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A chuva caía forte naquela noite, molhando as ruas vazias da pequena cidade. O vento fazia as árvores balançarem violentamente enquanto um cachorro enorme, de pelos negros e olhos dourados, cambaleava pela estrada de terra. Havia sangue misturado na água da chuva. Feridas profundas cortavam seu corpo. Ele m*l conseguia andar.
Horas antes, ele tinha lutado contra outros da própria linhagem.
Uma raça antiga.
Homens capazes de se transformar em cães gigantes.
Criaturas que viviam escondidas entre os humanos havia séculos.
E naquela noite… ele quase morreu.
O animal caiu perto de uma cerca de madeira, soltando um gemido baixo de dor.
Foi quando os faróis de um carro iluminaram seu corpo machucado.
Uma mulher desceu rapidamente do veículo segurando um guarda-chuva. Os cabelos estavam presos de qualquer jeito e o rosto mostrava preocupação imediata ao vê-lo naquele estado.
— Meu Deus… quem fez isso com você?
O cachorro tentou rosnar por instinto, mas estava fraco demais.
Ela se ajoelhou devagar na lama, sem medo.
— Ei… calma… eu não vou machucar você.
Os olhos dourados dele encararam os dela pela primeira vez.
E algo estranho aconteceu.
Algo que ele nunca tinha sentido.
Cuidado.
Doçura.
Ela tirou o casaco e colocou sobre o corpo dele mesmo ficando toda molhada.
— Você tá tremendo… coitado…
Com dificuldade, ela conseguiu levá-lo até o carro.
Durante o caminho, ele permaneceu deitado no banco de trás observando cada movimento dela em silêncio. Nenhum humano jamais havia encostado nele daquela forma sem medo… sem violência… sem querer algo em troca.
Quando chegaram na pequena casa dela, ela improvisou um cantinho perto da lareira.
Pegou toalhas.
Água morna.
Remédios.
E começou a limpar suas feridas cuidadosamente.
Ele sentia dor… mas pela primeira vez em muitos anos, também sentia paz.
Ela sorriu de leve enquanto passava o pano úmido perto do rosto dele.
— Calma, garoto… eu vou cuidar de você, tá?
O coração dele acelerou.
Porque ninguém nunca tinha cuidado dele assim antes.
Ele permaneceu imóvel enquanto ela limpava cada ferida com delicadeza.
A luz da lareira iluminava o rosto dela de um jeito suave. Os cabelos caíam pelos ombros agora soltos da chuva, e o cheiro dela misturado com o calor da casa deixava os instintos dele completamente confusos.
Ele não deveria estar ali.
Humanos eram proibidos.
A linhagem dele escondia segredos perigosos demais para serem descobertos.
Mas naquele momento… ele não conseguia ir embora.
Ela pegou uma pomada e passou devagar perto de um corte profundo em sua costela.
O cachorro soltou um som baixo de dor.
— Eu sei… eu sei… deve tá ardendo muito…
Ela fez carinho na cabeça dele tentando acalmá-lo.
E aquilo…
Aquilo destruiu alguma coisa dentro dele.
Porque fazia anos que ninguém o tocava com carinho.
Anos.
Talvez desde criança.
Ela terminou os curativos improvisados e suspirou cansada.
— Pronto… pelo menos você não vai morrer essa noite.
Ela sorriu pequena.
E ele ficou observando aquele sorriso como se fosse a coisa mais bonita que já tinha visto.
Depois ela se levantou indo até a cozinha.
Voltou com uma tigela de água e alguns pedaços de carne.
— Não sei se cachorro pode comer isso temperado… mas é o que eu tenho.
Ele quase soltou uma risada humana por dentro.
Mesmo ferido… mesmo exausto… ela ainda estava preocupada com ele.
Enquanto ele comia devagar, ela sentou no chão perto da lareira abraçando os próprios joelhos.
— Sabe… eu também me sinto meio perdida às vezes.
Os olhos dourados dele foram imediatamente até ela.
A voz dela estava triste agora.
— Tem dias que essa casa fica silenciosa demais…
Ela abaixou o olhar para o fogo.
— Acho que cuidar de alguém me faz sentir menos sozinha.
O peito dele apertou.
Porque entendia exatamente aquele sentimento.
Ela olhou novamente para ele e sorriu fraco.
— Você pode ficar aqui essa noite, tá bom?
O coração dele disparou de novo.
Ela estendeu a mão devagar.
E dessa vez… ele aproximou a cabeça permitindo o toque.
Os dedos dela deslizaram pelos pelos molhados dele com tanto carinho que quase doeu.
Então ela sussurrou:
— Você é lindo… sabia?
Ele fechou os olhos por um instante.
E naquele momento perigoso… pela primeira vez na vida… ele desejou ser apenas um homem normal.