Episódio 10

1563 Words
Uma respiração trêmula abandona o meu corpo, e não é a única parte de mim que treme. Se o que aconteceu esta manhã foi doce, este presente surpresa não fica atrás. Sei que disse que não sairia com ele, mas ele está se esforçando de verdade e isso deveria somar pontos a favor dele, não? De qualquer forma, vou me fazer de difícil por uns dias. Se continuar assim, talvez eu aceite outra saída. Afinal, as pessoas merecem uma segunda chance. Quando saio do trabalho, não o vejo, e é melhor assim porque tenho certeza de que cederia de uma vez. Caminho até casa, mas primeiro paro na mercearia para comprar o que preciso para a sobremesa do Samuel. Esta manhã vi uma receita de Cheesecake sem Açúcar que acho que ele vai adorar. Compro os biscoitos integrais sem açúcar, o queijo creme light, adoçante em pó para assar, iogurte grego sem açúcar, e o restante dos ingredientes como a manteiga, os ovos e o extrato de baunilha já tenho em casa. Ao chegar ao meu apartamento, lavo as mãos e coloco a mão na massa. Trituro os biscoitos e incorporo-os com a manteiga derretida, misturo o resto dos ingredientes e coloco a mistura na forma para depois levá-la ao forno, que já estava pré-aquecido. Enquanto isso, tomo um banho e, ao sair, coloco um vestido simples. Penteio o meu cabelo, que ainda está molhado, e calço umas sandálias. Quando volto para a cozinha, já se passaram os cinquenta minutos mínimos. Enfio um palito e verifico que sai limpo. Retiro a sobremesa do forno e deixo esfriar. Quando dá seis e meia da tarde, já está frio o suficiente para desenformar. A recomendação é colocá-lo na geladeira por algumas horas, mas estou ansiosa demais para saber se ele vai gostar. Coloco-o em um dos muitos refratários que tenho e saio de casa para bater na porta dele. — O quê? Ele ladra ao abrir a porta. — Uh, eu te trouxe algo. Eu levanto as mãos para que ele visse. — Posso voltar mais tarde se vim num mau momento... — Não. Ele toma a sobremesa das minhas mãos, e me puxa até que eu esteja dentro da sua casa. — Obrigado. — De nada. Murmuro, confusa por não ter me dado passagem como uma pessoa normal. Sigo-o até à cozinha, ele tira os pratos e a faca, e me dá para que eu faça as honras. — Confesso que não provei e, assim como o anterior, é a primeira vez que o preparo. Se não gostar, tem a liberdade de me dizer. — Gostarei. Ele assegura. Espero que ele faça isso. Penso para mim. Entrego-lhe a porção, observo-o enquanto prova, e, inevitavelmente, os seus olhos se fecham e um gemido rouco sai da sua garganta. — Gostou? Arrisco-me a perguntar. — Delicioso. Ele elogia. Festejo no meu interior porque seria vergonhoso começar a dançar na frente dele. Provo o que preparei e devo admitir que ele tem razão: está delicioso. Penso em levar um para Joelle, mas de alguma forma parece errado, como se isso fosse algo entre Samuel e eu. — Quanto te devo? Ele fala depois de lamber a colher. — Nada, é o mínimo que eu podia fazer por você depois de você me resgatar ontem à noite. — Você teve notícias do cara? Ele pergunta. Duvido um pouco antes de responder a ele. No final, opto pela verdade, pois não me sinto bem em mentir para ele. — Sim, ele me trouxe flores e se desculpou. — Uh. Ele fica em silêncio por alguns segundos. — Você vai perdoá-lo? — Não sei. Samuel se levanta da cadeira, recolhe os pratos que sujamos e vejo isso como a maneira dele de me dizer para ir embora. — Obrigado de novo por ontem à noite, a gente se vê mais tarde. Caminho para a saída esperando que ele me pare. No entanto, ele não o faz. Fecho a porta do meu apartamento e encosto-me nela. Samuel desperta a minha curiosidade. A sua personalidade não é como nenhuma que eu já vi. Encolho os ombros, não deveria me importar, somos apenas amigos. Tiro a roupa para trocar pelo pijama, e assim que estou na minha cama, pego o meu celular para ver uma mensagem do meu irmão mais velho. Nathan: Quando você vai voltar para casa? Papai e eu precisamos de você, mamãe precisa mais. Pare de ser egoísta, Maggie. Volte. Leio isso uma e outra vez, as lágrimas embaçando minha visão. Estou sendo egoísta de verdade? Fui-me para que a mamãe pudesse sarar, e comigo por perto ela não conseguiria. Devo voltar para eles mesmo quando o meu bem-estar emocional está em risco? ***** "Toda vez que a Maggie está por perto, a ordem na minha mente se transforma em caos, e eu não sei como consertar isso." Basileia, Suíça Samuel Não entendo o que está acontecendo. Tudo estava em ordem, exatamente como deveria ser, antes que ela aparecesse. A minha rotina era clara, previsível. Cada dia se desenrolava como uma engrenagem de relógio: trabalho, comida, exercício, silêncio. Ninguém entrava no meu espaço sem que eu permitisse, e nunca houve necessidade de me ajustar à presença de ninguém. Era uma tranquilidade que me dava segurança. Mas agora... Maggie está lá. E, sem que eu queira admitir, tudo mudou. Movimento-me pela cozinha, recolhendo os pratos, limpando os restos da sobremesa que ela trouxe. Deliciosa, sim. Eu disse? Acho que sim, mas não o suficiente. Ela esperava mais. Eu vi nos olhos dela, na forma como eles se iluminaram quando eu provei a primeira colherada. Ela quer algo mais de mim, algo que eu não sei como dar. Agradecimento, talvez. Palavras doces. Não sou bom com isso. Nunca fui. Aos quarenta, eu já deveria ter aprendido, mas não aprendi. Sempre evitei essas interações, essas expectativas. Com a Maggie, isso é impossível. Não sei como aconteceu. Um dia eu estava aqui, em silêncio, sozinho. Depois ela esbarrou em mim, e desde então, é como se eu tivesse perdido o equilíbrio. Ela vem, traz sobremesas, sorri, fala de coisas que não entendo totalmente, e sinto-me obrigado a corresponder. Às vezes eu faço isso, mas sempre me deixa com essa sensação estranha, desconfortável. Como se me empurrasse a ser algo que eu não sou. Algo que não sou capaz de mudar. Lembro-me de quando me ofereci para ficar depois de levá-la ao hospital. Não pedi, foi o que senti. O desconforto, o calor no peito, a confusão na minha cabeça. Tudo me dizia que eu devia mantê-la à distância, que a sua proximidade era perigosa. Não de forma física, claro, mas... emocional. Me custa até pensar nessa palavra. Mas a verdade é que não sei como lidar com ela. Toda vez que me aproximo, algo dentro de mim se contrai, e a única coisa que consigo fazer é recuar. Maggie me pede algo que não sei se posso dar. Não diz com palavras, mas eu vejo. E isso me confunde ainda mais. Não há manual para isso, não há instruções a seguir. Se houvesse, talvez eu pudesse entender melhor. Talvez eu pudesse dar a ela o que ela precisa. Mas não consigo processar bem o que ela está me pedindo, o que a sua presença significa. Vejo-a sentada à mesa, sorrindo timidamente. Penso em como poderia dizer que por hoje já chega, que preciso do meu espaço, mas toda vez que tento, parece... cr*uel. Então, faço o que sei fazer de melhor: levanto, lavo os pratos. A ação é clara, direta, um sinal de que a visita terminou. Não é que eu queira que ela vá, é só que... não sei como fazer isso. Ela se levanta, nota isso, embora não diga. Tenho certeza de que ela percebe que não sou como os outros. E não quero que ela saiba. Não quero que ela veja os meus erros. Mas mesmo assim, ela fica. Ela me olha como se esperasse algo mais, como se... Ela gostaria que eu a parasse? Não sei o que fazer com esse olhar. — Obrigado de novo por ontem à noite, a gente se vê depois. Diz, e a voz dela é suave, suave demais. Quero dizer algo, qualquer coisa. Dizer a ela que não é culpa dela eu me sentir assim, que isso é coisa minha. Mas, em vez disso, eu simplesmente a deixo ir. Não a detenho. Sinto-me mais tranquilo quando ela está fora, mas também vazio, como se algo tivesse dado errado e eu não soubesse como corrigir. Quando ela vai, o silêncio volta. Deveria ser reconfortante, mas agora parece diferente. Vazio. O eco da sua voz ainda paira no ar, como um incômodo persistente. Ao terminar de organizar a minha cozinha, sento-me em frente ao meu computador para trabalhar num programa de segurança cibernética que planejo vender para uma das empresas farmacêuticas da região. Não sei quanto mais consigo suportar esse caos na minha cabeça. Esforço-me para me concentrar no trabalho, nas coisas que posso controlar, mas tudo parece fora do lugar quando ela está por perto. Maggie... Não a entendo, e isso me irrita. Mas o que mais me confunde é como ela conseguiu fazer com que eu me importasse em não entendê-la. Cansado de não conseguir nada, vou para a cama e sonho com aquela mulher de cabelos ruivos e olhos verdes como a floresta.
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