Episódio 1
O cheiro de fumaça preenche e corrói meus pulmões.
Estou sufocando. Tento respirar e ouvir a minha própria respiração ofegante, mas só engulo veneno, que encurta minha vida lentamente. Arranho a minha garganta, sentindo minha pele repuxar sob as unhas, mas ainda assim não sinto alívio. A fumaça faz os meus olhos lacrimejarem, e quando alguém grita meu nome, vejo apenas uma parede impenetrável e incorpórea, atrás da qual uma sombra tênue se move.
— Estou aqui! A minha boca grita, mas os meus pulmões apenas expelem saliva ne*gra inexistente.
— Kira! A sua voz. Em algum lugar onde eu jamais conseguiria chegar com minhas próprias pernas. E duvido que algum dia consiga rastejar. — Kira, onde você está?!
— Estou aqui! Eu arfo, com o resto das minhas forças, quase perdendo a consciência.
E as palavras se perdem na dor quando um raio pesado e incandescente cai sobre meu braço, e minha pele queima como papel.
E eu grito tão desesperadamente que algo no meu peito explode, e o mundo, oscilando, desmorona como um castelo de cartas, direto no fogo que dança uma dança sacrificial ao meu redor.
— Kira! Alguém me agarra pelos ombros, me puxa para perto e acaricia minha cabeça suavemente. — Kira, isso é só um pesadelo.
Estou sufocando. Estou acordada, mas ainda não consigo respirar. A falta de ar é como um parafuso em brasa sendo rosqueado na minha garganta, e cada lâmina corta com uma ponta afiada como navalha. Apalpo às cegas, derrubando o abajur, porque o mundo está fluindo junto com minhas lágrimas.
— Aqui, Kira.
Reconheço a voz de Dima, mas isso não me faz sentir melhor. Só quando ele coloca a lata de spray fria na minha palma e eu respiro fundo pela primeira vez é que o pânico começa a diminuir.
— Respire, pequena. Dima me abraça forte, acariciando minhas costas como se eu fosse um bebê, deixando-me chorar pelo passado.
Dois anos se passaram, e esses sonhos ainda persistem. O mesmo pesadelo, quase o mesmo cenário: um incêndio, uma porta fechada, um espelho estilhaçado e vigas caindo sobre mim como palha de um telhado. Levanto a mão e o tecido fino da minha camisola escorrega, revelando uma marca de queimadura feia e torta, que se estende do meu pulso quase até o ombro. Ela também dói quase constantemente, como se os pesadelos por si só não bastassem para me fazer lembrar pelo resto da vida daquela noite e do homem que me salvou ao custo da própria vida.
E quando a crise de asma passa, a voz da consciência desperta, voz essa que recentemente se tornou minha fiel companheira. E sugere que não é justo lembrar do meu falecido noivo nos braços do tio dele, de quem me tornarei esposa em três semanas.
Dima se afasta, segura o meu rosto entre as mãos e enxuga as lágrimas da minha pele até que não reste nenhum vestígio. Ele tem trinta e quatro anos e está longe de ser um anjo, mas tem a aparência de um verdadeiro ator de Hollywood: charmoso, lindo, um viúvo desejável e com princípios. Porque nem mesmo os jornalistas ociosos têm nada contra ele, nenhuma mancha em sua reputação impecável, nem mesmo o menor fato difamatório, nenhum caso extraconjugal.
— Melhor? Ele pergunta, beijando minhas pálpebras fechadas.
Um gesto que sempre me acalma.
— Sim. Digo quase inaudível, ainda segurando o remédio que salva a minha vida na palma da mão.
Minha asma é mais uma lembrança daquela tragédia. Os médicos dizem que é apenas neuralgia, as sequelas do trauma que sofri, e que se eu realmente quiser, a doença vai passar, como um medo imaginário. Mas ou os médicos estão errados, ou eu não estou fazendo a diferença necessária, porque o spray que salva minha vida agora está guardado permanentemente na minha bolsa.
— Desculpe. Respiro mais calmamente, guardando o meu braço deformado de volta na manga. — Você está me tratando como um bebê.
Dima balança a cabeça, fingindo concordar com a minha autoflagelação, depois beija a minha testa e me empurra para o outro lado da cama.
Ele se deita ao meu lado, me puxando para seus braços.
Ele está esperando o nosso casamento para poder oficialmente compartilhar a minha cama.
Então, pelas próximas três semanas, dormiremos na mesma cama, como crianças: castamente e completamente vestidos. De agora em diante, sob o teto de Dima.