Roubada da Própria Casa

1678 Words
O teto branco parecia girar. Amira acordou sem saber quanto tempo havia dormido. As cortinas pesadas bloqueavam qualquer vestígio de sol, e o quarto era grande demais, frio demais. Por um momento, ela acreditou estar sonhando — até sentir o peso da tornozeleira de aço em sua perna. O estômago revirou. O cheiro do quarto era diferente, uma mistura de madeira antiga e perfume masculino. As lembranças voltaram em rajadas: o som das batidas na porta, os gritos da mãe, a expressão vazia de Lorenzo. Ela se encolheu, cobrindo o rosto com as mãos. O que ele ganhou arrancando-a de casa daquela forma? O que ela representava para um homem que parecia não ter alma? O coração pulsava devagar, como se o corpo resistisse em aceitar a realidade. Amira levantou, caminhando até a janela. As barras de ferro do lado de fora confirmaram o que ela já sabia. “Cárcere dourado”, pensou, lembrando-se das palavras dele. Nada mais c***l do que transformar um lar em prisão. Um som metálico atrás dela a fez virar. A porta se abriu lentamente. Uma mulher entrou empurrando um carrinho de prata com bandejas cobertas. — O senhor Lorenzo pediu que comesse. — O tom era neutro, sem simpatia. — Porque? — perguntou Amira, tentando controlar a voz. — Menina sigo ordens apenas. — A mulher desviou o olhar. — É melhor não contrariá-lo. — Eu quero falar com ele. — Isso não depende de mim. — Ela se curvou ligeiramente e saiu. O silêncio que ficou foi pior que a solidão. Amira caminhou de um lado ao outro, procurando qualquer objeto que pudesse servir para abrir a janela. Nada. Apenas luxo, madeira maciça e vigilância. Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. A raiva começou a substituir o medo. “Por que tanta crueldade?” — repetia mentalmente, como um eco sem resposta. Sabia que o pai havia feito negócios errados, mas jamais imaginou que pagaria com a própria liberdade. O mais insuportável era o olhar de Lorenzo antes de levá-la: aquele brilho calmo de quem não precisava gritar para destruir alguém. A maçaneta girou novamente. Ele entrou. O mesmo homem que transformara sua casa em um campo de ruínas agora atravessava o quarto como se fosse dono de cada centímetro do ar. — Já acordou — disse, sem emoção. — Ótimo. Temos muito o que conversar. Amira permaneceu em silêncio, observando-o. Ele vestia uma camisa preta dobrada até os antebraços, revelando tatuagens que subiam pelo braço, símbolos e nomes que ela não reconhecia. — Você acha que pode me manter aqui para sempre? — perguntou, levantando-se devagar. — Acho. — Ele se aproximou. — A menos que seus pais façam o impossível. — E se eu fugir? — Vai morrer tentando. As palavras foram frias, ditas sem raiva. Era apenas um fato. Amira cruzou os braços, tentando parecer mais forte do que se sentia. — Por que eu? Por que não levou o dinheiro que ele ainda tem? — Porque dinheiro some. Pessoas não. Ela sentiu o ar rarear. — Então eu sou o quê? Um aviso? — Um lembrete — respondeu, acendendo um cigarro. A fumaça subiu lenta. — Cada dívida tem um rosto. Agora, o do seu pai é o seu. Amira se aproximou um passo. — Você não tem coração. Lorenzo sorriu, breve e sem humor. — O coração só atrapalha. O som do isqueiro se fechando quebrou o silêncio. Ele observava cada reação dela, como se decifrasse um segredo. — O quarto é seu. — Disse, apagando o cigarro no cinzeiro de cristal. — Há roupas no armário. Banhe-se, alimente-se. E nunca tente abrir as portas. Ela o seguiu com o olhar até ele alcançar a porta. — Por que faz isso comigo? — perguntou, quase num sussurro. Ele parou. — Porque posso. — E saiu. A raiva queimou dentro dela. Correu até a porta, golpeando com força. — Covarde! — gritou. — Você é um monstro! Do lado de fora, silêncio. Amira caiu de joelhos. O choro veio pesado, engolido por entre os soluços. Por dentro, a imagem da própria casa invadida voltava em flashes: a sala, o cheiro da mãe, o toque das mãos do pai pedindo perdão. Tudo que conhecia havia sido arrancado. Levantou-se com dificuldade e olhou para o espelho. O reflexo devolvia uma mulher que m*l reconhecia. Olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, o pescoço marcado pela força com que fora puxada. Jurou para si mesma que não choraria mais. Deitou-se na cama, tentando controlar a respiração. O sono não veio. Apenas o som distante de passos — provavelmente guardas — e o bater constante do coração lembrando-a de que ainda estava viva. No fundo, algo crescia entre o medo e o ódio. Algo que ela não queria nomear. Um instinto perigoso de querer entender aquele homem. O sol lutava para atravessar as frestas das cortinas quando Amira ouviu o som de uma chave girando. O coração acelerou antes mesmo que ela percebesse o motivo. A porta se abriu e Lorenzo entrou, sem bater, com a calma de quem sabia que nada ali o impediria. — Esta calma agora? — perguntou. — Como se fosse possível. — Ela não olhou para ele. — Vai ter que se acostumar. A resposta seca doeu mais do que qualquer golpe. Lorenzo caminhou até a janela e afastou a cortina. A claridade invadiu o quarto, revelando a imponência da mansão do lado de fora: jardins imensos, cães de guarda, câmeras por toda parte. Um verdadeiro labirinto. — Bonita vista, não é? — Ele falou, acendendo um cigarro. — Só serve pra lembrar que a liberdade existe. Amira respirou fundo. — Você se alimenta do medo das pessoas. — Eu me alimento da verdade. E a verdade é simples: ou você obedece, ou sofre. Ela se levantou devagar. — E o que ganha me trancando aqui? — Paz. — Ele soprou a fumaça no ar. — Seu pai me deve mais do que dinheiro. Amira franziu o cenho. — Do que está falando? Lorenzo se virou, os olhos mergulhados em lembranças que pareciam sangrar. — Há oito anos, ele traiu meu irmão em um acordo. Prometeu entregar mercadoria e informação. Entregou os dois… para os inimigos. — Deu uma pausa. — Meu irmão foi encontrado morto em uma estrada. Ela recuou um passo. — Eu… não sabia disso. — Agora sabe. — Ele se aproximou. — E é por isso que está aqui. O ar se tornou denso, quase impossível de respirar. — Então eu sou um castigo pelo passado? — Uma compensação. — A voz dele era baixa, mas cortante. — A vida cobra de formas que nem sempre fazem sentido. Amira mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. — Eu não fiz nada. — E acha que isso importa? — Ele deu um passo, ficando a poucos centímetros dela. — No meu mundo, a culpa é herdada. O olhar de Lorenzo prendia, intimidava, mas havia algo que escapava — um lampejo breve de dor. Amira percebeu. E, pela primeira vez, ele desviou o olhar. — Está com fome? — perguntou, mudando de assunto. — Estou com raiva. Ele riu, sem humor. — Isso também alimenta. Lorenzo saiu do quarto sem esperar resposta. A porta voltou a se trancar. Amira ficou parada, tentando entender a contradição que ele carregava: brutalidade por fora, um tipo estranho de ferida por dentro. Horas depois, a mesma mulher do uniforme trouxe o almoço. — Ele mandou que descesse. — informou, tensa. — Pra quê? — Jantar. E ele não aceita recusas. Amira hesitou, mas a curiosidade venceu o medo. Seguiu a empregada pelos corredores extensos, observando as esculturas, os quadros antigos, o silêncio pesado da casa. Tudo ali gritava poder e ausência. Na sala de jantar, Lorenzo já a esperava. De terno escuro, mangas arregaçadas, taça de vinho na mão. — Sente-se. — ordenou. Ela se manteve de pé. — Prefiro ficar assim. — Não perguntei o que prefere. Amira o encarou, e o silêncio entre eles foi tão tenso que até o som dos talheres pareceu distante. — Seu pai ainda não tentou contato. — disse ele, cortando a carne. — Covardes sempre desaparecem. — Ele vai conseguir o dinheiro. — Não é dinheiro que quero. — O olhar dele subiu devagar. — Quero que ele sinta o que eu senti. Ela respirou fundo. — Isso não vai trazer seu irmão de volta. Por um instante, o ar pareceu parar. Lorenzo apoiou o garfo e se inclinou. — Nunca mais diga o nome dele. Amira se assustou com o tom baixo, perigoso, que vibrava em cada sílaba. — Eu só quis dizer… — Eu sei o que quis. — Ele se levantou, contornando a mesa. — Mas há coisas que não se dizem na minha presença. O perfume dele invadiu o espaço entre os dois. Ela deu um passo atrás, mas ele não a tocou. Apenas observou. — Você me olha como se quisesse entender — disse ele. — Mas entender exige viver o inferno de alguém. Está pronta pra isso? — Eu não sou como você. — Ainda não. O sorriso dele foi quase imperceptível. Amira sentiu o estômago se revirar, não de medo, mas de uma raiva misturada a algo que não sabia nomear. — Volte pro quarto. — ordenou. — Amanhã, as regras começam. Ela obedeceu, mas antes de sair olhou para trás. Lorenzo estava de pé, olhando para o nada, o cigarro queimando entre os dedos. Pela primeira vez, ele parecia… cansado. No quarto, Amira sentou na cama e deixou o corpo cair. O coração ainda pulsava rápido. Tentava odiá-lo, mas o ódio vinha misturado à curiosidade. “Que tipo de homem é esse?”, pensava. “O que o fez tão frio, tão sem perdão?” A lembrança do olhar dele, a forma como a raiva e a dor se confundiam em cada gesto, a perseguiam. Quando fechou os olhos, ouviu o barulho da chave girando do lado de fora. Mais um dia começava — e ela entendia, enfim, que o inferno tinha dono.
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