CAPITULO 1 {ENZO RICCI}
ENZO RICCI
Acordo cedo, como de costume, e sigo para a sede da máfia para treinar. Gosto de praticar luta para descarregar o peso do dia antes mesmo de ele começar. Ao chegar, encontro Caio já posicionado no ringue. É estranho, considerando que ele se casou há pouco tempo e deveria estar aproveitando a vida de recém-casado.
— Problemas no paraíso? O que te incomodou para te tirar da cama tão cedo? — provoco, subindo no ringue.
Caio solta um riso seco enquanto enfaixa as mãos.
— Para começar, eu nunca durmo até tarde. E você? O que está te corroendo para despertar o dia antes do sol?
— Na verdade, eu quase não dormi. Saí tarde da boate ontem. — Colocamos as luvas e assumimos a guarda.
Os primeiros golpes são precisos, cadenciados. Caio respira fundo antes de soltar a bomba:
— Enzo, tive uma reunião com o Conselho ontem. Eles vêm me pressionando há tempos sobre assuntos que eu estava adiando, mas agora não me deram escolha.
Já sei exatamente por onde a conversa vai enveredar.
— Deixe-me adivinhar: os velhos com suas regras obsoletas estão te pressionando para me arrumar uma noiva?
— Também. Mas, ontem, o assunto foi Beatrice. Ela vai fazer vinte e um anos; não posso mais adiar o casamento dela. O Conselho não permitirá.
— E o que você pretende fazer? Te conhecendo como conheço, já deve ter algo arquitetado na sua mente doentia.
Caio para de lutar, seus olhos fixos nos meus.
— Vou juntar o útil ao agradável. Você se casará com ela.
Recuo um passo, parando o combate no mesmo instante. Solto uma gargalhada genuína, incrédulo. Precisa ser uma piada de péssimo gosto. Mas, ao encarar o rosto sério de Caio, o riso morre em minha garganta. Ele não está brincando.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Isso é loucura. Não seria muito mais fácil firmar uma aliança com outra organização?
— Enzo, sei que para você pode não fazer sentido, mas para mim faz. Assim como Beatrice não terá escolha, você também não tem. Amanhã, na minha casa, quero os dois presentes quando eu anunciar. Chegue cedo.
Ele sai sem olhar para trás, deixando-me no ringue com o gosto amargo do choque. De todas as mulheres, ele escolhe justamente a Beatrice. Ele sabe que ela nutre um sentimento por mim que nunca será recíproco. Sabe que um casamento é a última coisa que eu desejo. Isso tem o dedo dela, só pode ser. Mas ela vai se arrepender de ter armado esse teatro. Ah, se vai.
O dia se arrasta e tudo e todos parecem conspirar para me irritar. Sei que não devo descontar, mas a perspectiva desse casamento me tirou o eixo. É claro que eu sabia que o cargo que ocupo exigia um casamento — os velhos do Conselho não suportam a ideia de um "herdeiro" solteiro, focados demais na bendita linhagem —, mas eu esperava alguém que não me desse trabalho. E Beatrice é o oposto disso.
Ligo para Samanta antes de deixar a sede. Ela trabalha em um de nossos bordéis e, na mesma época em que Caio tirou Maresa, eu tirei Samanta. Diferente de Maresa, Samanta sabe onde pisa. Nunca foi louca de me trair; ela entende com quem lida e sempre teve a função dela bem definida na minha vida. Comprei o apartamento dela e banco todos os seus luxos em troca de disponibilidade total.
Chego ao seu prédio, não muito distante da sede. O ambiente está mergulhado na penumbra. Acendo apenas a luz do bar montado na sala e me sirvo de uma dose dupla generosa de uísque. Viro o copo de uma vez, sirvo-me de outro e subo as escadas, afrouxando a gravata.
No quarto, ela está ajoelhada de costas para a porta. A lingerie branca, fina, contrasta de forma deslumbrante com sua pele n***a. A trança única deixa suas costas livres, exibindo cada linha de seu corpo. Sento-me na poltrona à frente da cama.
— Vire-se e venha até aqui.
Samanta obedece, os olhos carregados de um desejo cego. Ela caminha até mim e, sem que eu precise pedir, abre minha calça e toma o que é seu. Puxo seus cabelos, guiando o ritmo, e a jogo na cama sem qualquer cerimônia. Saco uma camisinha do bolso.
— Fica de quatro.
Ela obedece sem questionar. Invisto nela com força, enquanto seus gemidos preenchem o quarto — a única coisa que me incomoda nela é o excesso de barulho. Termino, descarto o preservativo na lixeira, tomo um banho frio e saio do apartamento já vestido.
— Já vai? — ela pergunta, ainda ofegante.
— Sim. Quando precisar de você novamente, eu ligo.
— Sim, senhor.
Saio do prédio sentindo-me leve. Chego em casa, tomo outro banho e vou dormir. Amanhã é um dia longo.
Acordo cedo, preparo meu café e o tomo sem pressa. Moro sozinho por opção; detesto bagunça e prezo pela organização impecável. Dona Mercedes vem aqui apenas uma vez a cada três dias para a faxina. Saio e sigo para a garagem, escolhendo meu favorito: um Audi Q8 preto. Tenho uma obsessão por carros; minha coleção é exageradamente grande.
Chego à casa dos pais de Caio e sou recebido por Dona Amélia.
— Bom dia, meu filho. Só assim para você dar as caras por aqui, não é?
— Desculpe, Dona Amélia. Seu filho não para de me sobrecarregar de trabalho.
— Sei... conta outra, Enzo. Essa já está velha. — Ela sorri e beijo o topo de sua cabeça. A família de Caio é o mais próximo que tenho de um lar; eles me acolheram quando perdi meus pais, sem nunca fazer distinção.
— Ele está no escritório — avisa.
Subo as escadas devagar, torcendo, lá no fundo, para que Caio tenha mudado de ideia. Sei que não vai.
— Bom dia, Don. Estou aqui como pedido. — Dou um sorriso de deboche e recebo um dedo do meio como resposta.
— Vá se ferrar, Enzo. Sente-se. Já pedi para a mamãe chamar a Beatrice.
Conversamos por quase trinta minutos antes de a porta se abrir. Beatrice entra com aquela postura altiva que me irrita profundamente.
— Caio me chamou aqui para me dar bronca?
— Não. Chamei para fazer um comunicado. Sente-se. — Ela me ignora, mantendo-se de pé. — Estou bem assim, Caio. Adiante o assunto, tenho aula daqui a pouco.
Abusada e sem limites. E é com isso que terei que lidar até que a morte nos separe.
— Bom, Bea — Caio começa, a voz firme —, como o papai já havia informado, escolhemos seu noivo. Adiei isso ao máximo, mas dentro da máfia, todos temos obrigações. Decidimos que você se casará com o Enzo. Ele é meu Consigliere e pretendo mantê-lo nessa posição para sempre; um casamento entre vocês selaria isso.
A cor drena do rosto de Beatrice. Seus olhos transmitem um misto de desespero e confusão que quase me faz acreditar que ela não teve participação nisso.
— Caio, você só pode estar louco! Eu não me casaria com o Enzo nem se ele fosse o último homem da face da terra.
Mentirosa. Quando ela ficou quase nua na minha frente, o discurso era bem diferente.
— Beatrice — Caio corta, gélido —, não estou pedindo sua opinião, estou comunicando. Não aja como se tivesse escolha, porque não tem. O noivado será em uma semana, e o casamento em um mês. Ponto final.
Ela olha para mim com súplica, uma atriz excelente.
— Pode se retirar, Bea, ou vai se atrasar.
Ela sai batendo a porta com força. Caio joga-se para trás na cadeira, massageando as têmporas.
— Tem certeza absoluta disso? — pergunto.
— Tenho, Enzo. Não vou mudar de ideia.
— Você me conhece melhor que ninguém. Sabe que o casamento não é algo que eu almejo; é uma obrigação. Não me culpe se sua irmã passar o resto da vida sofrendo, pois você sabe que nunca vou nutrir por ela o que ela nutre por mim.
Saio do escritório e sigo para o quarto dela. Ouço-a falando sozinha lá dentro. Entro sem bater e tranco a porta atrás de mim. Ela se vira, os olhos âmbar nublados e o rosto tomado pelo desespero.
— Espero que esteja satisfeita. Afinal, conseguiu o que queria. Olha aqui, Beatrice: vou deixar algo bem claro. Você vai se arrepender de ter nos colocado nessa situação. Não espere nada de mim. No seu lugar, eu imploraria para o seu irmão cancelar isso. Acredite, Beatrice, você perderá muito mais do que eu.
Saio do quarto, deixando-a atônita. Talvez ela não tenha pedido isso diretamente ao irmão, mas essa paixão tosca que ela cultiva por mim desde nova foi o combustível para essa decisão. Me aguarde, Beatrice. Nada de bom te espera.