Hope
O sol ainda nem havia tocado o alto das janelas quando abri os olhos. A luz pálida da manhã entrava pelas frestas das cortinas e se espalhava como um convite silencioso para começar o dia.
A mansão parecia dormir, envolta num sossego tão denso que eu quase podia ouvir a respiração dos móveis antigos, como se as paredes tivessem alma.
Por um instante, fiquei ali, deitada, ouvindo o som distante dos passarinhos que cantavam no jardim, e senti o coração apertar de um jeito estranho — um misto de esperança e medo, como quem se prepara para enfrentar o que mais ama e o que mais teme ao mesmo tempo.
Levantei devagar, vesti o robe e prendi o cabelo; a brisa matinal passava pelo meu rosto como um suave lembrete da vida que pulsava fora daquele quarto.
Cada passo meu fazia o chão de madeira ranger levemente, denunciando minha presença no corredor ainda adormecido.
Ao chegar à cozinha, encontrei Mirtes, já acordada e cuidando do café da manhã com o zelo de quem trata o lar como um templo.
O cheiro do café recém-passado preenchia o ar com aquele aroma que abraça, conforta e relembra o lar.
— Bom dia, Mirtes — falei com um sorriso, tentando parecer mais descansada do que realmente estava.
— Bom dia, senhorita Hope — respondeu ela, gentil, limpando as mãos no avental.
— Dormiu bem?
— Dormi, sim, — menti um pouco, porque a verdade é que o sono tinha sido leve e cheio de pensamentos.
Havia algo flutuando no ar, como se estivesse presa entre o passado e o futuro, tornando cada momento ainda mais precioso.
— Queria pedir um favor, pode preparar uma bandeja com frutas, um pouco de pão de mel e água de coco? É para minha irmã.
Ela assentiu, com aquele olhar que já diz tudo antes das palavras.
— Já está pronta, querida? — Com cuidado, Mirtes colocou sobre a bandeja uma toalha branca e um pequeno arranjo de flores, simples e bonito, que brotava da disposição dela em fazer cada gesto como se fosse um presente.
— Ela precisa de força, não é?
— Precisa — murmurei — e de fé também, hoje vai ser o primeiro dia do recomeço dela.
Subi as escadas com a bandeja nas mãos e o coração aos pulos. A cada degrau, a lembrança de todos os dias difíceis que vivemos voltava em silêncio — as manhãs frias no orfanato, as noites dividindo o mesmo cobertor, as vezes em que fingimos estar saciadas para que a outra comesse o último pedaço de pão.
Quando entrei no quarto, ela ainda estava acordando, com o rosto pálido, os cabelos espalhados pelo travesseiro e os olhos sonolentos, mas cheios de doçura.
— Bom dia, dorminhoca — falei, tentando deixar o tom leve, mesmo sentindo a emoção bater no peito.
Ela virou o rosto em minha direção, com aquele sorriso cansado que aprendi a decifrar desde criança.
— Bom dia, Hope, já está de pé tão cedo?
— Já, hoje é um dia importante, lembra? — Sentei-me à beira da cama, ajeitando o travesseiro e colocando a bandeja sobre o colo dela.
— Hoje é o dia em que você vai ser internada. Os médicos vão começar os exames, e até o fim da semana você vai estar pronta para a cirurgia.
Por um instante, ela ficou me olhando, calada, e eu percebi o medo escondido no brilho dos olhos dela.
Aproximei-me e segurei sua mão, sentindo o quanto estava fria, como se fosse um eco de toda a fragilidade que cercava aquele momento.
— Hope… você tem certeza de que é isso que quer fazer? — perguntou baixinho, quase num sussurro, como se temesse ouvir a resposta.
Olhei para ela e sorri, tentando segurar a emoção que ameaçava me trair.
— Tenho, sim. Por você eu faria qualquer coisa. E sei que, se fosse o contrário, você também faria.
Ela virou o rosto e respirou fundo, emocionada.
— Eu só tenho você, Faith, você é minha única família.
— Eu faria o mesmo — respondi, e a voz dela soou frágil, mas cheia de amor.
Abracei-a e deixei o silêncio dizer o que as palavras não conseguiam, senti o coração dela bater devagar contra o meu e pedi em pensamento para que Deus me desse força para não fraquejar.
Afastei-me um pouco e tentei sorrir novamente.
— Agora, chega de conversa e vamos cuidar de você, precisa comer.
Ela franziu o nariz, como sempre fazia quando não queria algo, mas eu vi em seus olhos a necessidade de se sentir cuidada, mesmo que temporariamente mais fraca.
— Vamos, só um pouco.
— Não estou com fome, Hope.
— Está sim, só não quer admitir, — peguei o garfo e brinquei, fingindo alimentar um bebê, a tentação de vê-la rir aliviando um pouco a tensão do momento. — vai, abre a boca, minha paciente preferida.
Ela acabou rindo e aceitou a comida, devagar, com pequenos goles de suco e mordidas tímidas, como se cada colherada fosse um esforço para resgatar um pouco de vida em um dia que prometia ser duro.
Quando terminou, entreguei-lhe o copo de água de coco.
— Beba tudo, por favor.
— Ela obedeceu e eu suspirei, aliviada.
— Pronto. Está alimentada, hidratada e pronta para o banho.
Ajudá-la a se levantar me trouxe de volta o peso real da situação.
Ela estava tão frágil, tão leve, que parecia feita de vento, quase como se pudesse se desvanecer a qualquer momento.
Segurei firme, dando apoio até o banheiro e deixando a água correr, morna, enquanto cuidava de cada detalhe com a delicadeza que sempre desejei oferecer.
Lavei-lhe os cabelos com carinho, enrolei-a na toalha macia e vesti nela o vestido que tínhamos escolhido na noite anterior, um gesto simples que carregava consigo a esperança de dias melhores.
Quando terminei de ajeitar os cabelos dela, prendi uma mecha atrás da orelha e sorri, satisfeita por ver um pouco do brilho que sempre amei refletido em seu rosto.
— Pronto, linda como sempre.
Ela me olhou pelo espelho e disse com ternura:
— Você parece tão calma, Hope, mas eu sei que está com medo.
— Estou — confessei, — mas a fé é maior sei que Deus está no controle.
Fiz com que ela se deitasse um pouco enquanto terminava de arrumar as coisas, um ritual de cuidado que me deixava mais centrada e menos ansiosa.
— Eu vou descer, tomar café e conversar com o senhor Anthony para combinar os horários. Depois volto para ficarmos prontas e irmos juntas ao hospital, tudo bem?
Ela assentiu, exausta, mas serena, um traço de bravura iluminando seu semblante cansado. Antes de sair, ajeitei o cobertor sobre ela e deixei um beijo em sua testa, um gesto que carregava todos os meus sentimentos misturados.
— Eu te amo, Faith.
— Também te amo, Hope, obrigada por tudo.
A voz dela saiu trêmula, e eu só consegui sorrir, porque se respondesse, choraria.
Desci as escadas com passos leves e o coração apertado, como se cada batida fosse um lembrete da fragilidade da vida.
O ar da manhã estava fresco, e a mansão parecia mais viva agora, como se respirasse junto comigo, pulsando em sintonia com minha determinação.
Antes de encontrar Anthony, senti o impulso de ver o avô dele. Bati suavemente à porta do quarto e esperei.
— Entre — ouvi a voz rouca, porém firme.
Abri a porta e encontrei o velho Vitale sentado na poltrona próxima à janela, iluminado pela luz suave do sol da manhã.
Os olhos dele — azuis como o neto, mas cheios de doçura — se ergueram para mim com um brilho acolhedor que parecia me abraçar.
— Bom dia, minha filha. — Ele sorriu, e o sorriso dele tinha algo de paz, como se cada ruga em seu rosto contasse uma história de fé e resiliência.
— Bom dia, senhor Vitale. — Aproximei-me, com o coração aquecido pela ternura que ele sempre transmitia.
— Como o senhor amanheceu hoje?
— Agora estou melhor — disse, com humor leve — porque recebi uma visita tão boa, uma verdadeira bênção que ilumina meu dia.
Senti-me tocada por suas palavras. Sentei-me na cadeira ao lado e segurei a mão dele, a conexão instantânea e reconfortante.
— Vim lhe dar bom dia e dizer que vou levar minha irmã ao hospital. Ela vai começar os exames preparatórios para a cirurgia.
Quero que o senhor ore por nós, por favor.
— Já oro desde o dia em que você entrou nesta casa — respondeu ele com um sorriso terno, como se já soubesse que nossa jornada de amor e luta estava prestes a se intensificar.
— E não se preocupe, minha filha, vai ficar bem.
— O senhor acredita mesmo nisso? — perguntei, com um nó na garganta que ecoava minha trepidante esperança.
— Acredito — disse, firme — porque o amor verdadeiro tem poder.
E o amor que você sente por ela é grande o bastante para mover o céu se for preciso, uma força que transcende tudo o que podemos entender.
Baixei o olhar, emocionada.
— Obrigada, senhor Vitale, quando eu voltar, venho ficar aqui e ler um pouco para o senhor.
— Vou esperar.
Ele riu baixinho, o eco de sua risada fazendo o ambiente parecer mais leve.
— Mas, por favor, escolha algo bonito, desses livros que curam a alma, algo para acalentar nossos corações.
— Combinado. — Aproximei-me e beijei-lhe a testa, o carinho incondicional que sempre senti por ele transbordando.
— Ore por mim e por ela, que Deus seja misericordioso e que a mão Dele guie tudo, e que possamos sempre nos lembrar da força do amor.
— Ele guiará, minha filha. — Os olhos dele ficaram marejados, o que me fez sentir que um pedaço do meu fardo estava sendo compartilhado.
— Porque os que amam de verdade nunca estão sozinhos, e essa verdade é um conforto em dias difíceis.
Saí do quarto com o coração cheio, como se cada palavra trocada ali tivesse iluminado um caminho por onde podíamos seguir.
À medida que caminhava pelo corredor, senti que o ar parecia mais leve, e por um instante, tive certeza de que o céu ouvira a conversa.
Não era apenas um dia de exames ou compromissos.
Era um dia de fé, de amor e de promessa, onde cada passo tomado havia sido moldado por esperanças renovadas.
Peguei minha bolsa, respirei fundo e subi novamente para buscar Faith. Quando entrei, ela estava pronta, sentada na beira da cama, com as mãos sobre o colo e um sorriso tímido.
— Vamos? — perguntei, estendendo a mão.
— Vamos — respondeu ela. — E Hope…
— Sim?
— Se algo der errado…
— Não vai dar — interrompi, e dei-lhe um abraço apertado, segurando-a com força como se a envolvesse em minha p******o. — Porque Deus está conosco, e nunca erra nos caminhos que escolhe para a gente.
Enquanto saíamos do quarto, olhei pela última vez o corredor iluminado pelo sol e senti que, de alguma forma, cada passo dali em diante seria guiado por algo maior do que nós duas.
Não era apenas o início do tratamento da Faith. Era o início de um milagre anunciado em silêncio — o milagre de quem crê, mesmo quando o mundo parece duvidar.