POV – Inara
— Por favor, por favor… dê-me mais uma. Só mais uma oportunidade. Olha, eu quase morri hoje. Se o senhor olhar bem para mim, vai ver que estou mancando.
— Olha, senhor, eu… eu posso fazer tudo. Só me deixa tentar, por favor…
E foi tudo isso que eu disse ao senhor do restaurante.
Eu praticamente implorei. Só me faltava ajoelhar.
Mas:
— Você não merece esse emprego. Você é uma pessoa irresponsável e inútil. Eu conheço bem o seu tipinho sujo.
Agora vai embora e saia da porta do meu restaurante!
Pois é. Isso foi tudo o que ele disse.
Ele me expulsou em alto e bom som.
E foi uma das maiores vergonhas que eu já passei.
Já teve pior?
Sim.
Mas eu não estou a fim de relembrar.
Naquele momento, eu quase chorei.
Mas eu não podia dar esse gosto àquele ogro.
E também não queria que as pessoas me vissem chorar. Seria humilhante.
Eu sou orgulhosa demais para deixar isso acontecer.
Mas uma lágrima caiu dos meus olhos.
E não foi só por não ter mais opções…
Foi também pela dor no meu pé.
E tudo isso foi há algumas horas atrás.
Depois de passar por aquele perrengue todo, fui me arrastando até o ponto de ônibus mais próximo.
De lá, fui direto para um hospital público.
O médico disse que foi uma torção.
Que poderia melhorar em três dias.
Mas, por causa do esforço todo que eu fiz no pé para chegar a um emprego que não deu em nada, vai demorar uma semana, no máximo, para ficar melhor.
E ele disse também para não fazer esforço nenhum…
Ou pode piorar.
Uma coisa impossível, dada a minha situação atual:
sem emprego, com o aluguel atrasado, sem água e principalmente sem dinheiro.
Além dos dólares que aquele maluco jogou em mim.
Ah, se eu o ver de novo… eu vou tacar uma panela na cabeça dele. Aí vou mesmo.
Enfim.
E agora, depois da manhã tumultuada que eu vivi, estou sentada em um banco do parque sem saber o que fazer ao certo.
Sinto meu telefone vibrar dentro da minha bolsa desgastada.
No início, tiro ele da bolsa sem ânimo nenhum.
Mas quando vejo o nome piscando na tela, meus lábios se curvam num pequeno sorriso.
Era a Mica.
Ou melhor, Micaela West.
Minha melhor — e única — amiga.
Micaela: Oi, garota.
Como você está indo?
(Encaro o ecrã por alguns segundos antes de responder.)
Inara: Sobrevivendo.
E você?
Micaela: Você está sobrevivendo
porque não me escuta.
Enfim.
Eu tenho uma surpresa 🥳!
(Olho para a tela e franzo o nariz em desconfiança.)
Inara: ViXi.
Quando você diz isso
nunca é boa coisa.
Desembucha logo.
Micaela: Ei, isso não é verdade 😤
Inara: Hum.
Tá.
Vou fingir que não disse nada 🙄
Micaela: Você está mesmo bem, garota?
Eu sinto que não estás.
Inara: Fisicamente…
mais ou menos.
Emocionalmente?
Um desastre ambulante 😵
Mas isso não importa agora, tá?
Só cospe logo.
Micaela: Inara?
Inara: Eu prometo…
eu estou bem.
Quando você voltar, eu conto tudo.
(Os três pontinhos aparecem e desaparecem.
Eu sei que ela está chateada.
E eu não quero que ela fique preocupada enquanto está no fim do ano escolar.)
Micaela: Tá.
Mas você me conta tudo quando eu voltar.
Ok?
Inara: Tá.
Só fala, Mica.
Se o seu plano era me deixar nervosa,
você conseguiu.
Micaela: Tá, sua sem paciência.
Lembra daquela família
que eu te falei?
Inara: Lembro sim.
A dos quais você diz sempre
“eu não posso falar muito sobre eles”?
Certo? 🙄
Micaela: Eles estão procurando alguém com urgência.
E eu pensei em você.
(Me sento melhor no banco do parque.
Meu coração acelera, mesmo sem querer criar esperanças por causa da minha má sorte.)
Inara: Mica…
não faz isso se não for sério.
Micaela: É sério.
Eles precisam de alguém já.
Moradia incluída.
Salário bom.
E, sem exagero, o chefe é um deus grego 🤒🥵
Inara: Isso soa bom demais pra ser verdade.
Não a última parte do deus grego — não estou interessada 🙄😪
E você sabe disso.
Micaela: Eu sei.
Por isso pensei em você.
Sei que consegues aguentar a pressão dos ricos.
E você precisa de um bom recomeço.
E eu sei que vai encontrar lá.
Inara: Recomeço?
O que você quer dizer?
Micaela: Nada, não.
Vou fingir que não disse nada 😋
( Ela está a usar as minhas palavras contra mim?)
Inara: Tá.
Onde é?
Micaela: Manhattan.
Mas não o lado bonito.
O outro… indescritível.
É uma propriedade privada.
(Incrível. Isso parece uma grande encrenca.)
Inara: Quando?
Micaela: A entrevista é daqui a três dias.
Mas…
Inara, se você aceitar, tenho certeza de que sua vida vai mudar.
(Olho em volta. Pessoas passando sem me dar uma única olhada.
O sol indo embora.
A lua cheia vindo.
Meu pé torcido…)
Inara: Minha vida já mudou tanto, Mica.
E você sabe.
Eu não acho que vai mudar tanto assim.
Micaela: Você está bem mesmo?
Não tem tido problemas nos últimos meses, né?
(Meus dedos pairam sobre o teclado.
Penso se conto ou não.
Eu não posso enchê-la com os meus problemas. Não posso.)
Inara: Depois eu te explico.
Prometo.
Só manda o endereço.
Micaela: Vou mandar.
E…
Inara?
Inara: Diz.
Micaela: Confia em mim?
Só mais desta vez?
(Fecho os olhos, sorrindo antes de responder.)
Inara: É tudo o que eu tenho feito nos últimos anos.
Micaela: Obrigada ☺️
Te amo muito, desastrada 🥰
Inara: Eu também te amo, alegria 🙄🥳
Guardo o telefone com um pequeno sorriso nos lábios.
Só podia ser a Mica responsável por isso.
Ela é incrível.
E a única pessoa que eu posso chamar de família.
Solto o ar dos pulmões que eu nem sabia que estava prendendo.
Levanto-me do banco do parque, apoiando-me nas muletas que recebi do doutor simpático. Preciso delas para chegar ao meu pequeno apartamento sem magoar ainda mais o pé.
Tento me estabilizar… e quase caio de cara no chão.
— Aff… mas como é que alguém consegue andar com isso? Não era suposto isso estabilizar as pessoas?
Cinco minutos.
Eu passei cinco minutos tentando simplesmente ficar de pé com as muletas.
— Sim! Eu consegui! Tomem, suas muletas aleijadas!
Falo toda feliz, afastando o cabelo que estava colado à minha testa por causa do suor.
E caso estejam se perguntando como eu cheguei até aqui…
É claro que eu pedi ajuda ao motorista do táxi. Eu não conseguia andar com as muletas. Parecia um pato sem patas.
Já minimamente estabilizada nas “muletas aleijadas”, olho ao redor do parque.
Há todo tipo de pessoas.
Casais apaixonados de mãos dadas.
Crianças correndo.
E pessoas como eu — sem ninguém para dividir as preocupações do dia.
Como quase ser atropelada e morta pelo motorista de um deus grego.
Espera.
Hoje eu quase morri.
Quase fui atropelada.
Atropelada… e morta…
De repente, no espaço de um segundo, o ar mudou completamente.
O ar do parque, que normalmente era leve, ficou pesado. Difícil de respirar.
Minha garganta apertou como se alguém tivesse enfiado um tampão ali no meio. Eu arfava, tentando puxar o máximo de ar para os pulmões.
— Ahh… o-o que?… ah…
Meu corpo tremia — não de frio.
Meu coração batia freneticamente, como um tambor descontrolado.
Lágrimas começaram a se formar. Minha visão ficou opaca. Tudo estava confuso. Embaçado.
Eu não conseguia ouvir nada além do meu próprio coração.
Eu não conseguia sentir nada.
Nem mesmo o tornozelo.
— E-eu… eu… não consigo s-sentir… nada…
As muletas escorregaram dos meus braços.
Comecei a me mexer de um lado para o outro, me batendo, arranhando os braços como uma louca.
— Eu não consigo… não consigo me sentir…
Repito isso tantas vezes que percebo pessoas apontando. Sussurrando.
Mas eu não consigo me importar.
Eu não consigo porque—
Como um cervo parado diante dos faróis…
Eu parei.
Porque, naquele exato momento, eu vi algo.
Algo carmesim.
Lá no alto.
Lindo. Flutuando.
Mesmo com a lua cheia brilhando, aquilo competia com ela — e ganhava toda a minha atenção.
Era um balão.
Não.
Não era um balão qualquer.
Era o balão dela.
Ele me encarava. Ele me chamava.
Eu sei que me chamava.
Mas, de repente, começou a voar para longe.
Voava para longe de mim como da última vez.
Não. Não pode.
Eu não vou deixar.
— Não… não, Chloe… não vai… de novo não…
Sem pensar duas vezes — mesmo com o pé dolorido — eu fui atrás.
Esbarrei em pessoas. Em animais.
Não me importei.
Eu não vou parar.
E não parei.
Continuei seguindo o balão como se minha vida dependesse disso.
Com os olhos fixos no vermelho carmesim lá no alto, não vi o homem à minha frente.
Só senti o impacto.
Caí sentada no chão.
— Olha por onde anda, sua maluca! Onde você pensa que está? Na lua?
Ele gritou.
Mas eu não me importei.
Levantei com dificuldade e olhei para o céu.
Mas… ele já não estava lá.
— Não… não vai, por favor…
Girei de um lado para o outro procurando, mas ele sumiu.
Eu não o encontrava.
As lágrimas escorreram pelas minhas bochechas.
— Por favor, Chloe… não me deixa… onde você está? Não me deixa de novo…
Não. Ela não pode me deixar.
Ela não pode ir embora.
— Umm… hum…
Tudo parou.
Tão rápido quanto começou, o ataque cessou.
Por causa de um soluço.
Um soluço?
Tem alguém chorando.
Eu estou… em um beco.
Não lembro como cheguei aqui.
— Umm… hum…
Ouço outro soluço e corro — ou pelo menos tento.
Agora sinto o tornozelo novamente. E em dobro.
Paro ao ver, entre latas de lixo, uma garotinha de cabelos castanhos soluçando.
Meu Deus.
O que uma criança está fazendo aqui?
— Oi, piccola… você está bem?
Ela levanta a cabeça rapidamente.
Os lindos olhos azuis estão marejados.
Quando me vê… ela se levanta e corre.
— Ei! Não vai!
Tento correr atrás dela, mas escorrego e caio no chão sujo do beco.
Meu pé dói pra c*****o.
Só espero não ter machucado de novo…
ou eu vou acabar ficando sem ele de vez.