Amira nunca tinha visto Lorenzo de outro modo além do homem que a mantinha cativa.
Mas naquela manhã, quando a porta do escritório se abriu e ela o encontrou sem a camisa de terno, o choque foi quase físico.
O corpo dele parecia esculpido em pedra. Linhas negras atravessavam o peito, subiam pelos ombros e se perdiam nas costas.
Cada tatuagem parecia contar algo que ela não compreendia — um idioma feito de dor, honra e sangue.
Lorenzo não notou a presença dela de imediato. Estava de costas, sentado diante da lareira apagada, com um copo de uísque na mão e o olhar fixo em algo distante.
Quando se virou, a expressão fria de sempre voltou.
— O que faz aqui sem ser chamada? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de comando.
— Trouxeram o café. Disseram pra deixar na sua mesa. — Ela tentou manter o tom neutro.
— E decidiu me servir pessoalmente? — Um meio sorriso, quase imperceptível. — Ou é curiosidade?
— Nenhuma das duas. — respondeu. — Só não queria que achassem que eu estava desobedecendo.
Ele se levantou, aproximando-se. A luz atravessou o vidro e tocou as tatuagens.
Havia um crânio sobre o coração, com um nome riscado por cima. Um par de asas rasgadas nas costelas. Uma inscrição em latim próxima à clavícula: Mors mea, vita tua.
— Morte minha, vida tua. — leu em voz alta, sem pensar.
Lorenzo parou diante dela, o olhar queimando. — Cuidado com o que lê. Nem tudo foi feito pra ser entendido.
Amira recuou um passo. — Por que cobrir o corpo com isso?
Ele riu, sem humor. — Porque a pele é o único papel que não queima.
A resposta ficou suspensa entre eles. Ela queria continuar, queria entender. Mas o olhar dele era como lâmina.
Ainda assim, algo a impulsionou.
— Cada desenho tem um nome? Uma história? — perguntou.
Lorenzo deu de ombros. — Alguns são lembranças. Outros, punições.
Ele passou a mão sobre o antebraço, onde uma serpente envolvia o símbolo de uma cruz.
— Essa aqui… foi a primeira. Eu tinha dezessete anos. Cada volta da tinta foi pra lembrar o que acontece quando confio demais.
— Confiou em quem?
— Ninguém que valha o fôlego pra ser lembrado.
O silêncio caiu de novo, denso, e Amira percebeu que ele não queria continuar. Ainda assim, havia algo nela — uma inquietação que crescia a cada vez que o via.
Não era atração pura. Era curiosidade misturada ao medo, uma tentativa de entender o monstro por trás da reputação.
Ela pousou o café sobre a mesa. — Deveria deixar que alguém te escutasse de verdade, Lorenzo.
Ele arqueou uma sobrancelha. — E acha que sobreviveria quem me ouvisse por completo?
Amira respirou fundo. — Talvez. Ou talvez isso te libertasse.
Ele riu baixo, aproximando-se o bastante para que ela sentisse o calor do corpo dele. — Libertar o Don? Você fala como se eu fosse um prisioneiro.
— Não é? — desafiou. — Vive trancado atrás dessas paredes, dessas marcas… dessa raiva.
Por um segundo, o olhar dele perdeu o foco. A mandíbula travou, e Amira percebeu que havia tocado num ponto perigoso.
— Acha que me conhece? — ele perguntou, num sussurro.
— Não. Mas sei o que é se esconder de si mesmo.
Lorenzo virou o rosto, respirando fundo. O silêncio dele era um campo minado.
De repente, ele agarrou o pulso dela e o levou até o peito nu, onde a tatuagem do crânio repousava.
— Sente isso? — perguntou, o tom rouco. — Cada batida é uma dívida. Cada marca, um pecado que não se apaga. Quer entender o Don? Aprenda a carregar o peso sem derrubar o copo.
Ela tentou soltar-se, mas ele não a machucava. Apenas mantinha o toque firme, como se quisesse que ela sentisse o que ele negava.
O coração dele batia rápido, forte — humano demais para o homem que dizia não amar.
— Lorenzo… — ela murmurou, assustada com a própria voz.
Ele a soltou e se afastou. — Vá embora, Amira.
Ela hesitou. — E se eu não quiser?
— Então vai descobrir o que acontece com quem ultrapassa fronteiras.
O tom era uma ameaça, mas também um aviso. Amira recuou, pegou a bandeja e caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou por cima do ombro. — Um dia, vai perceber que até pedra se quebra.
Ele não respondeu. Apenas ficou parado, observando o rastro dela desaparecer pelo corredor.
Quando o silêncio voltou, Lorenzo olhou para o copo vazio e murmurou: — Pedra não sente. Pedra sobrevive.
Mas, pela primeira vez, a frase soou falsa até para ele.
Mais tarde, durante a tarde, Amira não conseguia afastar da mente as imagens das tatuagens de Lorenzo. Cada linha, cada símbolo, parecia falar sem precisar de palavras. Ela sentia medo, mas também curiosidade — uma necessidade perigosa de decifrar o homem que a mantinha cativa.
Ao descer para a biblioteca, encontrou Dante Russo organizando alguns livros. Ele era confiável para Lorenzo e alguém que parecia compreender o código de silêncio do Don.
— Vejo que está interessada nas histórias do senhor Lorenzo. — Dante comentou, sem levantar os olhos. — Mas cuidado. Nem tudo que ele carrega foi feito para olhos curiosos.
— São apenas tatuagens — respondeu Amira, tentando soar firme. — Não quero me meter onde não devo.
— Não, não são. Cada marca é cicatriz viva. Cada desenho, memória de um mundo que ele perdeu. E tudo que ele faz hoje — até mesmo essa prisão dourada — é consequência disso.
Amira sentiu um frio percorrer a espinha. Dante continuou:
— Há uma tatuagem que poucos já viram. No ombro direito, há a inicial de Matteo. Lorenzo a mantém não para se lembrar, mas para que ninguém esqueça a dívida que carrega consigo mesmo.
Ela compreendeu que cada desenho era mais do que tinta: era aviso, história e punição ao mesmo tempo.
— Por que mostra isso a mim? — perguntou.
— Porque cedo ou tarde, você vai tocar o que não deve — disse Dante, e desapareceu entre as prateleiras, deixando Amira sozinha com o eco de suas palavras.
À noite, a mansão parecia maior e mais silenciosa. Amira, movida pela curiosidade, voltou até o escritório. Encontrou uma fotografia antiga sobre a mesa de Lorenzo: um grupo de homens e mulheres, todos com semblante sério, tatuagens visíveis, armas ao redor. No centro, Lorenzo e Matteo, jovens, confiantes.
Antes que pudesse reagir, a porta se abriu com força. Ele estava ali, imóvel, os olhos flamejando.
— Achei que tivesse entendido a lição de hoje. — O tom era baixo, mas mortal.
— Eu só estava curiosa — murmurou Amira, ainda segurando a foto.
Ele caminhou até ela, e o simples bater do sapato no chão ecoava como ameaça.
— Curiosidade é um luxo que não se permite aqui — disse, aproximando-se. — Mas vou lhe dar algo que talvez explique por que mantenho essas marcas.
Lorenzo estendeu o braço. Amira hesitou, mas o toque dele não foi violento. Apenas pressionou a mão dela contra a tatuagem do crânio sobre o peito.
— Sinta — murmurou. — Cada linha é dor, perda, sangue. Cada traço é promessa quebrada e sobrevivência.
Ela fechou os olhos e sentiu a pele firme sob os dedos dele. Por um instante, não havia medo, nem raiva — apenas a verdade crua que ele escondia em cada desenho.
— Por que faz isso com você mesmo? — perguntou, quase num sussurro.
— Para lembrar que nada do que se perde volta — respondeu ele. — E que nem todo coração pode ser salvo, nem toda dívida apagada.
O silêncio caiu entre eles, pesado, carregado de tensão. Amira percebeu algo novo: o homem que ela julgava c***l e frio também era vulnerável, mas escondia isso atrás de uma muralha feita de sangue, dor e tatuagens.
— Você poderia me odiar completamente — continuou ela, tentando decifrar cada gesto — mas ainda assim parece que carrega algo por dentro que ninguém vê.
Ele desviou o olhar, e a tensão transformou-se em algo quase humano. — E se eu disser que sim? Que carrego? Que cada dia que você está aqui, me lembra do que não posso ter e do que não posso destruir?
Amira sentiu a força daquilo. Não era sedução, nem atração — era confronto de almas feridas.
— E por isso me mantém aqui? — murmurou.
— Não. — disse ele, passando o dedo pelo vidro da foto que ela ainda segurava. — Mas porque não posso deixar você ir.
O coração dela disparou. A frase parecia simples, mas carregava o peso de anos de dor contida, de perdas que ele não sabia expor.
— Então, estamos empatados — disse, tentando equilibrar medo e raiva. — Eu não vou me quebrar e você não vai me possuir.
Ele a olhou por um instante que durou uma eternidade. A mão que tocara sua pele caiu lentamente.
— Veremos — disse, finalmente se afastando. — Mas lembre-se: quem toca o que não deve paga caro.
Amira voltou para o quarto, o corpo tremendo. Não sabia se o que sentia era medo, curiosidade, ou algo mais profundo, que se enraizava em silêncio.
Ela olhou para o espelho e viu a própria imagem refletida: olhos atentos, semblante fechado, mas com o coração acelerado por algo que não queria admitir.
Lorenzo permanecia no corredor, observando de longe. Pela primeira vez, a solidão e o poder não pareciam suficientes para afastar o turbilhão que ela provocava nele.
Ele respirou fundo, murmurando para si mesmo:
— Nunca permiti que alguém fizesse isso. Nunca.
E, naquela noite, ambos entenderam que a guerra entre o Don e a prisioneira estava apenas começando.
Mas algo havia mudado: a curiosidade de Amira não era apenas sobre ele, era sobre as sombras que cada tatuagem carregava. E o silêncio de Lorenzo não era apenas medo ou crueldade; era história, sangue e talvez, no fundo, arrependimento.