Pov Inara
Dizer que a noite passada foi um caos seria o maior elogio que eu poderia fazer à minha vida.
Depois de passarmos por uma loja de conveniência — onde comprei o suficiente para um pequeno exército e paguei com uma das notas de cem que o “maluco” me deu — finalmente chegamos ao meu apartamento.
Foi a primeira vez em meses que eu não tive medo de carregar no interruptor. A luz acendeu e o frigorífico voltou a ronronar como um gato satisfeito. E, pela primeira vez, o meu pequeno espaço nos subúrbios pareceu um castelo.
Acordar num castelo, no entanto, continua a doer nas costas quando se dorme num colchão velho.
Abro os olhos devagar.
E a luz do sol bate direto no meu rosto.
— Ummmmhm… — gemo de desgosto e me viro rápido para o outro lado.
Só que, quando abro os olhos de novo, quase tenho um mini infarto.
— Aaaaaaaah!!!
Dou de cara com um lobo disfarçado de ovelha.
Ela está sentada do outro lado da cama, encostada nas almofadas, só me olhando com aqueles olhinhos azuis grandinhos e fofos.
— Você não é uma espiã, né?
Ela me olha um pouco confusa e inclina a cabeça para o lado antes de responder, com aquele jeito fofinho:
— Não… por quê?
Olho para ela com um bico nos lábios.
— Não, nada não.
Esfrego os meus olhos para tentar acordar de vez, e ela faz o mesmo, de um jeito fofo, como se fosse um gatinho.
De repente, me pego olhando para ela sem desviar o olhar. Eu não entendo como ela pode ser tão fofa assim e, ao mesmo tempo, uma manipuladorazinha.
Mesmo com o cabelo castanho bagunçado pela noite, ela ainda era a menina mais bonita que eu já vi. Aqueles olhinhos azuis davam um ar de inocência que com certeza escondia um poço de segredos.
— Você dormiu bem, Piccola? — me pego perguntando.
Ela para de esfregar os olhinhos e olha para mim com um sorriso matinal.
— Sim, dormi muito bem.
— Se você dormiu bem, Piccola, por que está acordada a uma hora dessas?
Pergunto, olhando para o relógio da minha cabeceira que marcava 07:02.
— Bem… é que eu acordei e não consegui voltar a dormir… e fiquei observando você dormir.
O quê?!
Ela ficou me observando dormir?
Oh não.
— O que você fez, Piccola?
Olho para ela surpresa, porque em primeiro lugar não imaginava que ela faria isso e, em segundo, porque não me imagino dormindo decentemente como um ser humano normal. Não que eu durma m*l… eu só não estou acostumada a ter alguém me observando enquanto durmo.
— Em minha defesa, você estava linda e fofa dormindo. Parecia um anjinho, com o seu cabelinho loiro espalhado nas almofadas.
É fofo ouvir ela falando assim de mim. Já é a terceira pessoa que diz isso… mesmo eu não acreditando muito.
— Você está dizendo que me ver roncar e ter baba no canto da boca é lindo? — provoco.
— Não! Eu não disse isso!
— Disse sim. Você disse que eu ronco como um porquinho rosa.
Coloco a mão no peito como se estivesse magoada. O semblante dela muda, como se realmente se sentisse culpada, e ela se arrasta entre as almofadas até chegar mais perto de mim.
— Eu não quis dizer isso, eu só—
No mesmo instante, sem deixar ela terminar o pedido de desculpas, me lanço contra ela. Minhas mãos vão direto para a barriga fofa dela e começo a fazer cócegas.
— Aqui vai um ataque surpresa!
— Hahahahaha! Não! Para! Hahahaha! Me solta!
E assim os gritos dela encheram o meu pequeno e triste apartamento naquela manhã.
E, pela primeira vez, ele não parecia tão triste.
***
— Por favor, por favorzinho!
— Nem pensar. Hoje é sábado, você me acordou às sete da manhã, e agora já são quase duas da tarde e você quer ir ao parque sem me contar quem é você.
Pois é.
Depois de passarmos a manhã inteira a brincar e comer um monte de coisas aleatórias — frutas incluídas — agora estamos sentadas na minha cama velha, rodeadas de almofadas fofas.
Ela tentando me convencer a levá-la ao parque para comer um gelado.
E eu tentando descobrir mais sobre ela. Incluindo o nome.
E tá, tá… eu sei que tudo isso foi uma ideia terrível.
Eu não sei quem ela é.
Eu não sei de onde ela veio.
E definitivamente não sei quem é a família dela.
Ela não disse muito sobre quem era, mas o jeito como segurava a fatia de pizza — com uma delicadeza quase de princesa — só confirmava o que eu já suspeitava: ela não era daqui.
Eu devia ter feito mais perguntas. Devia ter ligado para a polícia.
Mas quando a vi adormecer na minha velha cama, com um pijama improvisado e ainda assim imensamente fofa, a única coisa que consegui fazer foi cobri-la com a manta mais macia que eu tenho.
E não me arrependo.
Mas ainda preciso de respostas.
— Vamos, me diz… ou você prefere que eu continue chamando você de Piccola?
— Eu gosto quando você me chama assim… por favor.
Ela junta as mãozinhas em sinal de súplica.
— Eu não paro até você me contar qual é o seu nome e de onde você é. Sua família deve estar preocupada.
Digo, já me sentindo culpada pelo que os familiares dela devem estar passando.
— Eu prometo que na próxima eu digo. E você é italiana por acaso?
Na próxima?
Como assim na próxima?
— Na próxima? E não, eu não sou italiana. Eu só gosto muito da língua.
Ela me olha com desconfiança.
— A vovó Sam diz que mentir é feio… e eu tenho noventa por cento de certeza que você é italiana.
Essa Piccola não para de me surpreender.
Agora virou especialista em matemática. E quem é a vovó Sam?
— Primeiro, eu não estou mentindo. É você quem está. E segundo, quem é a vovó Sam?
— Eu não estou mentindo. Eu só não estou respondendo a tua pergunta. Ao contrário de você, que respondeu sobre a sua nacionalidade… e mentiu. E a vovó Sam é minha vovó, duh. E agora… vamos ao parque?
Ela faz olhos de gato inocente.
Tá, tá… já chega.
Olha, eu sei que sou uma sem sorte, mas por que não apareceu para mim uma criança que não sabe nem as vogais? Não. Tinha que ser a sobrinha reencarnada do Albert Einstein.
Mas pelo menos não parti nada hoje. Nem um copo.
Já é lucro.
Porque eu tenho quase certeza que a próxima notícia vai ser algo como:
“Desempregada aleijada sequestra filha do presidente da república.”
Eu nem sei se ela é, mas nunca se sabe.
E sim… ela conseguiu me arrastar com as minhas pernas de pato até ao parque.
Vimos de tudo. Palhaços. Crianças correndo. E até demos comida aos meus priminhos — que eram os patinhos, claro.
E agora estou aqui, no carrinho de gelados, porque a Piccola — que está atrás de mim — decidiu que quer um gelado de chocolate e baunilha.
E sim, antes que perguntem, eu também aceitei vir ao parque para tentar descobrir uma forma de levá-la para casa.
Afinal, a família deve estar preocupada com ela.
Pego os dois gelados — um de chocolate e baunilha para ela, e um de morango para mim — e tento equilibrar tudo enquanto as muletas parecem querer fugir debaixo dos meus braços.
— Aqui tens, Piccola! Mas olha que se deixares cair no teu moletom que eu acabei de lavar, eu não vou—
Travo.
Olho para a esquerda. Nada.
Para a direita, para trás outra vez… e nada.
Ela sumiu.
Onde ela está?
Há dois segundos ela estava aqui, a puxar a minha camisola. Agora… nada.
— Piccola? — chamo, e a minha voz sai um pouco mais aguda do que o normal. — Piccola? Ei, isto não tem graça!
O meu coração, que estava tão calmo por causa da manhã feliz, dá um salto e começa a martelar contra as minhas costelas. Olho em volta, ignorando a dor aguda no meu pé. O parque continua cheio de gente, mas ela desapareceu como se fosse fumaça.
— Piccola!
O desespero começa a subir pela minha garganta. O gelado de chocolate começa a derreter e a escorrer pelos meus dedos, mas eu nem sinto. Eu só consigo pensar naqueles olhinhos azuis.
Eu não posso tê-la perdido.
Não agora.
Não de novo!
Eu não posso ser tão amaldiçoada a ponto de cometer o mesmo erro. Não, não posso.
Com ela não.
Por favor.
Giro o meu corpo devagar, em desespero, procurando qualquer sinal de um moletom rosa.
E é aí que eu vejo.
Perto da saída lateral do parque, onde o sol não bate tanto, três carros pretos, enormes e reluzentes, estão estacionados em fila. Eles parecem tanques de guerra disfarçados de veículos de luxo.
E no meio deles, como uma barreira
humana, estão seis homens. Enormes. De terno preto, óculos escuros e expressões que dizem claramente:
“Se você se aproximar, você morre.”
E bem ali, no meio daquele círculo de perigo, eu vejo um pontinho rosa.
A piccolina.
Ela não está a correr. Ela não está a gritar.
Ela nem mesmo se mexe.
Ela está parada.
Pequena.
Frágil.
Diante daqueles gigantes.
— Oh, não… — sussurro para mim mesma.
O meu cérebro diz: Foge, Inara! Pega nas tuas muletas de pato e corre para o outro lado!
Mas os meus pés — ou o que resta de bom neles — não obedecem.
Eu deixo os gelados caírem na calçada. O chocolate mistura-se com o morango numa poça colorida, mas eu já estou a caminho.
Eu não sei quem são aqueles homens. Eu não sei se eles são a polícia ou algo muito pior. Mas eu prometi a ela que não a deixaria sozinha.
E, se eu tiver de enfrentar um exército de ternos pretos com um par de muletas de alumínio, que seja.
Vou até lá.
E seja o que Deus e os senhores da sorte quiserem.