O teto branco parecia girar. Amira acordou sem saber quanto tempo havia dormido. As cortinas pesadas bloqueavam qualquer vestígio de sol, e o quarto era grande demais, frio demais. Por um momento, ela acreditou estar sonhando — até sentir o peso da tornozeleira de aço em sua perna.
O estômago revirou. O cheiro do quarto era diferente, uma mistura de madeira antiga e perfume masculino. As lembranças voltaram em rajadas: o som das batidas na porta, os gritos da mãe, a expressão vazia de Lorenzo. Ela se encolheu, cobrindo o rosto com as mãos.
O que ele ganhou arrancando-a de casa daquela forma? O que ela representava para um homem que parecia não ter alma?
O coração pulsava devagar, como se o corpo resistisse em aceitar a realidade.
Amira levantou, caminhando até a janela. As barras de ferro do lado de fora confirmaram o que ela já sabia.
“Cárcere dourado”, pensou, lembrando-se das palavras dele.
Nada mais c***l do que transformar um lar em prisão.
Um som metálico atrás dela a fez virar. A porta se abriu lentamente. Uma mulher entrou empurrando um carrinho de prata com bandejas cobertas.
— O senhor Lorenzo pediu que comesse. — O tom era neutro, sem simpatia.
— Porque? — perguntou Amira, tentando controlar a voz.
— Menina sigo ordens apenas. — A mulher desviou o olhar. — É melhor não contrariá-lo.
— Eu quero falar com ele.
— Isso não depende de mim. — Ela se curvou ligeiramente e saiu.
O silêncio que ficou foi pior que a solidão. Amira caminhou de um lado ao outro, procurando qualquer objeto que pudesse servir para abrir a janela. Nada. Apenas luxo, madeira maciça e vigilância.
Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. A raiva começou a substituir o medo.
“Por que tanta crueldade?” — repetia mentalmente, como um eco sem resposta.
Sabia que o pai havia feito negócios errados, mas jamais imaginou que pagaria com a própria liberdade. O mais insuportável era o olhar de Lorenzo antes de levá-la: aquele brilho calmo de quem não precisava gritar para destruir alguém.
A maçaneta girou novamente.
Ele entrou.
O mesmo homem que transformara sua casa em um campo de ruínas agora atravessava o quarto como se fosse dono de cada centímetro do ar.
— Já acordou — disse, sem emoção. — Ótimo. Temos muito o que conversar.
Amira permaneceu em silêncio, observando-o.
Ele vestia uma camisa preta dobrada até os antebraços, revelando tatuagens que subiam pelo braço, símbolos e nomes que ela não reconhecia.
— Você acha que pode me manter aqui para sempre? — perguntou, levantando-se devagar.
— Acho. — Ele se aproximou. — A menos que seus pais façam o impossível.
— E se eu fugir?
— Vai morrer tentando.
As palavras foram frias, ditas sem raiva. Era apenas um fato.
Amira cruzou os braços, tentando parecer mais forte do que se sentia.
— Por que eu? Por que não levou o dinheiro que ele ainda tem?
— Porque dinheiro some. Pessoas não.
Ela sentiu o ar rarear.
— Então eu sou o quê? Um aviso?
— Um lembrete — respondeu, acendendo um cigarro. A fumaça subiu lenta. — Cada dívida tem um rosto. Agora, o do seu pai é o seu.
Amira se aproximou um passo. — Você não tem coração.
Lorenzo sorriu, breve e sem humor. — O coração só atrapalha.
O som do isqueiro se fechando quebrou o silêncio. Ele observava cada reação dela, como se decifrasse um segredo.
— O quarto é seu. — Disse, apagando o cigarro no cinzeiro de cristal. — Há roupas no armário. Banhe-se, alimente-se. E nunca tente abrir as portas.
Ela o seguiu com o olhar até ele alcançar a porta.
— Por que faz isso comigo? — perguntou, quase num sussurro.
Ele parou. — Porque posso. — E saiu.
A raiva queimou dentro dela. Correu até a porta, golpeando com força.
— Covarde! — gritou. — Você é um monstro!
Do lado de fora, silêncio.
Amira caiu de joelhos. O choro veio pesado, engolido por entre os soluços. Por dentro, a imagem da própria casa invadida voltava em flashes: a sala, o cheiro da mãe, o toque das mãos do pai pedindo perdão. Tudo que conhecia havia sido arrancado.
Levantou-se com dificuldade e olhou para o espelho. O reflexo devolvia uma mulher que m*l reconhecia. Olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, o pescoço marcado pela força com que fora puxada.
Jurou para si mesma que não choraria mais.
Deitou-se na cama, tentando controlar a respiração. O sono não veio. Apenas o som distante de passos — provavelmente guardas — e o bater constante do coração lembrando-a de que ainda estava viva.
No fundo, algo crescia entre o medo e o ódio. Algo que ela não queria nomear.
Um instinto perigoso de querer entender aquele homem.
O sol lutava para atravessar as frestas das cortinas quando Amira ouviu o som de uma chave girando. O coração acelerou antes mesmo que ela percebesse o motivo. A porta se abriu e Lorenzo entrou, sem bater, com a calma de quem sabia que nada ali o impediria.
— Esta calma agora? — perguntou.
— Como se fosse possível. — Ela não olhou para ele.
— Vai ter que se acostumar.
A resposta seca doeu mais do que qualquer golpe. Lorenzo caminhou até a janela e afastou a cortina. A claridade invadiu o quarto, revelando a imponência da mansão do lado de fora: jardins imensos, cães de guarda, câmeras por toda parte. Um verdadeiro labirinto.
— Bonita vista, não é? — Ele falou, acendendo um cigarro. — Só serve pra lembrar que a liberdade existe.
Amira respirou fundo. — Você se alimenta do medo das pessoas.
— Eu me alimento da verdade. E a verdade é simples: ou você obedece, ou sofre.
Ela se levantou devagar. — E o que ganha me trancando aqui?
— Paz. — Ele soprou a fumaça no ar. — Seu pai me deve mais do que dinheiro.
Amira franziu o cenho. — Do que está falando?
Lorenzo se virou, os olhos mergulhados em lembranças que pareciam sangrar.
— Há oito anos, ele traiu meu irmão em um acordo. Prometeu entregar mercadoria e informação. Entregou os dois… para os inimigos. — Deu uma pausa. — Meu irmão foi encontrado morto em uma estrada.
Ela recuou um passo. — Eu… não sabia disso.
— Agora sabe. — Ele se aproximou. — E é por isso que está aqui.
O ar se tornou denso, quase impossível de respirar.
— Então eu sou um castigo pelo passado?
— Uma compensação. — A voz dele era baixa, mas cortante. — A vida cobra de formas que nem sempre fazem sentido.
Amira mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. — Eu não fiz nada.
— E acha que isso importa? — Ele deu um passo, ficando a poucos centímetros dela. — No meu mundo, a culpa é herdada.
O olhar de Lorenzo prendia, intimidava, mas havia algo que escapava — um lampejo breve de dor.
Amira percebeu. E, pela primeira vez, ele desviou o olhar.
— Está com fome? — perguntou, mudando de assunto.
— Estou com raiva.
Ele riu, sem humor. — Isso também alimenta.
Lorenzo saiu do quarto sem esperar resposta. A porta voltou a se trancar.
Amira ficou parada, tentando entender a contradição que ele carregava: brutalidade por fora, um tipo estranho de ferida por dentro.
Horas depois, a mesma mulher do uniforme trouxe o almoço.
— Ele mandou que descesse. — informou, tensa.
— Pra quê?
— Jantar. E ele não aceita recusas.
Amira hesitou, mas a curiosidade venceu o medo. Seguiu a empregada pelos corredores extensos, observando as esculturas, os quadros antigos, o silêncio pesado da casa. Tudo ali gritava poder e ausência.
Na sala de jantar, Lorenzo já a esperava. De terno escuro, mangas arregaçadas, taça de vinho na mão.
— Sente-se. — ordenou.
Ela se manteve de pé.
— Prefiro ficar assim.
— Não perguntei o que prefere.
Amira o encarou, e o silêncio entre eles foi tão tenso que até o som dos talheres pareceu distante.
— Seu pai ainda não tentou contato. — disse ele, cortando a carne. — Covardes sempre desaparecem.
— Ele vai conseguir o dinheiro.
— Não é dinheiro que quero. — O olhar dele subiu devagar. — Quero que ele sinta o que eu senti.
Ela respirou fundo. — Isso não vai trazer seu irmão de volta.
Por um instante, o ar pareceu parar. Lorenzo apoiou o garfo e se inclinou.
— Nunca mais diga o nome dele.
Amira se assustou com o tom baixo, perigoso, que vibrava em cada sílaba.
— Eu só quis dizer…
— Eu sei o que quis. — Ele se levantou, contornando a mesa. — Mas há coisas que não se dizem na minha presença.
O perfume dele invadiu o espaço entre os dois. Ela deu um passo atrás, mas ele não a tocou. Apenas observou.
— Você me olha como se quisesse entender — disse ele. — Mas entender exige viver o inferno de alguém. Está pronta pra isso?
— Eu não sou como você.
— Ainda não.
O sorriso dele foi quase imperceptível. Amira sentiu o estômago se revirar, não de medo, mas de uma raiva misturada a algo que não sabia nomear.
— Volte pro quarto. — ordenou. — Amanhã, as regras começam.
Ela obedeceu, mas antes de sair olhou para trás.
Lorenzo estava de pé, olhando para o nada, o cigarro queimando entre os dedos. Pela primeira vez, ele parecia… cansado.
No quarto, Amira sentou na cama e deixou o corpo cair. O coração ainda pulsava rápido.
Tentava odiá-lo, mas o ódio vinha misturado à curiosidade.
“Que tipo de homem é esse?”, pensava. “O que o fez tão frio, tão sem perdão?”
A lembrança do olhar dele, a forma como a raiva e a dor se confundiam em cada gesto, a perseguiam.
Quando fechou os olhos, ouviu o barulho da chave girando do lado de fora.
Mais um dia começava — e ela entendia, enfim, que o inferno tinha dono.