confusão para a rua para que seja mais fácil para ele me ver. Enquanto Samuel não chega, espero que Conrad perceba que eu fui, mas não é assim. O que é decepcionante, será sempre assim? Não demora muito para que eu veja o carro de Samuel se aproximando. Ele sai do carro assim que o para e se aproxima de mim a passos largos. — Você está bem? Ele pergunta. — Sim, lamento ter te feito sair de casa. — Isso não importa. Como você chegou a este lugar? — Vim com um amigo. — E ele te deixou sozinha? — Sim. Tenho certeza de que ele o chama de idi*ota. No entanto, fico em silêncio. Ele me guia até o carro dele e abre a porta do passageiro para mim. Depois ele sobe do lado dele e recua até sair da estrada e pegar a rodovia. Fazemos a viagem em silêncio. Estou envergonhada demais para pronunciar qualquer palavra. Ao chegarmos à nossa residência, subimos até o nosso andar sem dizer nada. Mas não quero ficar calada para sempre e ele merece saber o que aconteceu. Abro a boca quando chegamos às portas dos apartamentos. — Peço desculpas novamente, saí com um homem e, bem... — Não precisa me explicar nada, só seja mais inteligente na hora de escolher com quem você sai. E com isso, ele abre a porta e a fecha na minha cara. Suspiro. Mereço o maltrato da parte dele. Eu também ficaria chateada se tivesse que ir resgatar alguém no meio da noite. Antes de ir para a cama, reviso o meu celular esperando encontrar uma mensagem do Conrad, mas não há nada. Não vou mais sair com ele. ***** Não há nada que acalme o ardor das lembranças que carrego dentro de mim. Basileia, Suíça Margareth É terça-feira de manhã e estou saindo para o trabalho. Assim que chego à empresa e passo pelo filtro de segurança, fico de pé, em choque, em frente ao meu posto de trabalho. Há alguns buquês de flores por perto, e no meio deles está Conrad, com outro buquê nas mãos e uma expressão cheia de culpa. Aproximo-me dele com dúvida, sem saber como interpretar o seu ato. — Isso é pouco para o que você merece, Margareth. Ele sussurra quando estou perto. — Ontem à noite me comportei como um idi*ota, e dizer isso é pouco. Não só te deixei sozinha, como também não percebi em que momento você foi embora. Quis te enviar uma mensagem, mas a vergonha não me deixou. Há alguma forma de eu compensar o meu erro? Fico em silêncio, pois não sei o que dizer. Admito que o gesto é considerado, mas não consigo esquecer tão facilmente o que ele me fez. — Obrigada pelas flores, são lindas. Digo a ele. — Estou perdoado? — Não, foi injusto você não só me levar para um ambiente que não era o meu, mas também me abandonar à minha sorte. — Eu sei e lamento profundamente, Margareth. — É melhor se deixarmos as coisas assim, Conrad. — Não me diga isso, por favor. Ele deixa o buquê em uma das mesas para segurar o meu rosto. — Compreendo que cometi um erro, e por isso lutarei pelo teu perdão. — Não estou pedindo que você lute. — Sei que você não está pedindo isso, sou eu quem quer fazer. — Não sei... — Me basta com isso. Em pouco tempo eu te farei esquecer a minha falta. Ele posa os lábios na minha bochecha direita. — Tenha um bom dia, Margareth. E ele vai embora antes que eu possa responder. Sem conseguir me conter, levo a mão à bochecha para acariciar a pele que acabei de beijar, e um sorriso bobo se forma no meu rosto, mas desvanece assim que me lembro do quão m*al me senti ontem à noite. — Bom dia. Saúda Caroline, tirando-me das minhas reflexões. — Bom dia. Pronta para hoje? Perguntei. — Estou. Ela me ajuda a organizar tudo para começar a atender os clientes. — São bonitas. Ao virar-me, vejo que se refere às flores. — Cortesia da empresa? — Não, foram um presente. Digo. — Ah, o que você quer que eu faça com elas? — Não se preocupe, vou levá-las para trás para que não incomodem. Carrego os arranjos pesados para a parte de trás do local. Paro um minuto para admirá-las. Elas são realmente lindas e, portanto, caras. Se ele não tivesse a intenção de se desculpar sinceramente, não as teria trazido para mim, certo? Me animo ao ouvir os pedidos dos trabalhadores. Volto para a frente e despacho com a minha energia habitual. Se algo aprendi ao longo dos anos é que, não importa o quão m*al você esteja por dentro, você deve se mostrar alegre para os outros. É uma habilidade que aperfeiçoei desde que Renard morreu. Ao terminar de atender a todos, e sentindo falta da visita de Joelle, Caroline e eu nos preparamos para continuar o nosso trabalho. — Estou praticando o que aprendi, que tal se eu preparar os bolos de chocolate? — Avante. Eu me afasto e permito que ela me mostre as suas habilidades. Para minha surpresa, ela faz muito bem. Dou uma ou outra orientação, mas na maioria das vezes é ela quem faz tudo. — Então? Ela indaga com evidente ansiedade pela minha opinião. — Bem feito, agora você pode me substituir. Brinquei. — Nunca, as minhas preparações não se comparam às suas. Talvez você não tenha percebido, mas dá para notar a dedicação que você coloca em cada coisa. A paixão que emana de você é inspiradora, Margareth. Os meus olhos se enchem de lágrimas por suas palavras. A última pessoa que me elogiou dessa forma foi Renard, e fico feliz em saber que não perdi o jeito. — Para mim é um prazer compartilhar o que sei com você. Admito. — E eu valorizo muito isso. Quando dão duas da tarde, um entregador se aproxima. Aproximo-me para recebê-lo com alguma dúvida. — Margareth Favre? Ele indaga. — Sim. — Tenho algo para você. Ele abre a sua mochila gigante e tira um arranjo de flores com o que parecem chocolates dentro. — Assine aqui. Ele pede depois de deixá-lo no balcão. Ainda confusa com o presente, assino e passo o tablet para ele. — Tenha um bom dia. Ele diz e vai embora antes que eu lhe responda. — Outro presente? Pergunta Caroline atrás de mim. — Parece que sim. Murmurei. Reviso o cartão para descobrir que foi enviado por Conrad. Estes chocolates não se aproximam das maravilhas que saem das suas mãos, mas espero que possa apreciar o gesto. Perdoe-me por ser um idi*ota. Com carinho e sincero arrependimento. C.M.
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