Capítulo 14

1558 Words
POV Inara — i****a, i*****l, cabeça de vento! — rosno para o nada, sentindo o meu rosto arder só de lembrar daquele momento. Como é que ele pôde? Como teve a coragem de me prender contra aquela árvore daquela maneira? Sinto o meu coração acelerar outra vez, mas desta vez não sei se é de raiva ou se é o meu corpo a trair-me com a memória do toque dele e daquele som que saiu de mim. Eu nunca havia sentido algo como aquilo; o meu ventre apertando-se, a minha respiração falhando daquele jeito e a minha calcinha… não… não… i*****l e i****a… Ai, ele é um i****a, e… e… e… está bem, já não tenho mais nenhum insulto decente em mente. Só sei que ele é um i****a e que eu o odeio com todas as minhas forças. Paro de andar por um momento e olho ao meu redor. O silêncio daquela estrada é assustador. — Você só pode estar a brincar, não é? Só pode ser mesmo uma brincadeira! — exclamo para as árvores, as lágrimas de frustração a quererem sair. Estou a andar há meia hora e nem a meio do caminho estou. Olho para trás e a mansão já desapareceu; olho para a frente e não vejo sinal de nada. Só vejo árvores enormes e uma estrada sem fim. E a pior parte? O céu está a mudar de cor. Daqui a nada tudo vai escurecer e aí sim eu vou ter de lutar de verdade com os ursos ou com qualquer coisa que viva nestas matas. Aperto o meu casaco contra o corpo, sentindo um calafrio que não é apenas pelo vento frio da tarde. Sinto-me pequena, sozinha e, pior de tudo, humilhada por aquele tipo. — Argh!!!!!! — Grito com toda a força dos meus pulmões, mas o som é engolido pela floresta. O que eu faço? A culpada de tudo isso é a Micaela! Ah, se eu a encaro, eu a mato. Como ela foi capaz de me meter num problema desses e depois dizer que o cara é um deus grego? Um deus grego mais o c*****o! Ele é um e******o e… e… fiquei sem insultos de novo. Ando mais um pouco até uma árvore e encosto-me nela. — Me desculpe, Mica — sussurro baixo. Eu a amo muito e sei que ela não me meteria nesta confusão de propósito. Ela é a única família que eu tenho. Bem, ela e os seus pais. Os pais dela são um amor de pessoas, sempre gentis; eles até me convidaram para morar com eles, mas, como uma boa cabeça-dura que eu sou, eu não aceitei. Não queria incomodar. E quando compraram o apartamento da Mica no centro da cidade, ela sugeriu logo que eu vivesse com ela e eu também não aceitei. Eu queria algo que pudesse chamar de meu sem ter dependido de alguém. Mas agora que este emprego não deu certo, acho que vou mesmo ficar com ela, pelo menos até conseguir um emprego e pagar o aluguel. Tudo isso foi culpa daquele i****a. Por ele ser o pai da minha piccolina, eu estou cansada e dolorida. Será que é melhor eu voltar para lá para pedir ajuda à senhora Samantha? Ela pelo menos foi gentil. Lembro-me do olhar de desprezo dele e a raiva dá-me um novo fôlego. Eu prefiro caminhar a noite toda e enfrentar lobos do que voltar para aquele homem. Mas o cansaço começa a bater e os meus pés já reclamam do esforço. Idiota. De repente, ouço um som ao longe. Um motor? O meu coração falha uma batida. Se forem homens do Sebastian, ou mesmo o Sebastian, o que é que eu faço? Corro para o meio do mato ou enfrento o destino de frente? Dois feixes de luz cortam a escuridão crescente. O som de um motor potente aproxima-se, fazendo o chão vibrar levemente. O meu coração dispara. Será ele? O medo de ser o Sebastian mistura-se com uma esperança i****a que tento esmagar imediatamente. Um SUV preto e blindado encosta suavemente ao meu lado. O vidro escurecido desce, revelando o rosto de uma pessoa que eu não achei que viria tão cedo assim. — Tu... — A minha voz sai como um sibilo de uma serpente. — Tu és o assassino do volante! O homem que quase me matou! O maluco da estrada! O homem do outro lado do vidro arregala os olhos por um segundo e depois solta um suspiro pesado, coçando a nuca com um ar de quem sabe que está frito. Ele olha para mim como se estivesse a pensar: "Pois é, a desastrada da estrada apanhou-me, agora é que eu estou bem ferrado". — Tecnicamente, eu não te matei. Estás aqui a gritar comigo, o que é um sinal de vida excelente — diz ele, com um tom meio culpado e meio engraçado. — Ah, que bom! Devo agradecer-te por não teres passado com o tanque de guerra por cima da minha cabeça? — retruco, cruzando os braços e ignorando a dor no tornozelo. — O que fazes aqui? Vieste terminar o serviço? — Calma, calma! — Ele levanta as mãos, saindo do carro com um sorriso amarelo. — Antes de mais, deixa-me apresentar. Eu sou o Liam. E sim, peço imensas desculpas por aquele... incidente. Foram ordens de cima para chegar rápido, mas eu sinto-me m*l por isso até hoje, juro. — Liam, o Atropelador. Encantada — digo, com o sarcasmo a pingar. — Agora sai da frente, que eu tenho lobos para enfrentar. — Inara, ouve — ele aproxima-se com cuidado, como quem tenta não assustar um bicho bravo. — A Senhora Samantha mandou-me. Ela ficou preocupada contigo e, sinceramente, se eu voltar para aquela mansão sem notícias suas, ela mata-me e o Sebastian... bem, ele … ele… deixa pra lá . Entra no carro. Eu não sou um sequestrador, só um motorista que teve um dia muito r**m naquela estrada. Olho para o SUV luxuoso e depois para a escuridão. O meu orgulho diz para eu coxear até à cidade, mas o meu pé diz que vai cair se eu der mais um passo. — A Senhora Samantha? — pergunto, amolecendo um pouco. — Sim. Ela gosta de ti. E a senhorita Chloé também. Faz isso por elas, não pelo ogre do meu patrão. Suspiro, derrotada. Abro a porta e subo para o banco de couro, sentindo um alívio imediato no corpo exausto. O carro cheira a novo e a poder, algo que me irrita profundamente. — Pronto, Liam. Mas se tentares me atropelar dentro do carro, eu juro que te puxo os cabelos — resmungo. Ele solta uma risada leve enquanto arranca. — Combinado. Prometo manter as quatro rodas no chão. Durante o trajeto, o silêncio é quebrado apenas pelo ronco suave do motor. Liam tenta puxar conversa, explicando que o Sebastian "não é tão r**m quando não está de mau humor", ao que eu respondo com uma gargalhada seca. — Ele não é r**m, Liam? Ele tem o carisma de uma pedra e a delicadeza de um furacão. — Ele é... intenso — Liam escolhe bem as palavras. — Mas onde moras? O GPS diz que a zona urbana começa daqui a pouco. Posso deixar-te à porta. — Deixa-me no centro da cidade. Perto da praça principal — digo firme. — Inara, a esta hora? Eu levo-te a casa, não custa nada. — Não — interrompo-o. — Não quero que o teu patrão saiba onde eu moro. No dia em que eu quiser que um monstro saiba a minha morada, eu mesma mando o convite. Deixa-me no centro. Liam suspira, percebendo que não vai ganhar esta discussão. Quando chegamos às luzes brilhantes do centro da cidade, ele encosta o carro. — Estás entregue, teimosa — diz ele, com um sorriso simpático. — Obrigada pela boleia, Liam Atropelador. Tenta não bater em ninguém no caminho de volta — digo, saindo do carro com dificuldade. — Tchau e até à próxima... ou melhor, espero que não haja próxima! — Até logo, Inara — responde ele, com um brilho estranho no olhar. Fico parada no passeio, confusa. "Até logo?". Por que é que ele disse até logo se eu acabei de me despedir para sempre daquela família de doidos? Dou de ombros, achando que ele apenas se enganou no inglês ou que é o jeito dele de ser educado. Pego um táxi e, finalmente, chego ao meu apartamento . Entro como se tivesse voltado de uma guerra. Ponho o telemóvel a carregar — a bateria está nas últimas, tal como eu. Tomo um duche rápido , deixo a água quente levar um pouco do cansaço e visto o meu pijama de flanela mais confortável. Como uma torrada fria que estava na mesa, sem sabor, apenas por necessidade. Deito-me na cama, puxo o edredão até ao queixo e fecho os olhos. Devia estar feliz por estar em casa, mas o sono não vem. O meu coração está acelerado. Uma sensação fria aperta-me o peito, um pressentimento r**m, como se algo estivesse prestes a quebrar. Não sei se é o Sebastian, se é o meu passado ou se é algo que ainda nem aconteceu... só sei que a noite está silenciosa demais. E o silêncio, no meu mundo, nunca traz boas notícias. — Boa noite,minha piccolina,e fique bem.
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